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O gatilho atômico e as escolhas estratégicas

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O alerta da embaixadora do Reino Unido na ONU, em nova sessão de emergência do Conselho de Segurança, Barbara Woodward, deu a medida da gravidade do risco representado pela tomada da usina atômica de Zaporizhzhia na Ucrânia. Ela disse que, pela primeira vez, um estado atacou uma usina nuclear em plena operação e totalmente equipada e isto não pode acontecer novamente. É um ato ilegal e criminoso, de acordo com a lei internacional e o artigo 56 do Protocolo Adicional da Convenção de Genebra, segundo o qual usinas de geração nuclear de eletricidade não podem ser objeto de ataque, mesmo que sejam objetivos militares, se criarem o perigo de liberar forças perigosas que causem graves danos à população civil. É o caso. A embaixadora ainda afirmou que “precisamos ouvir [de Putin] que isto não acontecerá de novo”.

Este alerta foi repetido, de distintas maneiras por membros do Conselho de Segurança. Ele mostra que o gatilho nuclear não diz respeito exclusivamente ao ataque com mísseis carregando ogivas nucleares. O bombardeio de uma usina nuclear ou nos arredores dela, dependendo da intensidade das explosões, provocariam um acidente catastrófico, de proporções maiores do que o vazamento de Chernobyl. E suas consequências poderiam atingir países membros da OTAN, configurando uma agressão que exigiria resposta dos aliados.

É exatamente este risco de catástrofe nuclear, que pode acontecer por diferentes cenários, que dá dimensão global à invasão da Ucrânia, para além da tragédia humanitária. É, também, a existência desse sensível gatilho nuclear que limita a ação militar da OTAN e dos Estados Unidos. Como disse o porta-voz do Pentágono, almirante John Kirby, ao anunciar o adiamento de um teste de mísseis de longo alcance dos Estados Unidos, é preciso evitar qualquer mal entendido que possa se tornar uma crise nuclear.

A captura da usina de Zaporizhzhia marca o nono dia da guerra na Ucrânia e o início de sua etapa mais brutal. As forças russas avançam, lentamente, mas vão sitiando as principais cidades da Ucrânia, fecham rotas de saída para o mar como Kherson, Odessa, Mykolaiv e Mariupol. Evidentemente controlam toda a zona de fronteira com a Ucrânia. Como foi obrigado a mudar sua estratégia em solo, diante da inesperada resistência ucraniana, a Rússia passou a dar preferência a intenso bombardeio de todas as áreas que pretende controlar. É a mais desumana das estratégias. Basta lembrar o que aconteceu em Grozny, capital da Chechênia, em 1999, onde a entrada das tropas na cidade foi precedida por intenso e prolongado bombardeio da infantaria pesada, deixando a cidade em escombros. Enquanto a capital ficou sitiada e sob fogo, os russos tomavam outros pontos estratégicos. Eles têm uma amarga experiência com os confrontos urbanos. Vão adaptando suas táticas diante de cada situação concreta, mas o desenho estratégico é uma marca histórica da ação militar russa.

Tudo se complica por dois fatores. Um, diretamente ligado ao gatilho nuclear. A matriz elétrica da Ucrânia é fortemente concentrada em usinas de geração de energia atômica. São, ao todo, 15 reatores, que ficam no oeste, no sul e no sudeste do país. Além da planta desativada de Chernobyl. A Ucrânia assinou, em dezembro de 1994, com Rússia, Estados Unidos e Reino Unido, o Memorando de Budapeste dentro do tratado de não-proliferação, aceitando se tornar um estado não-nuclear. Significa que não pode produzir sua própria carga de material nuclear. As usinas dependem da Rússia para o suprimento de material nuclear. Mas, como mostra o mapa que encabeça este post, as usinas estão em zonas de guerra, aumentando o risco de incidentes graves.

O segundo fator é tempo. Ele opera contra a Rússia. Quanto mais tempo durar a guerra, mais difícil fica reabastecer as tropas e substituir efetivos. Além disso, as sanções econômico-financeiras terão efeitos cada vez maiores sobre a elite econômica e sobre o povo, ameaçando o sólido controle político de Putin. Este, se assenta na aliança simbiótica com os czares da economia, os oligarcas, e na alta popularidade, fortemente ajudada pela dura repressão a qualquer contestação. Por isso a censura à todos os meios de comunicação independentes, do Facebook e do Twitter.

Do lado ucraniano, o tempo permite a chegada da ajuda militar em armas, equipamentos e munições, embora represente pesadíssimas perdas de vida e patrimônio. Se aguentarem a pressão e a estafa, tudo indica que são resilientes a este ponto, terão mais condição de resistir ao avanço russo. Mas é um quadro desesperador de qualquer forma. As cidades bombardeadas pela Rússia estarão em escombros e as perdas humanas serão enormes.

Daí a necessidade de aproveitar qualquer possibilidade para abrir negociações. Seria interessante estimular uma atitude mais proativa da China como mediadora do conflito. O presidente francês, Emmanuel Macron, que mantém uma linha aberta com Putin, também deveria receber poderes da coalizão para tentar uma negociação e interagir com a China neste sentido. É uma escolha estratégica. Se a coalizão acha que a Rússia está derrotada, porque fracassou na tentativa de uma solução militar rápida, vai apostar no efeito das sanções e na resistência ucraniana anabolizada pela ajuda com material militar. Mas, teria que aceitar os riscos inerentes a esta escolha, inclusive de incidentes que ameacem disparar o gatilho nuclear. Se imaginar que a Rússia possa prevalecer sobre uma terra devastada, vai preferir abrir uma trilha para a negociação. Teria que aceitar o risco de que Putin consiga mais do que conseguiria na hipótese de ser derrotado e que a China saia como vitoriosa, com maior projeção diplomática global.