• face
  • twitter
  • in

A política nas ruas, na prática dos cidadãos, não respeita as fronteiras desenhadas pela academia. Não faz distinção entre governo e estado e, menos ainda, entre governo e democracia. O cidadão julga pelo desempenho, não pelo conceito abstrato, ou pelo valor intrínseco das instituições.

Quando a diplomacia falha nas mãos de um governo irresponsável ou aventureiro, as pessoas condenam a instituição, embora estejam insatisfeitas com o governo. O mesmo ocorre com a representação. Se os parlamentares desprezam seus eleitores, trabalham apenas em proveito próprio e dos grupos de interesses — em geral financiadores das campanhas — a sociedade condena a instituição parlamentar e a representação. Culpa a democracia representativa. Uma sucessão de governos ruins, de legislaturas descoladas da representação, mau desempenho econômico continuado podem levar à condenação não apenas dos mandatários, mas da Política e da Democracia.

Não tem escapatória. Aos olhos do povo, política e democracia são julgados no concreto, no desempenho das pessoas no comando eventual das instituições.

O quadro se complica quando, além de elites ineptas, corrompidas, insensíveis às agruras e aspirações da sociedade, tudo está em mudança vertiginosa. Ocupações desaparecem. Conhecimentos ficam obsoletos da noite para o dia. O futuro é mais incerto do que jamais pareceu ser. O presente é fluido, mutante. Tudo está mudando no impulso do rápido avanço da ciência, da tecnologia e da digitalização da vida cotidiana.

O tempo da vida acelerou. Aumentamos a quantidade de coisas que fazemos por hora, sem percebermos a sobrecarga de tarefas e informações que eleva o stress. A globalização anula parte das capacidades dos estados nacionais para lidar com os problemas que surgem. As economias falham, entre o colapso das atividades superadas e o funcionamento tentativo de formas emergentes. A velha economia não tem vigor para manter empregos, pagar salários, nem para gerar lucros. A nova economia emprega menos e demanda pessoas com habilidades muito diferentes das tradicionais. As escolas não ensinam o novo. As instituições não representam os segmentos deslocados pela mudança, mais numerosos do que aqueles com representação. Vivemos entre o local e o global, sofrendo a incompetência e as limitações dos que tentam dirigir a sociedade apenas de uma perspectiva nacional. A quem culpar?

Não há muita dúvida sobre como o povo distribuirá as culpas. Ao governo e à representação que não dão respostas estruturais à altura das aflições. Como não reconhece as fronteiras da abstração, culpará junto a democracia representativa. Governos e parlamentos podem ser dissolvidos sem trauma, ou com abalos suportáveis. A democracia só se perde com muita dor e destituição dos direitos republicanos fundamentais. Vai-se, com ela, o direito de opinião, expressão, imprensa e escolha. Perde-se a liberdade. É demorado e penoso o caminho da recuperação das liberdades perdidas.

A condenação da democracia, todavia, não decorre de erro de visão do povo. Se os governos falham serialmente, a representação trai os representados, a democracia perde qualidade e a legitimidade popular.

O desencanto com a democracia é geral e crescente. Atinge sociedades desenvolvidas e sociedades emergentes. É visível em todos os continentes. O desencanto, como a vida, globalizou-se. Ele se propaga digitalmente e em tempo real. A perplexidade, a incerteza, o medo foram socializados à escala global. Cada vez mais pessoas se reconhecem nesse espelho digital, a refletir os sentimentos aflitos causados pela escassez de respostas concretas e satisfatórias. O convencimento democrático desfalece.

Pesquisa do Pew Center em 27 países de diferentes partes do mundo fez a radiografia do abatimento geral das crenças democráticas. Apenas 45% se dizem satisfeitos com o funcionamento da democracia em seus países. A pergunta em si é reveladora: quer saber da satisfação com a maneira pela qual a democracia está funcionando no país do entrevistado. Não trata de valores democráticos gerais. Trata do desempenho de uma democracia específica, em um país determinado, para uma pessoa em particular. Não é a crença que está em questão, é a vida vivida. E é dela que se alimenta o convencimento democrático coletivo.

O que não está funcionando? O direito de expressar opinião publicamente anda bem para 62%. As possibilidades de melhorar de vida estão abertas à maioria para 52%. Mas, o sistema judiciário não é justo para todos, dizem 53%, e os políticos eleitos não consideram o que as pessoas comuns pensam, lamentam 61%. Para 60%, não interessa quem ganha as eleições, porque nada muda o suficiente. Para 54%, a maioria dos políticos é corrupta.

O povo julga no concreto. Acredita no que vê e sente. Com a conversação digital, o cidadão, que vivia solitariamente suas decepções, descobre que não está só. Apenas abandonado pela política. Sem representação. De que adianta ter o direito de se expressar livremente em público, se não será ouvido por quem toma as decisões?

A política ainda se organiza analogicamente, a velocidade de suas respostas é mecânica, não digital. A inércia dos mecanismos eleitorais deixa parcelas cada vez maiores sem representação e não permite a renovação das elites no mesmo ritmo das mudanças na sociedade. O desalento se propaga. A insegurança provocada pelas mudanças reforça o medo no futuro e a desconfiança no presente. É um povo vulnerável ao canto enganoso dos populistas que lhe prometem proteção e felicidade, à custa da sua autonomia e liberdade.

PEW

O gráfico mostra como se alastra o desencanto com a democracia. É um termômetro de risco para os governantes e deve servir de alerta para a sociedade. A mediana da insatisfação com o funcionamento da democracia aumentou 19%, entre 2017 e 2018. Se fosse crescimento econômico seria um fenômeno histórico. Se fosse inflação, produziria fortes reações em qualquer país. Exceto na Venezuela, que já perdeu a conta da inflação, e na Argentina, onde ela já passou dos 50%.

No México, a contrariedade com a democracia cresceu em linha com a mediana, 9,4%. Era altíssima e se tornou consenso nacional, com 91% dizendo que ela não funciona, num país dominado por sanguinários narcocartéis. Na Espanha, cujo eleitorado se fragmentou e anda meio sem rumo há três anos, o desagrado com a democracia também aumentou 9,5%, e ficou dominante, 81%. Na Tunísia, novamente à beira da convulsão, a insatisfação com o regime cresceu 15%. O desempenho da democracia é reprovado por 70%. No Brasil, que, no final de 2018, elegeu um presidente sem qualquer convicção democrática, o desgosto com a democracia cresceu 24% em relação a 2017. Os eleitores insatisfeitos com o seu funcionamento chegaram a 83%, no ano eleitoral. Maior do que na Tunísia e na Espanha. Só o México passa o Brasil nesse infortúnio político.

As transformações que aumentam as tensões democráticas levarão a uma verdadeira metamorfose das sociedades atuais. Os contornos do que virão a ser são imprevisíveis. Os especialistas são capazes de prever que borboleta sairá do casulo. Os sociólogos, politólogos e economistas, porém, são incapazes de prever em que espécie de sociedade a nossa se transformará no processo de metamorfose social.

Se os analistas não conseguem imaginar o futuro, o que dizer do povo? Ele constata que as coisas não vão bem e sente o descaso ou a incapacidade dos governos de responderem adequadamente a seus temores. A incerteza e o medo são conselheiros diabólicos. Misturados à insatisfação com a democracia, podem levar o eleitor a, como Fausto, arriscar um pacto com o mal. No impulso das angústias diárias, quando se der conta de que a sedução de Mefistófeles não lhe trará felicidade alguma, só a democracia lhe permitirá corrigir o erro. Se ela ainda tiver forças.

Pin It

Mais recentes

Mais Artigos

Back to Top