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Chacinas escolares são chocantes, mas são menos frequentes que outros tipos de massacres e crimes violentos. São visíveis pelo horror de ver crianças, promessas de futuro, tendo suas vidas bruscamente interrompidas em um ambiente que lhe devia dar segurança, acolhimento e educação.

Chocados, temos a tendência de buscar uma causa única. Reduzir o problema a um diagnóstico que nos permita imaginar que podemos evitar o próximo ataque. Queremos agir rápido e definitivamente para impedir novos horrores. Mas é uma ilusão. Não há uma causa única, nem uma solução pronta para evitar esses crimes.

Chacinas como as de Suzano (SP) ou Realengo (RJ) são fenômenos complexos que, embora tenham alguns padrões detectáveis, são difíceis de prever e evitar. Isto não significa que não haja o que fazer. Há atitudes que podem reduzir o número e a frequência de casos. Mas não é simples, demanda tempo e muitas mudanças.

O exemplo americano

Nos Estados Unidos, onde a frequência desses assassinatos em massa de estudantes é assustadora, eles representam apenas 4% dos homicídios categorizados como “mass shootings”, ou chacinas. Elas ocorrem com maior frequência em escolas do fundamental e do ensino médio, públicas, com muitos estudantes, em geral em áreas de renda baixa e média.

As pesquisas de psicólogos, sociólogos e criminologistas são unânimes em classificar as chacinas escolares como um fenômeno complexo, multidimensional, idiossincrático, que têm muitas causas. Todavia, há uma grande propensão a reduzí-los a uma só dimensão e uma causa principal.

Cada caso é um caso

Cada caso representa a confluência específica de circunstâncias psicossociológicas, biográficas e ambientais, uma combinação quase que personalizada de fatores intervenientes que detonam o desejo de matar muita gente.

São atos imprevisíveis e praticamente inevitáveis. O evento-gatilho que detona o surto sanguinário em um jovem ocorre com milhares de outros jovens e não os leva a esse ato desesperado. Deve haver milhares de jovens com síndromes sociopáticas similares às desses assassinos, que jamais cometerão atos de violência dessa magnitude, para os quais estão eventualmente propensos.

Podem não ter sido expostos a um estímulo suficientemente forte para disparar o surto. Ou faltaram fatores propiciadores à realização do impulso matador. Ou alguma relação afetiva e de confiança pessoal criou uma barreira moral que os impede de cometer tais atos.

Pessoa salvadora

O sociólogo Eric Olin Wright, recentemente falecido, em estudo do início de sua carreira sobre prisioneiros da penitenciária de São Francisco, já havia demonstrado que entre jovens e adultos saídos do mesmo meio social, com históricos de vida muito semelhantes, uns seguiam para a vida criminosa e outros não.

O fator diferenciador mais frequente era a presença de alguma pessoa em quem o indivíduo tinha confiança e com a qual estabeleceu um laço afetivo mais genuíno. Uma avó ou avô, em casas de pais ausentes ou drogados, um pastor ou um padre, uma professora ou um professor, transmitiram valores e princípios que erigiram barreiras morais sólidas contra atos criminosos, em terreno particularmente propício ao desvio comportamental.

Ou seja, barreiras que neutralizavam a propensão saída do meio social e doméstico à violência e ao crime. Não existem salvadores da pátria, mas existem salvadores de pessoas.

Etiologia da chacina

As chacinas escolares têm sido muito estudadas, por serem tão traumatizantes e pelo número de vítimas inocentes e jovens. Principalmente nos Estados Unidos, onde são mais frequentes.

A síntese desses estudos é que são atos imprevisíveis; uma fração apenas dos atacantes têm psicopatia ou psicose detectadas; a maioria termina em suicídio; em geral são alunos ou ex-alunos das escolas que atacam; o perfil biográfico de cada criminoso e as características de cada ataque variam muito; não há causas únicas.

São incidentes complexos, que comportam, em cada caso, uma conjunção específica, quase individualizada, de fatores causais, intervenientes e propiciadores.

Como sintetizou o jornalista e escritor Malcolm Gladwell, para a The New Yorker, o atacante de escolas pode ser alguém que foi brutalmente maltratado pelo mundo, alguém que se sentia brutalmente maltratado pelo mundo, ou que queria maltratar brutalmente o mundo.

