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Corredores humanitários dirão se há saída negociada na Ucrânia

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A Ucrânia está lutando sozinha contra um invasor brutal e militarmente mais forte. As tropas não avançam sobre as principais cidades, embora elas estejam sitiadas. Com as forças invasoras cercando os centros urbanos, a infantaria pesada e as aeronaves bombardeiam impiedosamente aparentemente preparando o terreno para a tomada definitiva das cidades. É resultado da mudança de tática militar da Rússia. É resultado da frustração da expectativa russa em completar seus objetivos em poucos dias? É sim. Mas, é preciso considerar que esta tática é parte integrante da ação militar da Rússia. O uso dos ataques aéreos e do bombardeio da infantaria pesada é para quebrar o moral da população, destruir infra-estrutura das cidades e forçar a evacuação de civis. É o modelo de guerra russo.

O gatilho nuclear voltou à agenda de risco na invasão russa porque deixou a OTAN e seus aliados sem possibilidade de reagir no plano militar. Por outro lado, a posição russa no mercado de petróleo, no momento, levanta muito a barra de custos do embargo das importações do produto. É claro que vai ajudar a acelerar a transição para uma matriz energética livre de fósseis, mas no curto prazo nada há a fazer. Ou importa-se óleo da Rússia, ou aceita-se a redução do abastecimento. As formas de lidar com desabastecimento de combustível têm custo elevado. A elevação do preço nas bombas alimenta a inflação que já está subindo. O estabelecimento de cotas por setores de atividade não reduz o preço e pode se refletir no nível de atividade. 

O presidente Joe Biden anunciou o embargo americano sobre o petróleo russo. Mas, nem todos os seus parceiros europeus na OTAN estão dispostos a acompanhá-lo nesta decisão, pelo menos por enquanto. Boris Johnson avisou ao parlamento que vai apresentar amanhã um plano para abandonar as importações de petróleo russo. O Reino Unido, como os EUA importam relativamente pouco petróleo da Rússia, comparado aos europeus da UE. A União Europeia está ultimando um plano para acelerar a transição para a energia limpa nos próximos 8 anos. Nos EUA, o aumento do preço do diesel e da gasolina podem tornar competitivo o shale oil (óleo de xisto) americano, mas com alto impacto ambiental. Outro caminho, péssimo do ponto de vista ambiental e climático, é voltar a usar carvão. Aí o mundo estaria comprando um futuro de tragédia climática fora de proporções aceitáveis. A única nota positiva neste campo é que a visão do petróleo como um risco geopolítico crescente acelere a transição para a energia limpa e a economia de baixo carbono. Mas isto leva algum tempo para se verificar.

A União Europeia e o Reino Unido vão anunciar um plano para reduzir a importação de óleo e gás da Rússia e acelerar a transição para uma matriz energética limpa. Mas nada muito relevante pode ser feito no curto prazo.

Sem poder escalar as sanções econômico-financeiras de forma mais efetiva no curto prazo — todas as novas sanções são contra oligarcas — a única saída para interromper a guerra é diplomática. Seria uma negociação mediada na qual, pela primeira vez, os Estados Unidos não seriam a principal força. Dos governantes europeus, Macron e Scholz são os que mantém alguma comunicação com Putin, o que os situa em melhor posição para negociar. Mas, os dois interlocutores que podem ser mais efetivos são a China e Israel.

O ministro chinês das relações exteriores, Wang Yi, disse ontem em Pequim que a China está pronta para mediar as negociações para o cessar-fogo. Ele já havia conversado com o ministro ucraniano Dmytro Kuleba e a Ucrânia concordou com a mediação chinesa. O chanceler chinês deixou claro que a parceria entre China e Rússia é sólida como pedra. Isto faz a China um mediador mais aceitável para Putin. A China quer acabar com o conflito na Ucrânia, que atrapalha seus planos estratégicos na Eurásia e dificulta ainda mais suas relações com os Estados Unidos e seus aliados na OTAN.

