• face
  • twitter
  • in

O Brasil está enfrentando a pior crise pandêmica por duas razões básicas. A primeira, é a atitude criminosa do governo federal, sob comando de Bolsonaro. É um governo negacionista, omisso, que tenta usar a pandemia politicamente contra os governadores e prefeitos.

Bolsonaro só opera ativamente, eu diria hiperativamente, para condenar o lockdown, ameaçar quem decretá-lo com retaliações inconstitucionais e intoleráveis, e estabelecer uma relação falsa entre o desemprego e a fome com as medidas de prevenção recomendadas pela ciência e pela OMS. O que é real é a relação entre o prolongamento da doença e das mortes, por ausência de medidas efetivas, o desemprego e a fome. Estes, poderiam ter sido mitigados, se permanecessem o auxílio emergencial e o Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda, que Paulo Guedes, o marqueteiro da economia sem resultados, apelidou de BEM. Foram por prazo curto, como curta sempre foi a visão da equipe de Bolsonaro sobre a Covid-19.

Adicionalmente, como é notório, o governo federal, por meio do ministério da Saúde, comandado pelo general mais inepto que já se viu, em um cargo civil e técnico do qual era estrangeiro. Ele recusou as vacinas oferecidas ao Brasil com ampla antecedência e apoiou o charlatanismo do kit covid, cujo centro é a hidroxocloroquina.

O ministério das Relações Exteriores, comandado pelo mais inepto diplomata que já ocupou o posto de ministro de Estado, sabotou a possibilidade de obtermos vacinas e IFAs, ingrediente farmacêutico ativo, imprescindível à produção local das vacinas. Uma diplomacia desastrosa e incompetente sempre pode agravar problemas de relacionamento e solidariedade, quando se trata de enfrentar um problema global com manifestações locais diferenciadas.

Resultado, sem medidas preventivas e sem vacinas, o número de casos e mortes cresceu exponencialmente. Agora, com o ritmo insuficiente das vacinas, fechamentos parciais intermitentes das atividades não essenciais, o número de mortes parece estar plafonando, ou seja oscilando em um patamar elevadíssimo, acima de 2500 mortes/dia, o que é perigosíssimo. Segundo o CDC, a agência dos Estados Unidos especializada em pandemias e similares, o plafonamento em patamar muito elevado aponta para a emergência de novas ondas futuras.

A segunda razão é que governadores e prefeitos, intimidados com a ameaça de retaliação do Governo Federal, do qual dependem financeiramente por obra de nosso modelo de federalismo hiperconcentrado, e pressionados pelo lobby de empresários sem visão, imediatistas e destituídos da noção essencial de responsabilidade coletiva, só fecharam as atividades parcialmente, por tempo curto demais.

Essa intermitência fez dos cidadãos prisioneiros de uma armadilha de abre-fecha, que não consegue conter a doença e impede a retomada da economia. Predominam a incerteza e o medo. A insuficiência generalizada de renda concentra e especializa o consumo, reduzindo os estímulos à retomada. A incerteza não só com seu epicentro, a pandemia, mas também com a incompetência da política econômica do governo, a crise fiscal e as pressões fiscais, com um orçamento impraticável, inibem o investimento.

Os países que adotaram o lockdown para valer, debeleram os surtos de Covid-19 mais rapidamente e a economia tem reagido mais prontamente. Os países federativos, como a Alemanha, a Austrália, o Canadá e a Nova Zelândia, por serem mais concentrados — são poucas unidades federativas, mas com ampla autonomia — tiveram maior facilidade de coordenação nacional. As duas grandes federações, Estados Unidos e Brasil, não conseguiram, principalmente por causa do governo federal, enquanto Trump presidiu os EUA, e em parte por causa da presença de governadores alinhados com o extremismo do presidente.

Mas, imaginemos, que, um governador no Brasil, imbuído das responsabilidades que a Constituição lhe confere, relembradas pelo Supremo Tribunal Federal, decidisse fazer o lockdown por duas semanas e pôr em quarentena, por igual período, os viajantes que desembarcassem em seu terriório, qual seria o efeito presumível? Difícil dizer com certeza, mas é possível fazer uma aproximação, tomando um caso de êxito de um país unitário, europeu, que fez isso: lockdown, fronteiras fechadas ou viajantes em quarentena.

O físico Ulisses Leitão, tem longa carreira acadêmica e uma relação íntima com a ciência da computação. Ela é essencial, assim como a matemática, para as pesquisas em sua área. É um baita especialista em tratamento de dados. Ele tem visitado o site do Git Hub, que permite o trabalho de desenvolvedores em rede, para se informar do trabalho de um grupo que lá se hospedou e acompanha a Covid-19 em Portugal. Eles sumarizam os dados obtidos da "Direcção Geral de Saúde", através do dashboard do COVID-19 e da base de dados da ESRI Portugal. Ulysses Leitão tem estudado esses dados, fazendo testes de "fitness" das curvas de casos e mortes. Ele tem examinado outros bancos de dados, para diferentes países. Notou que há muito menos heterogeneidades internas nos outros, do que no Brasil. É o "efeito-federação". Nos EUA, também, os dados indicam maior heterogeneidade. Ele resolveu pesquisar o comportamento das curvas de casos e de mortes, após o lockdown em Portugal, por meio de ajustes de curvas. O resultado é de calar a boca de qualquer cético com o lockdown. Para quem quiser — e souber – reanalisar os dados, eles estão aqui. O número de casos despenca sete dias após a decretação da medida, de uma média de 16 mil para quase zero. Um, dois casos em média. O mesmo ocorre com a curva de mortes, mas num intervalo maior de tempo,  de 16 dias. Ela cai, nesse período, da média de 300 mortes/dia, também para perto de zero.  Veja os dos gráficos abaixo. Imaginem se um estado replicasse o mais próximo possível as medidas adotadas pelo governo de Portugal, em lugar de ficar testando modelos sem comprovação. É como testar diferentes modelos de roda quadrada, quando é óbvio que roda para rodar, só redonda. As medidas intermitentes não afetam o contágio, a não ser episodicamente e têm impacto negativo sobre a economia, aumentando a incerteza e prolongando a recessão. O lockdown, derruba a curva, como sempre se quis, desde o início, e cria condições para recuperação econômica mais rápida e sustentada.

Pin It

Mais recentes

14 Set 2021
19 Mar 2021
18 Mar 2021
02 Jan 2020

Mais Artigos

Back to Top