São muito poucos os jovens que foram vítimas de bullying, ou estão deprimidos, ou sofreram abandono familiar que desenvolvem e realizam o desejo de matar.

Maltrato

O psicólogo Clark McCauley, que pesquisa a psicologia da violência de massa e do terrorismo, diz que o sentimento de que a pessoa foi maltratada de alguma forma está presente em número significativo, majoritário mesmo, desses atacantes.

O psicólogo forense Reid Meloy concorda. Segundo ele, 30 anos de pesquisas mostraram que há virtualmente um maltrato ou sofrimento pessoal que leva um jovem ao desejo de matar.

O psicólogo Peter Langman, um dos mais procurados especialistas em chacinas escolares, afirma que há três tipos de jovens assassinos, psicopatas, psicóticos e traumatizados. Mas há maior número de jovens psicopatas, psicóticos ou traumatizados que não se tornaram assassinos em massa.

O psicólogo forense Michael Stone analisou 200 chacinas e descobriu que em metade delas não havia evidência suficiente de doença mental dos assassinos. Em torno de um quarto deles foram detectados sinais de depressão e psicopatia.

Traços comuns

Vários estudos mostram que há traços comuns na execução do crime, como o assassinato de algum familiar antes da chacina, ou o suicídio no momento em que a continuidade do ato é impedida pela chegada da polícia, ou pela fuga das vítimas potenciais.

Um estudo determinou que em 57% dos casos de chacinas entre 2009 e 2015, nos Estados Unidos, antes do ataque a escolas ou igrejas, os assassinos mataram alguém da família.

Mas, esses padrões só podem ser detectados depois do fato. Muitas análises se baseiam no material deixado pelos jovens assassinos e suicidas, como posts, mensagens, vídeos.

Fama

A busca da notoriedade, um traço bastante comum, gera material que permite traçar o pefil desse tipo de matador. As pesquisas baseadas em entrevistas de assassinos presos trabalham com número bem menor de casos disponíveis. A grande maioria se mata ou é morta pela polícia.

De qualquer forma, a partir desses perfis, pesquisadores têm buscado identificar jovens que se enquadram neles, mas não se envolveram ainda em chacinas ou outros atos de violência mortal.

A psiquiatra clínica Deborah Weisbrot entrevistou centenas de jovens que fazem ameaças de assassinatos em massa na Internet e verificou que muito deles se inspiravam em casos famosos, como de Columbine.

Esse desejo de notoriedade, de fama, está associado à exacerbação do narcisismo nesses indivíduos. A personalidade narcísica caracteriza muitos daqueles que se dedicam ao culto das armas, em geral fuzis de assalto, simbolizando a potência que essas pessoas não têm. Deixam-se fotografar cercados de armas pesadas, para simbolizar a potência idealizada.

Ressentimento

Não são apenas personalidades de narcisismo exacerbado que levam a esses caminhos sanguinários. Personalidades fracas, ressentidas, que buscam uma forma de parecer fortes, dominantes, também podem desembocar em comportamentos de violência extrema. A busca do arquétipo que permite construir uma persona destituída das fraquezas e dos ressentimentos daquele indivíduo, de qualquer forma se alimenta de traços narcísicos.

Há vários estudos mostrando que esses ataques estão relacionados a histórias de fracasso pessoal, problemas corporais, dificuldades com a masculinidade, crises de adolescência não resolvidas ou mal resolvidas. A maioria esmagadora dos assassinos é formada por jovens entre 15 e 25 anos (idade média 16 anos) do sexo masculino. Os casos de meninas assassinas são muito poucos, embora existam.

Esses problemas de autoestima e falta de referência os levam a buscar referências e modelos nos filmes, na Internet, nos games, nos animes e mangás, nas graphic novels. São fontes nas quais essas pessoas buscam um modelo, um arquétipo, que lhes permita viver a fantasia de poder. Outros encontram essa imagem referencial em chacinadores famosos, ou bandidos históricos.

