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A democracia americana e várias democracias europeias estão sob a ameaça dos populistas. Diferentemente do velho e novo populismo latino-americano, a vertente que assalta as democracias mais maduras vem da direita nacionalista. O populismo, sob qualquer de suas formas nasce da insatisfação e do ressentimento. O terreno no qual prosperam as lideranças populistas é marcado pela frustração das oportunidades e pela desigualdade crescente. Elas exploram o sentimento de abandono ou destituição. Não são sentimentos gratuitos. Eles estão ancorados nas falhas sistêmicas dos mercados e das democracias. O mundo vive uma longa e radical transição. Os modelos político-econômicos que impulsionaram o século XX, com raízes nos séculos XVIII e XIX, não funcionam mais como antes.

As formas tradicionais de produção e circulação de mercadorias foram alteradas pela globalização, pelas mudanças tecnológicas, pelo desenvolvimento no mercado financeiro de novas modalidades de financiamento e pela instantaneidade da economia digitalizada.Tudo isso gera desigualdade e desemprego. Os novos padrões, alguns já emergentes, não são ainda capazes de gerar os empregos, a renda e o bem-estar necessários para atender às demandas da maioria. O que piora o quadro é que as democracias estão dominadas por oligarquias políticas e econômicas que não representam mais amplas parcelas da sociedade. Elas emergiram fora das jurisdições cobertas pelos partidos, sindicatos e grupos de interesses organizados e encontram-se desamparadas. São rejeitadas pelo mercado de trabalho e estão fora do alcance das redes de proteção social do estado.

O populismo, com suas ideias econômicas obsoletas, antiglobalização e protecionistas consegue entregar-lhes apenas  momentos fugazes de euforia. Ao insustentável crescimento produzido pelas aventuras macroeconômicas dos populistas, de qualquer matiz, decorrem profundas distorções nos quadros fiscal e distributivo. Desde meados dos anos 1990, temos vivido ciclos econômicos de crescimento-crise recorrentes, associados a ciclos políticos de populismo-austeridade. O resultado dessa oscilação é o aumento das desigualdades, o crescimento do desemprego estrutural, a insatisfação e o ressentimento derivados da frustração das expectativas. A cada ciclo, faixas cada vez maiores da economia se mostram incapazes de recuperação. Foi o que aconteceu, por exemplo, com as atividades do chamado “cinturão da ferrugem”, nos Estados Unidos, área de mineração de carvão e de indústrias metal-mecânicas de baixa produtividade e sem competitividade. Em regiões como essas, não há futuro de retomada das indústrias tradicionais. Capital e trabalho terão que ser reciclados para outras atividades em sintonia com o movimento da transição tecnológica, econômica e social. Nesse interregno, viveremos perigoso quadro de agravamento de desigualdade e desconforto socioeconômico.

O sociólogo Ulrich Beck define esse fenômeno como a sociedade do “indivíduo por contra própria”. A rede de proteção social não consegue atende-lo e tem dificuldade de se ajustar ao novo perfil demográfico e às limitações fiscais do estado. Passa a valer o princípio do indivíduo por contra própria que corresponde, na prática, à dura lei do “sua vida, seu risco”. As crises estruturais, portanto coletivas, passam a constituir risco pessoal, resultando em “sua vida, seu fracasso”. Apenas uma minoria de indivíduos adquire com a rapidez necessária a capacidade de combinar redes, construir alianças, fazer acordos, sempre por conta própria. Eles aprendem a viver e sobreviver numa atmosfera de risco permanente, na qual o conhecimento e as mudanças de vida são de curta duração e se multiplicam no tempo. Suas experiências de vida mudam rapidamente. Há mais liberdade para a experimentação mas, ao mesmo tempo, as pessoas devem enfrentar o desafio sem precedentes de lidar, em tempo praticamente real, com as consequências de suas ações e das ações dos outros. A grande maioria não tem essa desenvoltura e engrossa a massa de despossuídos e ressentidos.
    
Em todas as sociedades industrializadas contemporâneas, do Brasil a Portugal e Espanha, da Grécia aos Estados Unidos, da França ao Reino Unido, os jovens, com mais qualificação que seus pais, não conseguem entrar no mercado de trabalho. O desemprego entre os que têm entre 17 e 30 anos é, em geral, o dobro da média, às vezes quase o triplo. Na outra ponta, o ajustamento dos modelos previdenciários, desenhados para uma realidade que não existe mais, mesmo quando reformados para adequá-los à nova demografia, continuam a proteger indivíduos de uma estrutura ocupacional e contratual que está em dissolução. O sistema de welfare alemão data do período de Otto Von Bismarck. Foi criado em 1884. O americano nasceu no New Deal, nos anos 1930. O francês é dos anos 1940. O britânico também. Aqueles que circulam pelas formas emergentes ou transicionais de trabalho e vida não são alcançados nem pela rede de proteção social, nem pela previdência. Crescem, além disso, o desemprego e a desproteção na faixa de pessoas entre 50 e 65 anos. Forma-se, deste modo, a base eleitoral do novo populismo entre os mais jovens e os de idade madura. Essa situação precária de vida alimenta a aversão à política e aos políticos e o desencanto com a democracia representativa. Os populistas têm uma concepção instrumental da democracia. Eles a vêm como um meio para chegar ao poder, mas não a aceitam quando oferece um meio legítimo para retirá-los do poder.
    
O desafio democrático há muito deixou de ser uma questão apenas política. Não há como revigorar a crença na democracia sem desenhar novas políticas de redistribuição e proteção social, compatíveis com as demandas e limitações dessa transição. Os partidos de esquerda, socialistas, social-democratas, trabalhistas, têm a vocação redistributivista, mas sua visão econômica é ultrapassada. Os conservadores, liberais e neoliberais, têm perspectiva econômica atualizada, mas são avessos ao redistributivismo. Preferem o princípio “sua vida, seu risco”. O modelo da sociedade do indivíduo por conta própria é perfeitamente legítimo e moralmente justificável para eles. Portanto, o desafio democrático global é ainda mais complexo. Não pode ser resolvido com reformas. Ele requer um novo paradigma redistributivo, compatível com a nova realidade econômica e fiscal e com as novas demandas da sociedade da transição. Mas não há, hoje, no espectro político, lideranças capazes de entender esse desafio e propor novos modos para resolve-lo.

(Originalmente publicado em: http://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/o-novo-populismo-e-o-desafio-democratico.html)

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