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Os anos 20, nos quais mal acabamos de entrar, serão decisivos na luta pela preservação da democracia e contra a tragédia climática. Os alertas e sinais concretos dos riscos nesses dois campos fundamentais para a continuidade civilizatória da sociedade humana são claros e abundantes. Só não vê quem não quer. Não existem boas intenções entre aqueles que atacam a democracia, hoje em dia, de forma ardilosa, e que negam por pensamentos, palavras e atos a mudança climática provocada pela ação humana.

Mal entramos na terceira dezena do século 21 e já podemos registrar pelo menos mais um avanço claro no fortalecimento da autocracia. Foi na Rússia. Putin deu outro golpe para pavimentar o caminho para se tornar um governante vitalício. No último dia 16, a revista The Economist, célebre pela argúcia de seus títulos e chamadas, em matéria sobre Putin, chamava “colado ao trono: como Vladimir Putin está se preparando para governar para sempre”. São duas expressões muito apropriadas. O apego ao poder do autocrata russo é evidente até na sua linguagem corporal. E sua marcha é, mesmo, rumo ao poder vitalício. Está propondo mudanças na Constituição, para driblar a vedação à reeleição. Mas, Putin não é parte da nova safra autoritária. É um precursor dela. Putin é uma mistura de czarismo e stalinismo. Um czar republicano com métodos da KGB. Como os czares e os governantes autoritários soviéticos parece que só a intriga palaciana e os golpes íntimos podem derrubá-lo. Movimentos populares como o de 1917 são a exceção, não a regra, por lá.

A nova safra é do que chamo de governantes incidentais. Eles chegam ao poder em eleições inesperadas e procuram destruir a democracia por dentro. Usam as instituições e mudam as regras devagar. O politólogo Yascha Mounk publicou artigo na revista The Atlantic, no final do ano passado, traduzido pela Folha de São Paulo no sábado (18), no qual argumenta de forma muito persuasiva que os principais ataques à democracia destes candidatos a autocratas ocorrem a partir do segundo mandato. Reforçou minha convicção contra o estatuto da reeleição, particularmente nas repúblicas presidencialistas e semipresidencialistas, e a favor da limitação dos mandatos em todas as democracias. Mounk mostra que foi este o caminho adotado por Chávez, na Venezuela, Narendra Modi, na Índia, Viktor Orbán, na Hungria, entre outros.

Ele chama atenção para o perigo envolvido na eleição presidencial americana deste ano nos Estados Unidos. Nela, a batalha principal não será entre Democratas e Republicanos. Será pela democracia, porque a reeleição de Trump pode produzir um segundo governo ainda mais danoso ao regime constitucional americano. Aqui, enfrentaremos este mesmo perigo em 2022. Bolsonaro, com sua obsessão por transformar qualquer coisa em namoro ou casamento, ameaçou o país com a possibilidade de se tornar um autocrata, ao dizer, na promulgação do Fundão eleitoral, que “presidência é um casamento de 4, ou 8 anos”, ou “quem sabe, por mais tempo, lá na frente”. Pois é, só não vê quem não quer. Já tivemos um alerta com o episódio de explicitação do projeto cultural de inspiração nazista. O secretário de Cultura que decidiu abrir o jogo foi removido. Mas, o projeto não era dele, era do presidente. A ideia de fazer uma cultura conservadora, em torno da noção excludente e discriminatória de patriotismo, Deus e família já estava presente nas promessas de campanha. O secretário caiu por excesso de autoconfiança. Seu papel era transformar em modelo de política estatal e dar algum lustro à concepção tosca e estreita de cultura do presidente.

Nos anos 20, se darão as batalhas decisivas em defesa da democracia. Ela necessita renovação, mas para fortalecer as liberdades e adensar a representação. Não para retirar dela o legado liberal, nem para abandonar a vocação social da democracia do após-guerra. A luta contra as desigualdades continua. Mas, sem uma frente ampla de todos os democratas, de todos os matizes, para barrar o avanço dos autocratas, podemos perder a batalha pela democracia. Precisamos de democracias autênticas e robustas, não apenas para vencer o desafio da desigualdade social, mas para encontrar meios de conter a ameaça representada pela ciberapropriação dos dados individuais. A ciberguerra, a ciberespionagem são ameaças às liberdades individuais que só a democracia pode vencer, sem recorrer à censura e à transformação da rede distribuída e autogovernada em monopólio estatal.

O ano começou, também, com avisos estridentes sobre a emergência climática. Relatórios da NASA/NOOA, nos EUA, e do MetOffice, no Reino Unido, mostraram porque já vivemos uma emergência climática. Os anos 10 foram os mais quentes da história e a temperatura média global aumentou em 1,10 Celsius. O ano final, de 2019, foi o segundo mais quente da segunda dezena do século. Perdeu apenas para 2016, por frações de graus Celusius. Já ocupamos 50% do teto de temperatura global média de 20 Celsius com o qual nos comprometemos no Acordo de Paris. E ficou muito mais difícil, evitarmos que o aquecimento ultrapasse a temperatura média de 1,50 Celsius, que é a aspiração inscrita no Acordo. Se os anos 20 forem mais quentes que os anos 10, podemos perder a luta pela mitigação da mudança climática. Não bastassem esses dados sobre a temperatura global, os eventos extremos no final do ano passado são uma amostra modesta do que está por vir. Nevascas, furacões, secas rigorosas e prolongadas, queimadas devastadoras, perdas inimagináveis de espécies.
Esses dois desafios críticos, da democracia e do clima, estão entrelaçados. É evidente. Os governantes incidentais e os autocratas são os principais negacionistas. A grande exceção talvez seja a da coalizão conservadora que domina a Austrália, que não pode ser como incidental, nem autoritária. O primeiro-ministro Scott Morrison mantém-se negacionista, mesmo com metade do seu país destruído pelas chamas, pouco tempo após a outra metade sofrer duramente com as enchentes.

O legado humanista está sob ameaça real e iminente. Nos anos 2020 travaremos as batalhas decisivas. Não é exagero dizer que estamos, novamente, numa encruzilhada entre a barbárie e a civilização. Mas, desta vez, com um elemento adicional de perigo terminal que é a emergência climática. Há tempo e meios de superar estes riscos e promover um avanço civilizatório e democrático. O progresso tecnológico nos próximos anos trará recursos extraordinários que podem ser usados a favor da atualização da democracia e da superação da emergência climática.

Publicado originalmente no Blog do Matheus Leitão/G1

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