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A França acaba de dizer nas urnas que prefere uma via pragmática, como a oferecida por Emmanuel Macron, à aventura isolacionista da extrema-direita. A extrema-direita tem sido rejeitada em vários países europeus em eleições recentes, embora siga sendo bem votada. O encanto com os demagogos e extremistas está se quebrando.

Os partidos tradicionais ancorados nas ideologias clássicas da esquerda e da direita estão perdendo espaço porque suas bases sociais estão desaparecendo ou são muito ameaçadas de extinção por forças estruturais que os programas de esquerda sequer enxergam. À direita, os setores que lhe são tradicionalmente ligados vivem o mesmo processo de corrosão histórico-estrutura, mas preferem oferecer o sonho reacionário de um passado idealizado. Ao mesmo tempo, as mudanças estruturais criam novas forças sociais que não se sentem representadas por nenhum desses partidos, nem protegidas pelas redes de proteção social existentes. Querem lideranças novas, que falem sua linguagem. Mais do que terreno propício à extrema-direita ou ao ultranacionalismo, é um quadro que aponta para a volatilidade eleitoral e maior instabilidade política. Os partidos não têm sido capazes de entender este momento de transição da metamorfose social global, no qual o velho desmorona antes que o novo amadureça. Tenho escrito muito sobre esta situação estrutural.

A vitória de Macron foi folgada: 58,5%, contra 41,5% dados a Marine Le Pen. Como ficará o governo no ano que vem, dependerá das eleições parlamentares no início de junho. O crescimento dos três mais votados em 2022, em relação às respectivas votações de 2017, mostra apoio muito mais forte ao pragmatismo do que a escolhas extremistas. Não significa que não tenham apelo para uma parte importante dos eleitores. Ao contrário: um contingente importante dos mais descontentes pende para os extremos à direita e à esquerda. Mas, o eleitorado de Macron foi o que mais cresceu, tanto em termos percentuais, quanto absolutos. A extrema-esquerda de Mélenchon cresceu mais do que a direita de Le Pen. A votação de Macron cresceu 13%, perto de 1,1 milhão de votos a mais. A escolha por Le Pen cresceu 5,9%, pouco mais de 455,3 mil votos. Não é um crescimento que autorize cenários de guinada dos franceses para a extrema-direita. O eleitorado de Mélenchon cresceu 9,2%, ou 652,6 mil votos. Também não prenuncia uma onda de extrema-esquerda.

No segundo turno, Le Pen passou de 33,9% dos votos, em 2017, para 41,46%, agora. Um ganho bem mais expressivo. O voto de segundo turno não é ideológico. No caso, ele foi motivado mais pela rejeição a Macron do que pela preferência real por Le Pen. Há estimativas de boca de urna de que em torno de 20% dos que votaram em Le Pen, haviam votado por Mélenchon no primeiro turno. É um voto mais comparativo. E aqueles que não votaram por nenhum dos dois, no primeiro turno, tendem a votar no menos pior, ou menos rejeitado. A votação em Macron no segundo turno nos grandes centros urbanos foi avassaladora. Foi a opção hegemônica.

A eleição deste ano foi menos fragmentada e mais tranquila para Macron, do que a de 2017. No primeiro turno de 2022, ele ficou 4,7 pontos à frente de Le Pen (27,85% x 23,15%), uma diferença de 1.6 milhão de votos. Em 2017, a diferença entre eles havia sido de 2,7 pontos, ou 977.8 mil votos. A votação, em 2022, ficou dividida entre o presidente, a extrema-direita repaginada de Le Pen e a extrema-esquerda de Jean-Luc Mélenchon, com 21,95%. Em 2017, Macron terminou o primeiro turno com 24%, Le Pen, com 21,3%, François Fillon, centro-direita, com 20%, e Mélenchon, 19,58% . Foi, como se vê, um primeiro turno de voto muito mais fragmentado e resultado bem mais apertado.

