Ele começou pequenininho, como quem bate um papo num bar, no intervalo do violão. Bom mineiro, papo jeitoso, foi levando gente grande pro seu boteco. De conversa em conversa, cresceu, e o Sempre um Papo, de Afonso Borges, completa 40 anos.
Ao longo desses 40 anos, perdemos vários — e bons — suplementos literários, o JB, que sempre falava de livros no Caderno B, morreu, programas sobre literatura na TV foram descontinuados. O Sempre um Papo ficou solitário conversando com escritores sobre suas obras e, na contramão, foi crescendo. De Belo Horizonte, onde começou e tem sede, espalhou-se, para São Paulo, Rio de Janeiro, Paracatu.
Começou pequenininho, mas com nomes grandes. Entre eles, gigantes, como José Saramago e Toni Morrison, ambos ganhadores do prêmio Nobel de Literatura, Mário Vargas Llosa, Jean Baudrillard, Alain Touraine e Alain Badiou. Escritores de passagem breve e marcante pela literatura brasileira, como Raduan Nassar, autor de dois livros legendários, Lavoura Arcaica e Um copo de cólera. Autores notáveis que marcaram a história do jornalismo e da literatura, como Otto Lara Rezende, Zuenir Ventura, Ziraldo, Ruy Castro. Best-sellers reclusos como Paulo Coelho. Mulheres extraordinárias, como Fernanda Montenegro, Zélia Gatai, Nélida Piñon, Adélia Prado, Lya Luft e Marina Colasanti. Escritores africanos também são muito bem acolhidos, como a ruandesa Scholastique Mukasonga, o moçambicano Mia Couto, o angolano José Eduardo Agualusa. Os portugueses também são frequentes, como Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto e Gonçalo Tavares. A lista é inesgotável.
A solidão do Sempre um Papo na literatura não foi remediada com a chegada dos festivais literários. Eles se espalharam pelo país, entraram pelo interior e aumentaram a população de leitores. Mas, festivais são amostras amplas, apresentam um mosaico de autores. O Sempre um Papo é meio conversa ao pé do ouvido, prosa mineira, um autor e Afonso. Mais recentemente, a mediação se estendeu para outras pessoas, mas sempre no formato um a um. Os autores e autoras têm tempo para falar de sua vida literária, de seus livros. Sempre assinam livros após a conversa, fazendo do Sempre um Papo espaço de lançamento de livros.
Afonso Borges, entretanto, viu e gostou da tendência, começou um festival em Araxá, que vai para o décimo quarto ano. Em seguida, Itabira, terra de Drummond. Depois, Paracatu, cidade na ponta do Sertão Cerrado, parte do roteiro de Grande Sertão: Veredas e terra de Afonso Arinos, pioneiro das estórias sertanejas. Tudo se casa. Guimarães Rosa foi recebido na Academia Brasileira de Letras por Afonso Arinos de Melo Franco, sobrinho-neto do escritor Afonso Arinos.
Os festivais organizados por Afonso Borges se destacam pelo respeito e centralidade que ele dá aos escritores e escritoras que convida. Divide-se, por isso, entre o momento de interação muito próximo entre autores e leitores, e o momento de convivência e trocas entre os escritores. Desses encontros pessoais já nasceram vários projetos literários. Para os leitores, organiza uma livraria com entre 20mil e 30mil títulos, entre toda a produção disponível dos convidados. Hoje, os festivais têm curadoria plural, com representação igualitária por gênero e raça. As mesas são sempre interétnicas e intergêneros. O Sempre um Papo segue a regra. Hoje é espaço de conversa interétnica e intergêneros.
Pode parecer difícil fazer algo assim e tão durável. Mas não é para Afonso. Afora as dificuldades recorrentes para conseguir patrocínio, sempre via Lei Rouanet. Há momentos em que as empresas passam a desprezar a cultura, em particular a literatura. É um erro de gestão de marca, o patrocínio aos esportes e a eventos culturais, inclusive literários, é que lustram a reputação e dão prestígio às empresas.
Mas o modelo e a execução dos festivais não são difíceis para Afonso. Ele já tem um método vitorioso de organização. Reunir autores, fazer e patrocinar amizades e criar um ambiente de aconchego não é mistério para um agregador, fazedor de grandes amizades e papo sempre ameno como Afonso Borges. Daí os 40 anos de longevidade e crescendo.