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Sociologicamente o vírus criou uma situação inédita. Nunca países haviam determinado o confinamento isolado de cidades inteiras por tanto tempo, praticamente ao mesmo tempo. Nas guerras e nas calamidades climáticas ou geológicas, as pessoas ficam confinadas em abrigos para se protegerem, mas em grupo. Esta situação pôs milhões de pessoas sozinhas em suas casas. O precedente mais próximo foi a pandemia da “gripe espanhola” dos anos 1918-1919, mas aquele era um outro mundo, do ponto de vista histórico-estrutural. A cidade de Nova York já era populosa, quase seis milhões de habitantes, mas hoje tem quase 20 milhões. Morreram mais de 20 mil pessoas na cidade. Houve isolamento, mas apenas dos doentes. As lojas e negócios funcionavam em horários alternados, para reduzir a aglomeração. No Brasil adotou-se o isolamento social, como mostrou recentemente a historiadora Heloisa Starling em análise do caso de Belo Horizonte. Mas era outro Brasil. A população urbana representava menos de 30% do total. Em 1940, poucos mais de duas décadas depois da pandemia, a taxa de urbanização era ainda de 31,24%.

O confinamento é o único recurso capaz de reduzir o ritmo do contágio e permitir aos sistemas de saúde administrar o fluxo de internações e evitar o colapso. Ao ser adotado, encontrou sociedades profundamente individualistas e consumistas. Havia certo orgulho das elites ultraliberais em dizer que as pessoas deviam viver por conta própria, achar no mercado a melhor forma de prover suas necessidades. Claro, os ricos e o alto assalariado podem comprar de tudo no mercado, do status à saúde. Menos, quando um vírus que não distingue as classes sociais penetra insidiosamente na sociedade, invisível e letal. Ele chegou primeiro nas classes médias e altas, porque são as que viajam mais para outros países. Quando o risco se generaliza com a disseminação comunitária, as desigualdades ficam mais patentes, embora todos estejam vulneráveis e possam terminar no mesmo corredor das UTIs das cidades.

O grau de conforto e segurança do confinamento numa ampla casa no subúrbio de Nova York, numa exclusiva townhouse do lado leste, num apartamento de Manhattan, não tem comparação ao que se encontra nas partes mais pobres dos bairros de população negra e hispânica, como o Queens e o Bronx. Há duas diferenças fundamentais. A primeira é que o emprego nos serviços essenciais básicos da cidade é desproporcionalmente ocupado por negros e latinos. E eles estão mais expostos ao coronavírus, porque estão na linha de frente de serviços à comunidade. A segunda é que o sistema de atendimento médico dessas áreas é mais precário e mais lotado. Claro que os doentes graves podem ser levados para as CTIs em outras partes da cidade, mas não é por acaso que em Nova York e Chicago a maioria dos mortos é negra ou latina. Os ricos estão morrendo também, mas em proporção muito menor. A participação de negros e latinos nos mortos por Covid-19 é muito maior do que sua presença na população total.

No Brasil, as diferenças ainda não começaram a aparecer de forma tão patente, porque o país ainda está no limiar da fase aguda da pandemia. Quando seu espalhamento acelerar, alcançará muito mais desprotegidas as populações das favelas e cortiços, do que as classes médias e altas. Nas favelas, como Paraisópolis, em São Paulo, e Maré, no Rio de Janeiro, a consciência de sua fragilidade levou a notáveis iniciativas de solidariedade comunitária. Em Paraisópolis, por exemplo, a comunidade tem um responsável por rua, que ajuda a encaminhar os doentes e a administrar o isolamento possível, para evitar o contágio descontrolado. Na Maré, no Rio, a Frente de Mobilização levanta recursos para os mais carentes, busca soluções coletivas para as carências derivadas da ausência de estado, como o compartilhamento de água entre os vizinhos. Instala-se um processo de autoproteção e autogoverno diante da ausência do estado e carência de serviços essenciais. Mas, o peso das grandes desigualdades do país é inarredável e terá consequências trágicas. Passada a pandemia, as desigualdades podem aumentar muito, com a descontinuidade precoce dos programas de transferência de renda.

No plano mais geral e nas classes médias, embora haja cobertura estatal e as pessoas tenham mais recursos correntes e de poupança, muitos estão enfrentando perda parcial ou total de suas rendas. O confinamento também desafia o individualismo e a autosuficiência inerentes à ideia até então dominante de cada um viver por conta própria. Entre quatro paredes, o individualismo é uma prisão numa sala de espelhos. Prisioneiro de si mesmo, a única saída é escapar do jogo narcísico dos espelhos e buscar o outro nas mesmas redes sociais antes dominadas por memes raivosos e difamatórios. De repente, todos se viram neste sujeito só à mercê de suas frágeis possibilidades. Sentiram na pele o lado infausto de estar entregue à própria sorte, a crueldade da sociedade do indivíduo por conta própria, onde sua vida é seu risco e você tem que se virar sem esperar ajuda do estado ou da sociedade.

O único antídoto à solidão do confinamento é a rede de encontros que se forma na Websfera. A ajuda dos vizinhos é a única alternativa ao desamparo dos que estão em maior risco e sós, como idosos com baixa mobilidade. A empatia por necessidade suplanta em muito, neste momento, a indiferença típica do consumismo individualista dominante. A solidariedade surge quando todos estão confinados e se dão conta que de nada lhes vale o individualismo exacerbado, o poder de consumo, as grifes nos armários, o prestígio da carreira. Não por acaso, cai o movimento das lojas de grife e aumenta o consumo de horas de Internet e o uso de aplicativos de reunião como o Zoom e o Skype, multiplicam-se os saraus, apresentações de música, leituras de livros de poesia ou ficção no Instagram e no Facebook. Aumentaram também as doações físicas e por meio dos sites de benfeitoria ou vaquinha eletrônica.

Só a ação plural, solidária protege nos momentos de extrema fragilidade da vida humana. Um inimigo invisível, mortal e desconhecido isolou a todos e, na sua solidão implacável, só encontraram alento no outro. Vão se abrindo locais de encontro virtual, as pessoas se descobrindo nos chats, enquanto assistem a uma live musical. São muito variadas as formas de encontro virtual, onde as pessoas podem trocar dicas de sobrevivência em confinamento prolongado. Quem está há mais tempo isolado, em outros países, conta como fez para se lidar com o isolamento. Como se multiplicam os pontos de conversação, as iniciativas de gestão coletiva da crise e de ajuda aos mais frágeis. Diferentes especialistas e interessados trocam informações, dados e impressões sobre este evento inédito, que nos surpreendeu a todos. Os pensadores dividem suas inquietações e esperanças online, desinteressados em esperar sair um novo livro, ou publicar um novo artigo. Tudo ficou mais urgente e mais interessante; mais perigoso e mais desafiador.

A fragilidade do indivíduo por conta própria confinado em seu próprio espaço e que descobre suas fraquezas, antes compensadas pelo consumo, pelo status e pela autosuficiência, o faz olhar para o outro, sentir necessidade do outro. É uma semente robusta para mudanças comportamentais que podem se consolidar após a pandemia, quando a vida retornar a um novo normal. Não há possibilidade de voltarmos ao que éramos antes. Esta experiência traumática e singular deixará marcas na economia, na sociedade, na política e no comportamento coletivo e individual.

Leia mais: A redescoberta do legado progressista

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