No primeiro turno, o voto mais ideológico à esquerda e à direita cresceu menos do que o voto pragmático, em Macron. Um resultado mais consistente com o derretimento das ideologias que se observa em todo o mundo. Os surtos de extremismo produzem governantes incidentais, eleitos em votações atípicas, marcadas pelo ressentimento e indignação. Se os eleitos não conseguem solapar as regras da competição eleitoral no primeiro mandato, raramente se reelegem. Foi o que ocorreu com Donald Trump.

A questão agora, é saber se o pragmatismo se mostrará forte também nas eleições parlamentares, cujo primeiro turno será em 12 de junho próximo. Macron começou seu quiquenato com hegemonia na Assemblée Nationale obtida nas eleições parlamentares de 2017, logo após sua surpreendente vitória. Ao longo do mandato, houve migração de deputados para outras legendas e, até, algumas renúncias de mandato. Mesmo assim, o partido de Macron, La République en Marche (LREM), manteve maioria muito confortável, de perto de 60% das cadeiras, com seu partido e o apoio de três partidos bem menores.

As eleições de junho se darão em um contexto de grande imprevisibilidade. Macron, pelo tom comedido de sua declaração de vitória, está provavelmente se precavendo. Pode haver maior dispersão dos votos e nenhum partido ter a maioria. Ele teria que negociar uma coalizão em condições menos favoráveis do que no mandato anterior. As lideranças locais podem ser mais decisivas que os grandes nomes dos partidos. O voto pragmático dos grandes centros é um fator confortador para Macron, mas não é uma garantia firme. O voto distrital tem peculiaridades que dificultam a correspondência entre o voto presidencial e o parlamentar, a não ser em condições atípicas, como foi em 2017.

No semipresidencialismo, presidente com maioria do seu partido no parlamento tem poder imperial, como nos Estados Unidos. Ele faz o primeiro-ministro que opera sob sua orientação, embora teoricamente devesse responder ao parlamento. Se o presidente não tem a maioria, tem que negociar uma coalizão. Há três situações possíveis. Primeira: o partido do presidente tem a primeira minoria e sua bancada é bem maior do que as outras. Ele consegue negociar uma coalizão com as forças mais próximas e fazer o primeiro-ministro do seu partido. Cede pouco de poder à coalizão, mas continua sendo uma presidência forte. Segunda: o presidente não tem a primeira minoria, mas o partido mais próximo tem. Este escolhe um nome para primeiro-ministro, o presidente cede o poder de formulação de políticas à coalizão, mas tem uma coabitação relativamente tranquila com o aliado e mantém influência significativa nas decisões de política doméstica. É similar ao que acontece se as bancadas tiverem tamanho equivalente, dando-se um empate de forças. Terceira: a primeira minoria é do maior partido da oposição e este consegue formar uma coalizão com os demais partidos que se opõem ao presidente. Neste caso, o sistema se torna parlamentarista. O primeiro-ministro tem total controle da política interna e das políticas públicas centrais, econômicas e sociais. O presidente retém o poder de formular a política externa, que cabe ao chefe de estado. A coabitação pode ser atritosa, produzindo governos instáveis.

É impossível de prever o ocorrerrá, a esta altura. O mais provável é que o LREM, partido de Macron, mantenha a primeira minoria. Mas é impossível dizer qual será o tamanho dela em cadeiras, ou o que acontecerá com o RN, de Le Pen, e com o LFI, de Mélenchon. A representação de ambos hoje é exígua. La France Insoumise (LFI), de Mélenchon, tem 17 deputados. E o Rassemblement du Peuple (RN) de Le Pen, tem seis. Uma coisa é certa, os franceses escolheram, outra vez, a política pragmática de um presidente que ora fez programas de centro-esquerda, ora de centro-direita e é fortemente pró-Europa. Será que para a Assembleia votarão por maioria de extremistas ou anti-Europa?

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