Games

O psicólogo da Universidade Stetson, Flórida, Chris Ferguson fez uma revisão dos estudos que correlacionaram os vídeo games violentos, tipo Mortal Combat ou Call of Duty, e comportamentos violentos criminosos, bullying ou violência contra mulheres e concluiu que não existe evidência de que os jogos estimulem esse tipo de comportamento.

Katie Salen Tekinbaş, professora de game design da Escola de Computação e Mídia Digital da Universidade DePaul, e Eric Zimmerman, professor do Game Center da Universidade de Nova York (NYU), argumentam, no livro As regras do jogo, que os jogadores têm perfeita noção de que o game é fantasia e não realidade. A ideia de que a imersão no enredo do jogo é tão completa que confunde realidade e fantasia e gera o desejo de matar no mundo real é uma falácia, chamada de falácia da imersão.

Todo o contexto visual e sonoro dos jogos, a possibilidade de adotar múltiplas perspectivas para examinar o cenário e escolher diferentes personae são componentes que interrompem sequencialmente a sensação de imersão. Reforçam a alteridade dos jogadores.

Os psicólogos Patrick Markey e Chris Ferguson, em seu livro Moral Combat, identificam outra falácia, que adota o nome de um dos jogos pioneiros da lista de jogos violentos, The Grand Theft Auto. Esse game é do início dos anos 2000. Eles dizem que, embora alguns desses assassinos sejam ávidos por atenção, inclusive na mídia social, não há evidência de que a mídia seja uma causa primária na etiologia do crime.

Segundo eles, a tendência a relacionar crimes violentos e o hábito de jogar videogames se dá porque em alguns casos foi possível identificar os assassinos como jogadores habituais de jogos violentos. Mas, esse raciocínio desconsidera os milhares de atos violentos feitos por pessoas que não jogam jogos de violência e os milhões de pessoas que jogam vídeos violentos e não cometem atos de violência. Quando alguém que não gosta de videogame se envolve numa chacina, ninguém lembra de notar isso.

O psicólogo Douglas Gentile, da Universidade Estadual de Iowa, não descarta essa relação automaticamente, mas afirma que não é uma causa singular, nem primária. A exposição à violência, segundo ele, não só dos games, mas da TV e do cinema, pode ser um de muitos fatores que contribuem para tornar alguém propenso a cometer atos de violência.

Em geral, a reação violenta mais frequente, nesses casos, se dá em resposta a uma provocação. Mas, no caso de chacinas escolares, há muitos outros fatores a considerar, como o sexo, porque há maior frequência de envolvimento de garotos e jovens do sexo masculino têm maior propensão à violência; se sofreram bullying; se vêm de uma família organizada e estável. O problema é que, diante de um evento traumático como matanças em escolas, faz-se a pergunta errada — qual a causa? — assumimos que há uma só causa e nunca é o caso.

Arquétipos

No livro Moral Combat, os autores mostram que mesmo esses videogames mais violentos podem ter um impacto positivo nas habilidades sociais, na capacidade de interagir com os outros, na redução do stress e até mesmo na aquisição de maior sensibilidade moral. Por outro lado, podem também servir de guia e ajudar na construção de arquétipos e modelos para jovens já predispostos à violência e em busca de referências. Nesses casos, os modelos oferecidos pelos videogames podem preencher os vazios e fraquezas de personalidade, permitindo a realização do eu idealizado capaz de realizar grandes — e horríveis — tarefas. Mas este papel os filmes, a TV, os mangás, as graphic novels, a mitologia, também podem exercer. O filme icônico de Martin Scorcese, que precede os videogames, já trata dessa busca de um "role model".

A busca da notoriedade e da fama por chacinadores tem feito muitos sociólogos e psicólogos recomendarem que a cobertura da mídia evite dar destaque aos assassinos, dizer seus nomes. Os fatos têm que ser narrados, porque precisam ser de conhecimento geral. Mas as histórias podem ser contadas sem dar protagonismo aos assassinos. Não por eles, na sua maioria mortos, mas para evitar o contágio, a cópia, o mimetismo, que leva a novas chacinas.

