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Abstenção vai fazer diferença nesta eleição?

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A preocupação corrente entre os eleitores de Lula é com a abstenção eleitoral. Como a maior parte dos que não votam é de baixa renda, presume-se que poderia ser o principal fator a impedir sua vitória no primeiro turno. Será que há razão para muita preocupação?

É claro que, diante da incerteza, o princípio da precaução diria que sim. Como dizia minha avó Norah, “cautela e canja de galinha, nunca são demais”. E, por que há incerteza? Porque não é possível prever se a abstenção se manterá na média histórica, será maior ou menor. Há razões, também, para não exagerar na preocupação.

Primeiro, porque não há base para se afirmar que Fernando Henrique se elegeu no primeiro turno, em 1994 e 1998, porque a abstenção desfavoreceu a Lula. Em 1994, Fernando Henrique teve 54% dos votos, e Lula, 27%. Em 1998, FHC teve 53%, e Lula, 31,7%. A abstenção foi de 18% e 21%, respectivamente. É muito pouco provável que maior comparecimento tirasse votos de FHC e desse votos a Lula, em proporção suficiente para transferir o resultado para o segundo turno. Porque, se é verdade que um percentual maior e significativo de ausentes seja de eleitores de baixa renda, eles não votariam todos em Lula. O mesmo se aplica à eleição deste ano. As pesquisas de intenção de voto mostram um percentual razoável de eleitores de baixa renda que preferem Bolsonaro. Além, disso, nem toda ausência é reversível. Entre os aptos a votar que não votam há mortos, doentes graves e eleitores em trânsito que não foram notificados à Justiça Eleitoral a tempo.

O mesmo raciocínio se aplica à ida de Lula para o segundo turno, em 2002 e 2006. Na primeira, Lula obteve 46% e José Serra, 23%, e a abstenção foi de 18%, como em 1994. Na segunda, Lula teve 48,6% e Geraldo Alckmin, 41,6%, a abstenção foi menor, de 17%. Foi uma eleição de margem, Lula precisou de 1,4 pontos para ganhar no primeiro turno. Mesmo assim, não creio que um aumento do comparecimento fizesse muita diferença. Ao contrário, creio que o confronto direto no segundo turno beneficiou a Lula, aumentando sua legitimidade. Ele teve 60,83% e Alckmin perdeu votos, ficando com 39,17%. A abstenção foi dois pontos maior 18,99% contra 16,75%.

Haveria, então, razão para imaginar um aumento da abstenção? Olhando os dados, não me parece haver. Pelas pesquisas, o interesse na eleição é muito alto. Faz sentido, são dois presidentes buscando mais um mandato. Lula, um terceiro, após um interregno de 12 anos e Bolsonaro sua primeira reeleição. Impossível não polarizar. Mais do que isto, pouco provável que não mobilize os eleitores de ambos e os leve a votar, mesmo com algum sacrifício. Pela média das pesquisas, Lula e Bolsonaro detém 77% das intenções de voto. Descontando-se os indecisos e os que dizem que pretendem anular ou votar branco, os dois concentram 85%. Não sobra muito para ninguém. Eu diria que, provavelmente, a abstenção voluntária, portanto descontada aquela por forca maior, independentemente de renda, deve ter maior percentual de eleitores que não desejam nem Lula, nem Bolsonaro. Pode até ser que os eleitores que votam em Bolsonaro, só porque não querem Lula, deixem de votar, desalentados diante da percebida vitória do petista.

Provavelmente, a decisão de vitória no primeiro turno se dará por uma migração, na margem, de indecisos e eleitores de Ciro e Tebet para Lula. Além do voto “envergonhado”, do eleitor que não diz em público o nome de seu candidato, que o politógo Felipe Nunes, da Quaest, descobriu tenderem mais para Lula do que para Bolsonaro. Pela média, ele tem 49% das intenções válidas. A tendência tem sido, nas últimas pesquisas, de crescimento incremental das preferências por Lula. Se continuar assim, ele alcançaria 51%-52% na boca da urna.

Além disso, a tendência histórica é de estabilidade da abstenção. A abstenção média nas eleições de 1994 a 2018 foi de 19%. Em duas eleições, ela foi maior do que a média, em 1998, quando atingiu 21%, seu ponto máximo, e em 2018, quando chegou a 20%. A média de 2002 a 2014, é de 18%. A eleição de 2014, já no quadro de crise que levaria à ruptura do primeiro ciclo de governabilidade da Terceira República, marcada pelas ruas de 2013, a abstenção foi a terceira maior do período, 19%. O voto inválido também foi maior em 1994 e 1998, quando brancos e nulos atingiram 23%. A média de 1994-2018 é de 14% e do período 2002-2018, de 10%. A invalidação dos votos não seguiu o percurso da abstenção em 2014, ficando apenas ligeiramente superior à média, com 11%. Se somamos os votos em branco e os votos anulados ao não comparecimento, obtemos a taxa de alienação eleitoral, essas médias foram de 33%, para 1994-2018, e de 29%, para 2002-2018.

Em síntese, a abstenção média histórica nas eleicões dos anos 2000 foi de 19% e a alienação total, de 33%. Veja o gráfico ao final. Taxas moderadas, quando comparadas às de outras democracias eleitorais, mesmo aquelas que também têm voto obrigatório. Não vejo porque temer aumento dessas taxas este ano. Mas, como dizia minha avó Norah, precaução nunca é demais e faz sentido trabalhar para que não aumente e, de preferência, diminua. Todo voto novo conquistado, é bom.

Atualização: conhecido o resultado, verificou-se que a abstenção ficou na média histórica e os votos brancos e nulos ficaram bem abaixo da média histórica, levando, como resultado a uma queda importante na taxa de alienação eleitoral. Há especulações de que foi este movimento que levou ao crescimento da votação de Bolsonaro em relação às estimativas das pesquisas. Não há nenhuma evidência disso.

 Aliena22