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As redes digitais tornaram-se o meio principal de contato social, suprimento e entretenimento nas longas e solitárias horas passadas em casa no isolamento social. As pessoas descobriram o valor da praça digital, do coreto virtual, dos encontros à distância, das compras online.

Às vésperas do isolamento se espalhar por numerosos países, as redes vinham sofrendo fortes críticas por causa da facilidade com que se tornaram canais de fake news e mensagens de ódio e difamação. Parecia que seu lado sombrio abafaria de vez suas possibilidades positivas, na democratização da informação e na criação de uma conversação aberta, local e global, entre as pessoas. O isolamento reconciliou as pessoas com as redes e revelou seu lado luminoso, que superou rapidamente as formas sombrias de uso. Ainda estão lá as fake news e os ataques da milícias digitais com seus bots. Mas, a quantidade de lives, posts e compartilhamento com conteúdo positivo, de qualidade e a explosão no uso de aplicativos como o Skype e o Zoom, antes recurso mais profissional e corporativo, para encontros virtuais de amigos e famílias superaram em muito a carga tóxica. Este novo padrão talvez se consolide o suficiente para evitar o regresso ao domínio da negatividade.

Da mesma forma, é bem possível que o ensino à distância e o trabalho remoto, que aumentaram exponencialmente, por necessidade, revelem aos estabelecimentos educacionais e às empresas as virtudes do online. Provavelmente parte do que migrou para a Webesfera não retornará ao presencial. As consequências sociais e econômicas podem ser muitas. Empresas liberarão quantidade expressiva de metros quadrados, ao ver reduzida sua necessidade de espaço físico e o mercado imobiliário pode ver reduzida a demanda por novas edificações e depreciados os preços dos imóveis comerciais. As universidades e escolas eventualmente desenvolverão mais seus campi virtuais, desafogando os sítios físicos e aumentando sua capacidade de matrícula. O alcance dos melhores professores pode ser exponencialmente ampliado online.

A ciberesfera mostrou, de repente, todo seu lado luminoso. O virtual se tornou, em larga escala, virtuoso. A vida online passou a ter outro significado. Redes de solidariedade se formaram espontaneamente para ajudar os destituídos e mais frágeis. A conexão virtual foi o principal instrumento contra a solidão.Este solidarismo em rede salvou vidas e permitiu romper a solidão pela cooperação de pessoas anônimas. Desconhecidos se reconheceram no isolamento e se uniram para rompê-lo. Coisas simples, como um aniversário solitário, de repente se transformam em um coral de parabéns saído das janelas de vizinhos que, até aquele hora, mal tinham se falado, se alguma vez trocaram palavras. Os confinados aplaudem os profissionais da saúde de suas varandas e janelas. Os mortos são velados e celebrados da mesma forma, a um tempo distante e calorosa. Criou-se um novo ritual de despedida, diante da morte e do enterro solitário, quando não anônimo, em vala comum, como aconteceu na Itália e em Nova York. As formas de velório à distância, muitas vezes virtual, são o único recurso dos familiares das vítimas para encontrar algum consolo no adeus a seus entres queridos.

Muitas dessas mudanças devem acelerar e transformar a grande transição estrutural global em curso. A crise do multilateralismo ficou mais evidente. A OMS foi contestada por vários governantes e Trump congelou a cota dos EUA para seu financiamento. Mas, ela mostrou outras fragilidades, como a demora em reconhecer que o mundo estava diante de uma pandemia global.

O capitalismo vai mudar e tende a ficar mais multipolar. A paralisação de cadeias globais de produção pela interrupção de atividades econômicas na China disparou o alerta sobre a vulnerabilidade da economia globalizada. A dependência de cadeias de suprimento fundamentais da economia global a hubs na China, seja para suprir peças e componentes, seja para fabricação de produtos finais, deve provocar, uma onda nacionalista inicial. Nenhum país tem condições de internalizar essas cadeias com o mesmo custo. Provavelmente, o que acontecerá será a diversificação de hubs de suprimento. É o que empresas globalizadas, como a Apple, estão fazendo. Ela acelerou o deslocamento de parte de sua rede de montagem de iPhones para a Índia. Mais países se especializarão para constituir hubs críticos em algumas das redes globais de produção, diante da demanda por redução da dependência a um só país. A onda nacionalista tem mais chance de se mostrar inviável, com as economias já em estágio avançado de globalização, do que de prosperar. A globalização da economia provavelmente continuará a se aprofundar, porém em novas bases, com maior diversificação das redes de produção. A mudanças no emprego também podem acelerar. É provável que o trabalho remoto aumente, levando à redução das sedes físicas das empresas. Parte do trabalho realizado online pode não retornar às sedes. É provável que haja robotização de mais atividades produtivas e maior uso de inteligência artificial, para ampliar a capacidade das empresas de continuar operando mesmo em emergências que forcem o confinamento da força de trabalho.

O mundo pós-pandemia será muito diferente do mundo pré-pandemia. Este encontro imprevisto entre a pandemia e a transição estrutural global mudará os rumos e a velocidade das mudanças. O confinamento prolongado deve mudar comportamentos e hábitos, inclusive no padrão de consumo. Na política, a pandemia romperá a hegemonia fiscalista, redefinindo o paradigma dominante sobre o papel do estado e reduzirá o espaço da direita populista, que está se desempenhando muito mal na emergência. Os maus governos pagarão em votos sua imprevidência e irresponsabilidade.

Leia mais: O mau governo e a pandemia global

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