Mas, Peter Langman alerta, em estudo recente sobre os diferentes tipos de influência de modelos de referência e busca da fama em assassinos que copiam chacinadores famosos como os de Columbine, que ataques prévios não causam ataques subsequentes. Há muitos fatores que contribuem para cópias de atos de violência, psicólogicos, sociais, crises de adversidade, choques emocionais súbitos, perdas de referência, entre outros.

São vários os caminhos pelos quais assassinos famosos são tomados como exemplos por jovens perturbados por um conjunto de fatores. Vários jovens idolatravam como heróis assassinos conhecidos por chacinas famosas. Outros endeusavam os criminos de sua admiração e viam como sua missão copiá-los. Outros apenas se identificavam com algum desses criminosos, imaginando compartilhar traços físicos, biográficos ou emocionais com eles. Outros admiravam profundamente a capacidade de execução dos criminosos.

Para mim, o caso mais impressionante foi narrado por Malcolm Gladwell na The New Yorker. Um jovem pré-adolescente, portador da síndrome de Asperger, foi apontado para a polícia por uma mulher que o viu caminhando por seu quintal, numa pequena comunidade nos Estados Unidos, e achou que estava estranho aquele dia. A polícia o encontrou em um depósito no qual havia explosivos, bombas e armas. Na delegacia, ele contou ao policial que pretendia explodir uma bomba térmica no corredor da escola, na hora da saída para o recreio e fuzilar os sobreviventes. Eles conhecia detalhadamente várias chacinas e métodos.

Brilhante e perfeccionista, buscava corrigir os erros que identificava, e planejava o ataque perfeito. O acaso, e o perfeccionismo que o fazia sempre achar que podia fazer melhor e por isso adiavam o ataque, salvaram as crianças e o livraram de se tornar um chacinador.

Os assassinos brasileiros

Os assassinos de Realengo e Suzano enquadram-se perfeitamente no perfil identificado nas pesquisas sobre as chacinas escolares nos Estados Unidos. Estão na faixa etária (17 e 25 em Suzano, 23 anos, em Realengo); eram ex-alunos das escolas que atacaram. Em Suzano, o assassino com personalidade dominante, o mais novo, fora criado pela avó, que havia morrido há três meses. Tudo indica que era ela sua relação referencial. Há indicações de que fora vítima de bullying. Em Realengo, o assassino fora vítima de bullying, era filho adotivo, a mãe adotiva, aparentemente sua relação referencial, havia morrido há um ano, a biológica sofria de doença mental.

Os assassinos de Suzano jogavam Mortal Combat e Call of Duty, participavam de chats de culto às armas, ao ódio e à violência e, aparentemente, admiravam os chacinadores de Columbine. O criminoso de Realengo frequentava sites de islamismo radical e terrorismo e demonstrou grande confusão religiosa.

Em Suzano, o assassino de personalidade dominante matou o companheiro e se matou. O matador de Realengo cometeu suicídio, após ser baleado na barriga.

Se fizermos uma pesquisa no Rio de Janeiro e em São Paulo, vamos encontrar centenas, milhares de histórias similares, que não se converteram em enredos de chacina.

Parte das mudanças necessárias para reduzir a probabilidade desse tipo de evento está no plano macrossocial: eliminar a pobreza; reduzir a desigualdade; combater os comportamentos discriminatórios; melhorar a qualidade e a ambiência da educação, principalmente nas escolas públicas; reduzir o acesso às armas de fogo e combater o tráfico ilegal de armas.

Outra parte, é microcomportamental. O bullying não é fenômeno novo ou recente. Mas sua intensidade e exposição aumentaram muito. Nas escolas, os professores precisam ter mais atenção ao fenômeno.

Precisam, sobretudo, focalizar cada aluno individualmente, para identificar sinais de excessiva timidez, reclusão, ressentimento  raiva. Os especialistas dizem que cada classe deve ter tamanho suficiente para que a atenção possa ser individualizada e deve haver "coaches" disponíveis e dispostos a identificar os mais isolados, menos sociáveis e ajudá-los. Nada disso evitará chacinas terríveis como as de Suzano e Realengo, mas pode reduzir sua probabilidade. Principalmente, essas ações melhoram o bem-estar, a qualidade de vida e a educação dos jovens, um valor em si do qual temos descuidado de forma cruel e irresponsável.

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