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O revéllion de 2020 foi marcado por uma esperança. Imaginamos que venceríamos a pandemia. Ela se revelou ilusória. Confirmou-se nosso medo de que a nova peste nos atingiria com sua mão mais pesada e fatal. A revelação em tempo real do aumento vertiginoso de casos de Covid-19 no Amazonas, logo no início de janeiro, dissipou os sentimentos dúbios e trouxe a certeza da tragédia imensa que viveríamos. Nela, perderíamos perto de 650 mil conterrâneos e o mundo alguns milhões de humanos de Gaia maltratada. A sabotagem do governo federal, sob o comando insensato e insensível de Bolsonaro, a imprevidência e o despreparo para enfrentar desafio de porte inédito, levaram ao fim o estoque de oxigênio de Manaus em meados do mês.

Foi o prenúncio macabro do annus horribilis em que entrávamos. Pessoas humanas morrendo por asfixia, enquanto seus parentes se desesperavam, corriam atrás de escassos bujões de oxigênio, médicos e enfermeiros viam impotentes seus pacientes internados morrerem por sufocamento. O pesadelo se desdobraria em muitas mortes mais enquanto nós, estupefatos e enraivecidos, víamos Bolsonaro aboletado na Presidência de nossa República e fazendo chacota das mortes de nossos entes queridos, pessoas amigas e aquelas das muitas artes que nos inspiraram, encantaram, entreteram, fizeram rir e chorar.

Entre os culpados pela tragédia imensa de Manaus e do Brasil inteiro estiveram Bolsonaro e seu agressivo ministro da Saúde, o general Pazuello, que se mostrou inapto para qualquer posto de comando e absurdamente ignorante dos fatos básicos da saúde pública. Ao final do ano, nos espantaríamos com a necessidade de lutar para vacinar nossas crianças contra a procrastinação do novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Descobrimos que podemos nos espantar até com o previsível. Este é, e será sempre, o mais irresponsável ministro da Saúde da história do Brasil, porque é médico — cardiologista — e sabe como trai o conhecimento que adquiriu — se é que adquiriu algum conhecimento. Sabe cque trai a missão da medicina, o bom senso e a ciência ao se acumpliciar com a implicância do chefe com a vacinação das crianças.

A CPI da Covid, revelou fatos concretos e irrefutáveis do que já suspeitávamos, nós, os brasileiros que não passamos pela lavagem cerebral dos centros de doutrinação da ultradireita, ou da pregação de falsos pastores de seitas evangélicas que trocaram a bíblia pela cartilha da política de extrema direita. Pastores farisaicos, que aderem à linguagem do ódio, quando a lição bíblica é usar a palavra mansa.

A CPI além de revelar os crimes de Bolsonaro e seus auxiliares, demonstrou o quanto se pode perder com a hegemonia masculina e a ausência de mulheres em posições de frente e de comando. Em boa hora seu presidente, o senador Omar Aziz, corrigiu essa grave falha. Atendeu ao protesto da bancada feminina e lhe garantiu voz, precedência e participação ativa nos trabalhos da CPI. Suas investigações, com intensa e dedicada participação feminina, mostraram a face concreta do negacionismo. A sabotagem das vacinas, a indiferença de Bolsonaro com os que morriam. No dia 4 de março, Bolsonaro, com sua face dura, seu olhar perdido em um ponto inexistente do espaço, o seu peculiar modo de falar, com uma pontuação que dá a impressão de hiatos cognitivos, decretou “chega de frescura, de mimimi”, Neste dia, morreram quase 4 mil pessoas de Covid. Vivíamos o ápice da peste, com 4 mil mortos a cada 24 horas. Em abril, sofreriamos com 4200 mortes diárias. Ainda no mês de março, o SUS, nosso sistema de saúde essencial, entrou em colapso em todo o país. Resultado: mais mortes. Chegamos ao final do mês a 32 mil mortes por Covid, totalizando quase 322 mil mortes desde que a pandemia chegou ao Brasil. Ainda morreriam quase 330 mil outros brasileiros, sob o olhar difuso, quase catatônico deste que elegeram presidente do país. Não houve mimimi, houve muito choro e ranger de dentes, muita desolação e muita raiva. Bolsonaro sofre graves deficiências de caráter. Nele não se observa resquício dos valores cristãos fundamentais. Nenhuma compaixão, nenhuma empatia, nenhum cuidado com os mais fracos.

A CPI revelou, ainda, escabrosa trama em hospitais controlados por seguidores fiéis do indigitado homem sem alma que desgoverna o país, do mesmo modo que um jogador de videogames incapaz dirige um Formula 1 virtual. Na Prevent Senior, uma empresa de assistência médica focada em pessoas acima de 50 anos, os clientes recebiam o kit Covid, com drogas sem eficácia para a Covid, como a hidroxicloroquina — receita de Bolsonaro — com graves efeitos colaterais, misturadas a alguns suplementos vitamínicos. Muitos voltavam moribundos aos hospitais da rede, iam para o tratamento intensivo e morriam. Num doloroso depoimento à CPI, transmitido ao vivo para todo o país pela TV Senado, Globonews e CNN Brasil, um paciente contou aos senadores como pacientes graves eram transferidos para o tratamento paliativo, à espera do óbito, mesmo quando ainda havia recursos para salvá-los. Ele foi salvo pela resistência da família, que trouxe em seu socorro um médico independente. Sobreviveu à Covid e à maquinação diabólica.

O alívio viria, apenas, pela ciência, pela independência da ANVISA e pela rebelião federativa. A Anvisa autorizou o uso emergencial das vacinas Coronavax, desenvolvida pela China e produzida pelo Instituto Butantan; Oxford/Astrazeneca, aos quais a Fiocruz se associou para produzi-la entre nós; a Pfizer e a Moderna. Como resultado deste esforço, da pressão social para que o governo federal, se não queria ajudar, não atrapalhasse, estados e municípios, tendo o SUS como plataforma médica, iniciaram o processo de vacinação. Fecharemos o ano com 76% ou mais de pessoas acima de 15 anos vacinados com a primeira dose; quase 70% com a segunda; e perto de 20% com a dose de reforço.

A despeito do desprezo, da chacota e do desrespeito de Bolsonaro, nós nos desviamos do desgoverno e do negacionismo, apoiados na ciência, na medicina e no esforço de governadores e prefeitos. Buscamos nos postos de vacinação a proteção possível contra o inimigo invisível e mortal. Alguns poucos ignorantes, muitos com ensino superior completo, escolheram não se vacinar. Mas, a sensatez da maioria, a orientação segura da ciência, a responsabilidade dos governadores e prefeitos, a dedicação e eficiência do SUS deram aos brasileiros a esperança segura de que 2022 não será outro ano terrível como este que se encerra.

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