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Só quem se permite delirar faz boas previsões sobre o futuro longínquo. Tive a certeza disso, hoje, ao ler a coluna de Cora Rónai, “Mundo Novo” no Caderno 2 do Globo (25/2), e ser remetido a um conto publicado em 1965. Imaginem 1965, o ano em que Martin Luther King fez a histórica marcha de Selma a Montgomery, no Alabama. O LP (vinil) Beatles’65 chegou ao primeiro lugar na parada de sucessos, eles ganharam o Grammy e começaram a gravar Help. Começaram os bombardeios no Vietnam e os EUA enviaram as primeiras tropas de combate para lá. Período de testes nucleares nos EUA, na Europa e na URSS. O satélite Intelsat 1 foi lançado. A URSS lançou seu primeiro satélite de comunicações. Nos EUA assistiu-se à primeira transmissão de TV via satélite. Em Nova York, começou a funcionar a primeira rádio só de notícias, a WINS 1010 AM. Quem sonhasse com a Internet de hoje, com as tecnologias que já temos, seria considerado maluco. O que se previa ainda estava muito aquém do que se teria 50 anos depois. Só na ficção científica, em que os autores se permitem sonhar, as previsões aproximavam-se mais do que realmente aconteceria no mundo da ciência e da tecnologia.

Neste ano, o prêmio de ficção científica e fantasia Nebula, foi para Roger Zelazny, com He Who Shapes (Aquele que dá as formas) na categoria de “novela”, menor que o romance (novel) maior que o conto. Uma extraordinária estória de pouco mais de 120 páginas. A mais bem realizada obra de ficção “psicocientífica” que já li. Fala de um psicanalista freudiano e sua paciente cega. O interesse de Zelazny é mais construir uma fantasia sobre a psique, do que sobre a sociedade do futuro. Não que a ignore, ela é o contexto sociológico essencial para sua trama. Uma sociedade individualista, fragmentada, em relação à qual cria um universo psicossocial, uma psicopatologia da vida cotidiana. De tecnologia mesmo, ele só imagina duas coisas: o carro autopilotado, que só agora começa a se tornar realidade, mas que vários imaginaram; um originalíssimo aparelho de psicanálise, um ovo, óbvio, alusão direta ao útero, no qual o paciente entra e estabelece uma conexão telepática com o analista, ou “neuroparticipante”. Aliás há várias referências “totêmicas” ao longo da narrativa. O sonho, essa expressão dos desejos secretos da alma, como escreveu Freud, não precisa ser mais interpretado. Em lugar de recorrer à hermenêutica, o psicanalista acessa os sonhos do paciente e, mais, pode criar sonhos para analisar suas reações a eles.

Charles Render, o psicanalista da estória, famoso por seu tratamento pioneiro por meio de sonhos construídos, é procurado por uma psiquiatra, Eilleen Shallot. Ela é cega de nascença e tem um cachorro chamado Sigmund que fala, mas não gosta de falar. Deseja se tornar uma “neuroparticipante” e quer que ele a oriente e treine. Não vou resumir toda a estória. Basta contar que, para torná-la apta à prática desse tipo de neuropsicoterapia, ele precisa construir mentalmente, com ela, todas as formas, as cores, enfim todo o mundo físico que ela nunca viu. Não considero as limitações imaginadas pelo autor para quem não vê, como recurso narrativo, ainda mais conhecendo e tendo Jorge Luis Borges como um dos meus autores preferidos, que era cego e via muito além de todos nós. Nem é esse o ponto central do meu interesse aqui.

Mais da novela não conto, para encurtar conversa e não estragar a leitura de quem ainda a queira ler. Ou o romance, mais acessível, no qual ele a transformou no ano seguinte, chamado The Dream Maker ( O Fazedor de Sonhos). Zelazny preferia a versão mais curta. Eu também. Basta dizer que essa construção mental, mas também visual, ainda que imaginária, tem muito a ver com a realidade virtual que conhecemos hoje.

Lembrei-me dessa belíssima estória de Zelazny, lendo a coluna de Cora Rónai, como disse, quando ela fala da realidade virtual hoje, a propósito do Mobile World Congress, em Barcelona. Cora, no seu estilo sempre elegante, escreve o seguinte: “O grande momento da RV aconteceu, porém, (…) quando nada menos de cinco mil pessoas compartilharam a ilusão de estar num espaço onde, subitamente, chão, paredes e teto desapareciam. Estranhos compartilhando uma ilusão comum: nada muito diferente de ir ao cinema, certo? Errado. Assistindo a um filme não conseguimos ignorar o espaço que nos cerca, e nos sentimos parte de um grupo; usando headsets de realidade virtual, que isolam qualquer luz ou visão de fora, mergulhamos num mundo só nosso. Para efeitos práticos, a plateia desaparece.” Era tão Roger Zelazny, embora, no caso da psicoficção fossem apenas duas pessoas, que não pude deixar de me lembrar do conto e perceber, imediatamente, que ele havia previsto a VR, mais ou menos como Cora a descrevia, há 51 anos.

A sensação de parentesco foi tão grande, que não resisti, e fui escarafunchar minha biblioteca analógica atrás do livrinho. E vejam o que Zelazny escreve sobre o “ovo” dos sonhos: “naquele momento, fora do tempo e do espaço como normalmente o conhecemos, quando ele está no meio de um mundo construído pelo material dos sonhos de outro homem, ele reconhece a arquitetura não-Euclidiana do desvio e toma seu paciente pela mão para passear pela paisagem”. Cora, num engate inexplicável com Zelazny, não perguntei se ela já o leu, ainda escreveu o seguinte, sobre a cena viral de Mark Zuckerberg entrando no auditório sem que ninguém o veja, “o jovem visionário que caminha pela vida real de olhos bem abertos, e a multidão que nada vê, embalada num instante mágico, porém artificial”.

Fica difícil dizer o que é ficção e o que é reportagem, não é mesmo? Claro o estilo literário de Cora Rónai ajuda. Mas o que me importa mesmo é que para imaginar, prever artefatos ou situações no futuro remoto, não adianta recorrer a métodos e cálculos, é preciso sonhar. Só quem se permite o delírio, consegue pensar o impensável, prever o imprevisível. Não se trata de uma defesa pragmática da poesia e da ficção. Elas são essenciais em si mesmas. Mas, em um momento de incerteza e escolhas a fazer como o de hoje, são melhores conselheiras do que textos técnicos sobre o futuro, prisioneiros do real e do previsível ou provável. Ver a realidade futura, virtualmente, só em sonho, com muita liberdade para “viajar”.

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