Passava na manhã de um sábado de sol outonal pela Voluntários da Pátria. Logo no início da rua, uma cena chamou minha atenção pelo breve instante em que a pude acompanhar. Um casal, certamente morador do prédio em frente ao qual estava sentado tomando sol e olhando o escasso trânsito daquela inicial hora matinal. Que sentido fazia ficar sentado na Voluntários, respirando a fumaça tóxica dos veículos? Foram segundos de olhar e reconhecer. Logo, minha memória me levou à rua de terra da casa de meu bisavô, logo após a entrada pela BR040, num tempo em que a maldição do asfalto era coisa de cidade grande.
Por volta de 16:30-17:00 hrs já estavam dispostas na calçada duas poltronas e alguns puffs. Nas poltronas sentavam-se meu bisavô Juca e minha bisavó Zizinha. Nós crianças chamávamos de vovô Juca e vovozona, porque ela tinha o físico de quem amava bolos e broas açucaradas que dispunha para nós numa cristaleira com vidros de cristal na porta. Era uma armadilha para capturar os netos e mantê-los em sua casa. Meu bisavô era diferente, ele nos seduzia com bodoques feitos com suas próprias mãos, que nossas mães proibiam. Mas, dado por ele, tudo podia. De resto, nos atemorizava com a obrigatoriedade de comer o que era servido à mesa. Peixes por ele pescados eram sempre bons, exceto quando tinham finas e perigosas espinhas. Meu bisavô Juca era amado pelos pobres a quem atendia de graça e pelos abonados que pagavam suas contas. Salvou muitas vidas de pobres e ricos. Por isso era reverenciado naquela rua de chão vermelhão.
Um dia, no almoço dominical, meu primo Renatinho, filho da Shil, devia ter uns cinco anos, engasgou com uma espinha e não respirava. Foi uma aflição só. Menos meu bisavô, que se levantou calmamente, chegou até ele, mandou que abrisse a boca e enfiou-lhe um dedo longo, parecia interminável, na garganta e retirou a espinha. Vovô Juca tinha 1,90 de altura. Suas mãos de dedos longos, nos deixavam apavorados. Comíamos os peixes com tanto cuidado que nem sentíamos o sabor. Não era o engasgo que nos assombrava, eram seus longuíssimos dedos.
Nos puffs sentavam-se minha vó Norah, minha mãe e duas tias, Shil que vinha logo depois de minha mãe, a mais velha, e Gracie, a mais nova. Eu tinha o privilégio de ter um puff para mim. Ficávamos vendo o modorrento passar da cidade pela calçada. Todos vinham cumprimentar meu bisavô, o melhor e mais conhecido médico do sertão mineiro. Frequentemente víamos passar em frente à casa boiadeiros tangendo o gado para o curral municipal.
Não tínhamos o hábito contemporâneo de os chamarmos “bisa”. Minha bisavó odiava o “vovozona”. Reclamava muito com minha avó, a filha mais velha. Eu, neto e bisneto mais velho, tinha tratamento especial. Minha vó inventou a solução. Chamaríamos a bisa de vovó Zizinha e a ela, de vózinha. O diminutivo não a ofendia. Ela era mignon e magrinha. Uma fazendeira de tretas, a primeira, e por anos única, mulher da cidade a só vestir calças jeans, elas se chamavam “rancheiras” ou “faroeste” naquele sertão bravio. Vestido, só em missas, casamentos, batizados e enterros. Montava melhor do que os homens. Destemida, saía pelos sertões a cavalo para colecionar histórias que, depois, me contava antes de dormir. Tinha encontros com onças, urutus, bezerros desgarrados, lindas veredas. Coisas do sertão cerrado que ainda não havia sido devastado pela soja e pelo gado. Hoje, o casarão neoclássico de meu bisavô é só um buraco, na realidade e na memória. Foi demolido por governantes descuidosos do valor patrimonial histórico, cultural e imaterial, com a conivência do Instituto do Patrimônio Histórico que serve aos interesses econômicos dos poderosos e não ao povo.
Aquelas tardes munca fizeram sentido para mim, exceto quando passava a boiada, ou quando o sorveteiro da esquina nos trazia picolés de tamarindo, ameixa e côco queimado. Sabores de infância e interior. Eu gostava mesmo era de cavalgar pelas ricas savanas do sertão e deixar o animal beber da água de um rio cristalino cortando vividamente uma vereda. O cavalo no qual aprendi a montar naquele sertão bravio foi o manga-larga negro de meu avô, o vôzinho Morel, chamado Ouro Preto. Décadas depois, comprei um Campolina negro, que se chamava Verdugo no registro. O nome nada tinha a ver com ele de índole dócil e marcha excepcional, que passou a todas as suas crias. Melhor marchador em que já montei e melhor reprodutor. Chamei-o Ouro Preto. Ficamos muito amigos, ele foi minha montaria preferida. Saí muitas vezes em cavalgadas com ele, em meio a éguas no cio. Ele mostrava sua virilidade, mas jamais disparou para ir atrás delas. Continuava marchando, vez ou outra emitia um fungado de desejo e se comportava. Era o que se podia chamar de gentleman da espécie equina. Morreu com dignidade 15 anos depois. Esta sim, uma experiência que sempre fez sentido para mim.
