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As cenas brutais de um assassinato, um crime de ódio, em Foz do Iguaçu, me lembraram que lá foi outrora um lugar agradável de se estar. Não sem problemas, porém agradável e hospitaleiro. As quedas que se avantajaram impressionantes, depois que as Sete Quedas foram destruídas para dar lugar a Itaipu; a reserva de Mata Atlântica e suas trilhas, ainda que sempre ameaçada pelos que desejam rasgá-la com o asfalto da "estrada do colono"; a tríplice fronteira, a Argentina ao alcance da vista. O Paraguay. A ponte. O rio. Hoje, infestada de gente de extrema-direita, tornou-se o refúgio dos zumbis da recente política brasileira. São o exército que opera na degradação das instituições de um país cuja personalidade institucional nem madurou ainda.

Foz se tornou a vertente das infâmias, depois que a delegada encarregada de investigar o homicídio decidiu que não se tratou de crime de ódio. Para ela foi uma desavença pessoal que se desataviou em tiroteio. Vingança por humilhação sofrida. A conclusão não muda a pena, mas altera o contexto. Crime de vingança por razões pessoais limita o incidente aos dois, assassino e assassinado. Diminui os culpados. Crime de ódio, com motivação política traz a pergunta necessária: quem incitou? Quem definiu os petistas como a petralhada a dizimar? Caracteriza com clareza a intenção e o motivo torpe para matar.

É uma mentira descarada diante do crime capturado pelas câmeras. Hoje não se mata mais escondido. Há olhos digitais por todo lado a espiar nossos malfeitos. Uma mentira politicamente motivada como o crime que pretende redefinir. A delegada considerou apenas o relato da mulher do agressor e descartou os depoimentos da viúva do assassinado, de seu filho e de amigos presentes à festa que terminou em tiro e morte. O relato da mulher do agressor não deve ter sido muito diferente daquele que ela deu à imprensa. Nele, disse que o marido foi até a festa com o som tocando alto música a favor de Bolsonaro, o dono da festa veio, discutiram, ele atirou terra no carro, o marido apontou a arma. Vendo que ela chorava muito nervosa, arrancou com o carro. Ela implorou que ele não voltasse, mas ele voltou minutos depois. Voltou com intenção de matar, como havia ido antes à porta da festa com intenção de provocar. A mentira do inquérito torna desnecessário investigar os antecedentes. Como soube da festa petista? Como decidiu ir até lá para acabar com a festa? Quem soube que iria e deixou-o ir. Foi encorajado a invadir a festa armado?

A conclusão mentirosa da delegada cai por terra com o depoimento da mais isenta das testemunhas oculares, as câmeras de segurança. Elas o viram chegar de volta. Flagraram-no de arma em punho, discutindo raivosamente com a mulher que faria viúva em seguida. Ele ameaçava de arma na mão. Ela usava o distintivo da polícia civil como escudo para dissuadi-lo. Ele atirou para dentro do clube onde acontecia o festejo. Ela se afastou, ele entrou atirando. Ela o derrubou corajosamente, no momento em que desferia mais um tiro em sua vítima, caída no chão. Mal o atirador recuperou o prumo, o moribundo conseguiu acertá-lo com um tiro e, em seguida, mais dois. Caiu. Caíram. Amigos da vítima se aproximaram do agressor semiconsciente e lhe acertaram pontapés na cabeça e no corpo. Desfaleceu, enquanto sua vítima falecia.

A narrativa acima apenas descreve cruamente cenas de enorme brutalidade gravadas pelas câmeras de segurança e que todo o Brasil já viu numerosas vezes. Viralizados, os vídeos já devem ser de conhecimento global. A ausência de som permite que cada um imagine o que o atacante vociferava, o que dizia a futura viúva, os gritos de ódio, desespero e dor entrelaçados numa tragédia na qual o autor intelectual estava ausente.

A desfaçatez com que a delegada mentiu no inquérito, é desmentida pelas cenas cruas que todos vimos. Somos testemunhas depois do fato. Sabemos todos o que as câmeras nos contaram, silenciosas. Era uma festa petista, invadi-la com músicas pró-Bolsonaro era uma provocação política. A reação era esperada. A arma estava ao alcance da mão e não era por acaso. O retorno deliberado do assassino, de arma em punho, sua linguagem corporal mostravam a determinação de "fuzilar a petralhada".

Este é o Brasil fundado por Bolsonaro. Brasil de ódio e mentira, para o qual o único antídoto que temos é o voto de demissão. Um voto que será como a primeira geração das vacinas para Covid, diminui a probabilidade do pior e as formas graves do mal. Mas não o extirpa. Será preciso muito mais virtude política e sabedoria para superar desavenças e construir consensos até que possamos eliminar o mal trazido por Bolsonaro, como vírus insidioso, que é fatal para a democracia.

Não sei se teremos tanto talento e arte em nossa política para ter sucesso na eliminação desse mal infeccioso do nosso tecido institucional. Como um Mefisto com artes malignas, Bolsonaro conseguiu seduzir um séquito de zumbis que vagam pela sociedade espalhando o ódio e infectando incautos. Zumbis sequiosos de sangue bom, incapazes de ouvir a razão ou a ciência, destituídos da faculdade de reconhecer verdades.

Este é um pedaço do mal absoluto que ronda, como assombração, a penumbra da história humana. Infectou Weimar e criou Hitler. Incendiou Roma, para a marcha triunfal de Mussolini. Devastou os revolucionários republicanos para instalar Franco no Palácio Real de El Pardo. Arrebatou Portugal e o avesso de Deus fez crer que Salazar era o ungido para governar o país. Esse mal convenceu os zumbis do Brasil que Bolsonaro foi o escolhido para governar o Brasil. É este vírus histórico, fatal para as democracias, inimigo do povo e da igualdade republicana que quer continuar no poder entre nós. Suas manifestações não são iguais na histórias das nações, mas são, todas elas necrosantes do tecido democrático.

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