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O isolamento social é o único instrumento que tem eficácia razoável, segundo os — poucos — dados disponíveis, oriundos daqueles países que já estão há tempo suficiente lidando com a epidemia. Em geral, examina-se a trajetória da epidemia após a identificação do caso de número 100, para ver sua evolução nas diferentes estratégias usadas até agora. Há muita discussão em todos o mundo sobre o isolamento social como forma de conter o avanço da pandemia. Até agora, é o único meio de reduzir a demanda por tratamento hospitalar e ganhar tempo na preparação do sistema de saúde para as ondas subsequentes de internação. A maioria dos sistemas de saúde do mudo não está preparada para atender a número tão alto de casos ao mesmo tempo, decorrentes do avanço da pandemia sem bloqueio algum. Não só no Brasil, mas nos EUA, no Reino Unido, na Rússia.

Os estudos médicos e científicos estão sendo feitos em tempo real, sob um denso véu de desconhecimento. É a primeira vez que o vírus denominado Sars-Cov-2 circula por toda a sociedade humana e não há precedentes ou base de conhecimento prévio. O conhecimento cintífico nunca é absoluto, ele está sempre aberto a contestações, a novas evidências. Mas, enquanto não é rejeitado ou superado de acordo com as regras próprias do método científico, é dele que temos que nos valer. A evidência que se tem, no momento, é de que o confinamento, o isolamento social compulsório é o único método capaz de conter a aceleração da infecção e organizar minimamente o fluxo de internações, principalmente de casos graves a exigir tratamento intensivo em UTIs.

Não há tratamento específico, nem vacina. O confinamento tem efeitos colaterais significativos. Para a economia, produzindo uma recessão global. Exige elevação exponencial do gasto público, com repercussões fiscais que irão além do período de emergência. Há economistas tratando a decisão sobre se e por quanto tempo adotar o isolamento social como uma questão de custo-benefício. Em poucas e simples palavras, se o custo em vidas — para as quais se atribui um valor econômico, um preço — superaria as perdas com a recessão. O benefício de salvar vidas é, desta forma, comparado em termos puramente econômicos ao custo da recessão. Presume-se que, o preço atribuído a cada vida perdida reflete não apenas o período de contribuição ativa para a sociedade restante de cada indivíduo e, também, em alguma medida, o valor afetivo que ele tem para os outros. Ha dois problemas com esta suposta racionalidade. O primeiro, é moral. O segundo, substantivo, isto é, tem a ver com a vida real.

Não vou discutir a questão moral, de como o valor intangível da vida humana é inestimável e que o direito à vida não pode ser superado por considerações materiais de qualquer natureza. Há um longo e tedioso caminho filosófico envolvido. Mas, eu recomendaria aos liberais, sobretudo aos ultraliberais, que relessem — se é que leram alguma vez — a Teoria dos Sentimentos Morais, de Adam Smith. Exatamente, o mesmo de A Riqueza das Nações, que só pode ser entendido por completo, às luz dos pressupostos morais do autor, entre os quais o da "simpatia", da identificação com o outro. A precedência da vida humana pareceria autoevidente. Mas, o fato de que existam pessoas dispostas a aceitar a morte de muitos, para manter o emprego, sempre incerto, de suposta maioria, mostra que não é assim. Daí que é inevitável um debate interminável sobre o tema.

A questão substantiva é mais premente e objetiva. Se não temos condições de estimar com precisão o curso da Covid-19, a síndrome pulmonar provocada pelo Sars-Cov-2, pois não há evidência suficiente. Se também não sabemos — e não temos como saber se não no futuro mais distante — a letalidade da epidemia sem medidas enérgicas de controle social do contágio. Se não há prevenção, nem a perspectiva de se obter uma vacina demonstradamente eficaz. Se não há remédio demonstradamente eficaz para a doença, que permita a mitigação da letalidade. Se uma pandemia destas proporções terá impacto recessivo, em qualquer hipótese. Então, temos um caso de incertezas superpostas e muitas incógnitas.

Como enfrentar uma emergência de massa com tão vasta área de incerteza? Certamente não imaginando que se possa reduzi-la a uma simples equação de custo-benefício. O bom senso recomenda que a gestão de risco e de perdas se faça por outro tipo de raciocínio, que se vale da construção de cenários. O confronto se dá entre o melhor cenário — algo parecido com o que se passou na Coreia do Sul, onde se teve o menor contágio, a menor letalidade e o menor tempo de duração da epidemia — e o pior cenário, aquele que pressupõe deixar o contágio seguir seu próprio curso, sem intervenções mais enérgicas.

Dado o grau de desconhecimento da pandemia e a escassez de dados, só se pode trabalhar com o pior cenário e ter como objetivo dele se afastar o máximo possível, mobilizando todos os recursos de que se dispõe. O Brasil tem um sistema de saúde com capilaridade, mas não dispõe de leitos suficientes e precisa de tempo e dinheiro para aumentar sua oferta. Também não temos condições de fazer testes confiáveis em um grande número de pessoas. Nestas condições, o isolamento social amplo e obrigatório é o único recurso para evitar o pior cenário.

É claro que todos se preocupam com os efeitos colaterais do isolamento social prolongado. Ele tem um custo econômico elevado. Requer a extensão da rede de proteção social para alcançar não só quem já era socialmente vulnerável antes da epidemia, mas também quem ficou em situação socialmente vulnerável com a inevitável redução da atividade econômica. O confinamento tem sequelas psicológicas, especialmente para aqueles que não encontram conforto na interação digital, ou não têm como a ela recorrer.

O confinamento consciente, compulsório, em escala de massa e prolongado é uma novidade amarga para a maioria absoluta das pessoas. Não é fácil e exige rápido e intenso autoaprendizado. Usa-se a vivência de outras situações, na verdade incomparáveis, para adotar tentativamente algumas estratégias de sobrevivência no isolamento. Da mesma forma que se analisa outras epidemias, também incomparáveis à pandemia global de agora, para encontrar pistas sobre o que fazer para contê-la. Casos como da AIDS nos anos 1980, do ebola, da Mers, da Sars, do H1N1. Mas nenhuma é comparável para valer, do ponto de vista médico, sociológico, político e econômico à pandemia de Covid-19. A única coisa clara, hoje, é que governantes responsáveis não hesitam em adotar o isolamento social.

Não vou desrespeitar a seriedade da discussão científica, intelectual e social sobre o confinamento e as representações desta situação inédita, tratando aqui das atitudes de Bolsonaro e sua prole. Basta dizer que eles brincam com a tragédia local e global. O que penso da falência presidencial, no momento, está aqui

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