A outra memória, na casa de meus avós paternos, na Serra da Mantiqueira, era bem diferente. Ninguém saía para a calçada a tomar sol e ver o movimento dolente das tardes frias. Todos iam para a Praça da Matriz fazer o footing. A cidade se orgulhava dessa tradição marcada pelo anglicismo na linguagem. Nas férias, os jovens retornados das aulas fora iam ao footing flertar e daquela praça saíram muitos casamentos. Nunca fizeram sentido para mim aquelas voltas lentas e repetitivas pela praça. Eu gostava era de olhar as árvores. Em suas copas moravam um casal de barbados e uma preguiça. Ela mimetizava a atitude modorrenta dos humanos em terra. Eu apontava e dizia: “olha papai, os macacos”. E ele corrigia, “não são todos macacos, meu filho, tem um bicho preguiça”. Só adulto, fui saber que preguiças não são mesmo primatas, são da ordem da Pilosa e do grupo Xenarthra ao qual pertencem, também, os tamanduás.
A conversa era tão diferente nas duas cidades que hoje me parecem saídas de brasis diferentes. E de fato saíram. A cidade de meu pai, à época sem jovens, porque todos iam estudar em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro, era cidade de velhos. Só de falava das mortes recentes de pessoas conhecidas. Sempre achei conversa estranha e macabra. Hoje, a cidade tem bons colégios e faculdades, está cheia de jovens, inclusive de outras partes do Brasil. Na cidade de minha mãe, havia jovens, embora não houvesse colégios tão bons quanto os das capitais. Muitos iam, é verdade, estudar em Belo Horizonte. Mas boa parte das famílias se contentava com o ensino local. Afinal seriam todos no futuro criadores de gado e donas de casa. Não precisavam ir além de ler, escrever e fazer contas.
Lá a conversa era sobre coragem, gado, pescarias, caçadas e almas penadas. Achava uma conversa muito mais viva e interessante. Na fazenda de meu avô, vendida por uma bagatela logo depois que seu melhor touro reprodutor morreu picado de cobra, eu ia de tardezinha com ele para a roda dos peões. Terminada a lida, eles bebiam cachaça produzida no alambique da fazenda, que diziam ser muito boa, e ficavam de prosa. Provei de uma das garrafas que ele guardou e era mesmo muito boa, branquinha, sem a interferência de raízes ou madeiras, como deve ser. Quando a lua ia alta, meu avô ia se deitar. Mas só depois de umas duas ou três cantorias regadas a pinga. Ele tocava violão e tinha uma voz forte e afinada. Deixava-me lá para voltar sozinho e crescer.
A fogueira na noite quase alta tinha só as brasas, ficava a uns 300 metros da sede modesta que servia apenas como pouso de trabalho. Na varanda, uma bruxuleante lamparina era toda a luz. E a luz do firmamento, que se abria esplendoroso naquele sertão apagado. Eu voltava só e apavorado, pisando a luz das estrelas, com todas as almas penadas e assombrações atrás de mim. Sabia que se olhasse para trás as veria e elas tomariam meu espírito e, um dia, eu me tornaria uma delas. Nunca olhei para trás. Seguia com os olhos fixados na lamparina, o suor me congelando as costas e aquele sopro frio do além-túmulo na minha nuca. Isso sim, sempre fez sentido.
Com o olhar da maturidade avançada vejo que aqueles hábitos repetitivos eram parte da formação cultural e da convivência social, com suas mazelas e indevidas hierarquias. As pessoas iam cumprimentar meu pai reverencialmente, como um nativo da cidade que havia se tornado importante na capital federal. O único capaz de atravessar a histórica polarização da cidade, politicamente dividida entre duas famílias. Meu pai se elegeu vereador, o mais votado, e presidiu a Câmara de Vereadores, na chapa de uma delas. Mas era primo do patriarca da família rival. Chegava à cidade e ia visitar os dois oligarcas-patriarcas inimigos que eram casados com irmãs. A cidade tinha duas matrizes, dois clubes, dois botecos, um para cada família e seu séquito. Um verdadeiro Fla-Flu político. Mas sem os ódios de nossos tempos. Só rivalidade. Meu pai dizia suspeitar que era tudo encenação e que, na realidade, eles se davam bem. Ele não fez carreira na política. Preferiu atuar como advogado e professor de direito e processo civil na UnB. Fazia política na Ordem dos Advogados, que presidiu. A política nunca saiu de seu sangue.
Na fazenda, aprendi sobre coragem e a vida de homens que só falavam de mulheres-fantasmas. Herança contra a qual tive que lutar a vida toda. Mas aprendi na cidade sobre gratidão e bondade. Na Serra, aprendi o valor da vida, pelo seu reverso, o culto prosaico da morte.