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Os anos 20, do século 20, foram anos de grande mudança. Os roaring twenties, como ficaram conhecidos no mundo anglofônico, começaram com o fim da Primeira Guerra. Foram, mesmo, anos ruidosos, intensos. Benito Mussolini marchou com suas falanges de 30 mil homens e o fascismo se instalou na Itália. As mulheres conquistaram o direito de votar nos Estados Unidos, com a 19a Emenda, e o país entrou na lei seca, a prohibition, que estimulou a criminalidade e promoveu a proliferação de destilarias clandestinas, nas quais muitos descobriram sua vocação para produzir whiskeys e bourbons. Foi criada a Liga das Nações, precursora da ONU, primeira verdadeira entidade multilateral com múltiplas funções de coordenação diplomática. Após um conflito de cinco anos com a Grã Bretanha, foi criado o Estado Livre da Irlanda. Kamal Ataturk fundou a Turquia moderna. França e Bélgica ocuparam a região alemã da Renânia. As reparações de guerra humilhariam o povo alemão e abririam caminho para Hitler. Antes de assumir o poder, ele foi preso, em 1923, após o malogrado putsch de Munique. A hiperinflação transformou o poderoso marco alemão em papel sem valor. Lênin morreu e Trosky foi expulso do Partido Comunista russo. Estava aberto o caminho para a era stalinista. Hitler publicou Mein Kampf, F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby e Hemingway The Sun also Rises. Yeats ganhou o prêmio Nobel. Nos Estados Unidos, a repressão aos anarco-sindicalistas culminou na execução de Sacco e Vanzetti, acusados de homicídio. Chiang Kai-shek assumiu o poder na China. A década terminou marcada pela Grande Depressão nos Estados Unidos. No Brasil, houve a Semana de Arte Moderna de 1922, que revolucionou as artes e a literatura no país. Mario de Andrade publicou Pauliceia Desvairada e Macunaíma. Oswald de Andrade publicou Memórias Sentimentais de João Miramar. A Primeira República, oligárquica, estava nos seus estertores. Receberia o coup de grace com o golpe getulista de 1930. Na Alemanha, também agonizava a icônica República de Weimar, que morreria nas mãos de Hitler, em 1933, quando o Reischstag ardeu em chamas e Göring anunciou a caça aos comunistas, que se estenderia aos judeus. O leitor há de concordar que, neste parágrafo, longo como esta década revolucionária, estão praticamente todas as sementes da história do século 20.

Quando se faz um digressão histórica, para esboçar um cenário de uma década passada que foi marcada por eventos fundadores da história do futuro, tem-se uma ideia mais clara de como podem ser os anos 20 do século 21. Não há muita dúvida de que será uma década de mudanças revolucionárias e constitutivas de uma nova era. As transformações profundas e radicais, como a globalização, a revolução digital, o domínio da genômica, a inteligência artificial, a Internet das coisas, já deixaram o estágio de sementes e são mudas em pleno crescimento. Serão os motores de mudanças ainda mais rápidas e fundantes. Há, em comparação com os anos 1920, uma diferença crucial. Estamos em plena aceleração da mudança climática e da sexta grande extinção de espécies. Os anos 2020 serão marcados pela emergência climática e pelas pressões da urgência em adotar medidas ambiciosas, drásticas mesmo, para evitar um cataclismo climático e o colapso da biosfera. A década inicia com a proliferação de governantes incidentais, todos hostis às regras e formalidades da democracia. Ainda há tempo de nos livrarmos democraticamente de candidatos a Hitler e Mussolini pelo mundo afora.

Não serão anos fáceis. Mas, espero que sejam anos férteis e promovam um renascimento cultural. Como as ameaças à democracia já estão dadas na entrada da década, espero que seja, também, de renovação democrática. Mudanças que geram tanta incerteza, como as que marcaram os anos 1920 e marcarão os anos 2020, inspiram e promovem uma grande explosão de ideias e criatividade. Delas surgem os novos filósofos, as novas correntes literárias e artísticas, criando os guias para que as sociedades escolham novos rumos e novos modos. Que sejam anos de pujança cultural e de descobertas. Desejo, mas não posso prometer, que sejam anos de paz. Como me disse em uma das entrevistas para o Canal Futura uma amiga do Complexo do Alemão, desejar a paz talvez seja uma utopia. Que seja a década de ressurgimento da capacidade de sonhar e de novas utopias. Desejo a todos bons anos 20.

Publicado originalmente no Blog do Matheus Leitão/G1

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