Xi Jinping, o presidente da China, segundo a imprensa oficial chinesa, mostrou-se incomodado com o conflito e afirmou que a situação na Ucrânia é preocupante. Para ele, a prioridade deveria ser evitar que ela saísse completamente de controle. Em um encontro online com o presidente francês Emmanuel Macron e com o primeiro-ministro alemão, Olaf Scholz, Xi Jinping disse que os três poderiam trabalhar em conjunto para estabelecer conversações de paz, mediando um acordo entre Rússia e Ucrânia. China e Alemanha são dois dos maiores importadores de petróleo russo e a Alemanha é a principal opositora da ideia do embargo de importações russas. Xi usou como argumento para defender a negociação o impacto forte das sanções sobre a economia global.

O primeiro-ministro de Israel Naftali Bennett esteve com Putin no Kremlin e depois telefonou para o presidente ucraniano Volodymyr Zelenski. E já explicou sua conversa com o autocrata russo ao parlamento de Israel. Israel tem a confiança dos Estados Unidos e mantém boas relações com a Rússia, por causa da posição russa no Oriente Médio, principalmente na Síria. A China tem a confiança da Rússia, na limitada medida em que Putin é capaz de confiar em alguém, e tem os ouvidos de Macron e Scholz, pelos menos. Mas já é um interlocutor necessário e poderoso no quadro geopolítico global, o que lhe dá o respeito de todos os envolvidos.

O caminho para uma saída negociada depende da implementação dos corredores humanitários. Como a Rússia forçou a saída para Belarus e para seu próprio território, principalmente dos civis de Sumy e Mariupol, a Ucrânia vê essa oferta com desconfiança. Ao que tudo indica, pelo que pude verificar online, pelo menos o corredor de Sumy está funcionando e estão sendo evacuados estudantes estrangeiros — há perto de mil em Sumy — e civis que aceitam ir para Belarus. Há informações, menos firmes, eu diria, de saída de civis de Mariupol para a Rússia. Não consegui informação confiável sobre os outros corredores. A questão, após o encerramento da retirada dos civis, é o que ocorrerá com eles. De Belarus poderão seguir para a Polônia ou para a Lituânia? No caso dos que forem para a Rússia, poderão is para outros países fora da sua órbita? Serão colocados em campos de refugiados?

Após a oferta russa dos corredores humanitários, houve uma troca ácida de acusações entre os embaixadores da Ucrânia, Sergiy Kyslytsya e da Rússia, Vasily Nebenzya no Conselho de Segurança da ONU. Cada um acusou o outro de desrespeitar o cessar-fogo na primeira tentativa de abrir um corredor humanitário para a retirada de civis de Mariupol, rompendo o cessar-fogo. A Rússia, entretanto garantiu que respeitará o cessar-fogo humanitário em cinco corredores. Mas em todos eles, como as fronteiras de Belarus ou Rússia estão mais próximas deles, a trégua se daria no trajeto para um desses dois países. Embora Belarus tenha sido um hóspede seguro para os negociadores russos e ucranianos se encontrarem, é aliada da Rússia neste conflito. Portanto a questão é saber se os corredores serão respeitados e funcionarão e que destino terão os civis retirados por eles.

Outra notícia que aponta para a possibilidade de uma saída negociada é o possível encontro entre os ministros das relações exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, e da Ucrânia, Dmytro Kuleba. A Rússia reviu suas condições, mas elas continuam pesadas: Ucrânia teria que reconhecer que a Crimeia é parte da Rússia (ela já foi anexada por Putin à força em 2014); reconhecer as duas regiões separatistas como repúblicas independentes como fez a Rússia dias antes de atacar a Ucrânia; e escrever na Constituição a neutralidade da Ucrânia e que não poderá ser parte da OTAN. São exigências abusivas que ferem a soberania ucraniana, mas podem ser o ponto de partida para uma negociação. A Ucrânia terá que fazer concessões duras para não perder integralmente a soberania. Ela combate só, numa posição de defesa e moralmente superior, mas sem grande chance militar.

Se não houver negociação de cessar-fogo a Rússia acabará ocupando Kyiv, num avanço muito destrutivo, tipo terra arrasada e muito sangrento. Ou Kyiv se tornará um teatro brutal no qual a ocupação virará uma batalha de guerrilha urbana. A Ucrânia perde me qualquer situação.