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Escolhas insensatas saem caro. A história mostra que a conta chega no médio e longo prazo, dependendo das conjunturas. Mas, o cobrador chega sempre, implacável, como uma espécie de vingador da história.

A crise energética mundial estava contratada. Após a parada forçada da economia global por causa da pandemia, quando todas as atividades foram no mínimo desaceleradas, a retomada da economia certamente enfrentaria a disrupção nas cadeias globais de suprimento. Petróleo escasso, preços elevados, outono/inverno, quando a demanda por aquecimento cresce no hemisfério norte, crise de abastecimento. Mas, embora todos os países entrem em crise, cada país entra em crise à sua maneira. É o momento de prestação de contas. É a hora de pagar o preço das decisões insensatas.

O Brasil recebe a mais pesada das contas, pela insensatez absoluta que nos domina, desde a eleição de Bolsonaro. Como já deveríamos saber pelo que nos ensina a história é possível que milhões de pessoas, entre elas as mais ricas e bem educadas, errem muito ao mesmo tempo. Imaginar que Bolsonaro, um homem visivelmente limitado, um deputado medíocre, uma mentalidade autoritária, seria capaz de bem governar o país foi um erro evidente, em parte fruto da eficácia das fake news, em parte resultado do autoengano das elites, especialmente do mercado financeiro.

Parte do autoengano das elites era a fantasia de que um homem seria capaz de mandar no governo por trás do presidente. Foi a aposta em Paulo Guedes como uma espécie de Merlin da mesa quadrada de Bolsonaro. Mas, ninguém consegue ser eminência parda no governo de uma pessoa narcísica, autoritária, cabeça-dura, mente limitada e ideias fixas.

De outro lado, Paulo Guedes não tem a personalidade para ser um Rasputin e estaria mais para Merlin, um ser de lenda, mas não tem os talentos de um mago. Também não tem a personalidade, nem o talento político para seduzir mentes imperiais. Não poderia ser nem mesmo um Richelieu, ou um François Leclerc du Tremblay, o barão transformado em capucinho que comandou a rede de informações de Richelieu. Está mais acostumado a ver sua vontade realizada, em um ambiente controlado, que lhe permite assumir calculadamente riscos administráveis. Não há qualquer garantia de que um financista bem sucedido consiga ser o ministro mediano das finanças, o que dizer de um ministro de grandes ambições, reformista, que deseja virar a história econômica do país de ponta cabeça, no governo de uma pessoa inepta, mas convencida de que sempre está certa.

É preciso muita gente delirante para acreditar nesta possibilidade. O desgoverno em que vivemos os últimos dois anos tem um comandante, Jair Bolsonaro, mas é resultado de escolhas insensatas e infundadas de algumas centenas de pessoas bem mais qualificadas e que se deixaram enganar por seus preconceitos, suas ambições e seus desejos ilusórios. A elite brasileira acreditou, novamente, em mágica. Mesmo aquela parte dela que sempre condenou a crença em remédios milagrosos.

Mas, não estamos sós. E isto não é consolo algum. No Reino Unido, vive-se a crise energética, em aflição e conflito, porque a escassez é muito mais séria. É o resultado da sequência de escolhas insensatas em relação à Brexit. A saída da União Europeia foi uma escolha inesperada, produto do primeiro experimento de uso de fake news para influir em processos eleitorais. A decisão não precisava ser implementada, mas os governantes britânicos insistiram em levá-la adiante, a qualquer custo. Foram especialmente insistentes, a então primeira-ministra Theresa May, que pagou seu preço pessoal ao sair derrotada da chefia do governo, e Boris Johnson, que pode terminar vencido por esta crise. O povo começa a pagar agora o pesado custo da insensatez geral.

A pandemia interrompeu os processos econômicos que poderiam ter antecipado a chegada do cobrador. Com a abertura das fronteiras, os caminhões europeus já não podiam circular livremente entre o continente e a Inglaterra. A soma da insensatez de milhões de cidadãos e uma parte significativa da elite, fez com que a ilha imperial decidisse "isolar" o continente europeu. As mercadorias não podem mais circular livremente, a crise de abastecimento está se generalizando. Não é só a gasolina que tem dificuldades para atravessar a fronteira. Mantimentos também começam a faltar nas prateleiras dos supermercados. Não faltou quem avisasse que há um grande custo em se isolar das cadeias globais. Neste mundo globalizado em transição, são escassas as possibilidades de sucesso de ilhas. Até porque, elas podem se conectar e superar as limitações do isolamento. Mas ninguém contou ao povo que, isolado, o poderoso Reino Unido não teria motoristas suficientes para dirigir centenas de caminhões, produção interna suficiente para abastecer toda a população. Talvez sequer tenha tantos caminhões para substituir a rede logística europeia que abandonou.

Agora, cada um viverá a crise à sua maneira. Cada povo enfrentará a crise como escolheu. No caso dos brasileiros, como escolheram em 2018. Todos tiveram a oportunidade de fazer escolhas mais sensatas e que faziam muito mais sensível. Havia oferta diversificada de opções. Escolheram a pior. Agora, o cobrador implacável bate à nossa porta, sob a forma de recessão, inflação, crise energética, desemprego, pobreza, fome e perdas econômicas. O mercado financeiro que apostou em falsos profetas, não perde. Foge para ativos mais sólido e transferem a conta que deveriam pagar para os que não têm como escapar do circo bolsonarista.

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