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 (Atualizado com novos números)

As últimas pesquisas eleitorais geraram muita falação sobre mudanças, reviravoltas nas preferências eleitorais. Mas será que algum evento foi forte suficiente para romper a inércia pré-eleitoral? Alterou-se substancialmente a cristalização da disputa polarizada entre a extrema-direita e a centro-esquerda? Examinando os números não se vê grandes mudanças.

O evento mais significativo foi o abandono da pré-candidatura por Sérgio Moro, que era um candidato pequeno e novato. Na média, nas últimas oito pesquisas do Ipespe, ele tinha 8% das preferências. Se todas as intenções de voto em Moro fossem para um só candidato, poderiam quebrar esta inércia. Se estas preferências se dispersassem com a ausência do nome de Moro na cartela da pesquisa estimulada levariam apenas a uma variação marginal das intenções de voto.

Foi o que ocorreu, as linhas do gráfico abaixo, mostrando as preferências eleitorais consolidadas para os três principais institutos de pesquisa, entre setembro de 2021 e abril deste ano, são quase retas. As variações são desprezíveis, sempre coladas na margem de variação para meta-análises.

As preferências por Lula estão estacionadas no intervalo de 43% a 46%. Para Bolsonaro estão paradas no intervalo de 23% a 27%. Os outros candidatos mostram inércia simimlar, todos em patamares praticamente fixos desde setembro de 2021. Os 44% de Lula em abril de 2022, já haviam sido captados em outubro de 2021, janeiro e fevereiro de 2022. Os 27% de Bolsonaro, haviam sigo registrados em outubro de 2021. Creio que o correto é dizer que não tem havido mudanças relevantes nas pesquisas de intenções de votos. Não haverá alteração antes do começo da campanha oficial na TV e nas redes digitais, se a campanha conseguir mudar a cabeça dos eleitores. Um evento forte e que cause danos relevantes à reputação de um dos candidatos poderia ter este efeito também. Mas, considere-se que o escândalo do MEC, prejudicial à educação que é considerada prioritária pelos eleitores, não causou nenhum dano a Bolsonaro.

 

Pref22

 

Uma outra maneira de examinar esta inércia eleitoral, é pela rejeição. Ela permite estimar a probabilidade de sucesso eleitoral dos candidatos ao definir tetos para o seu crescimento na preferência dos eleitores. O gráfico seguinte mostra padrão similar ao das preferências eleitorais, embora com uma amplitude de variação algo maior. O que se vê, todavia, é estabilidade na rejeição principalmente a Lula e a Bolsonaro.

 

Rejeitamar  

A rejeição de Lula, que estava em 47%, na média consolidada, em setembro de 2021, caiu para 45%, em outubro e para 42%, em novembro. Daí em diante, a rejeição a Lula tem variado entre 40% e 43%.

A rejeição a Bolsonaro tem variado, na média consolidada, entre 65% e 60%, sem muitas oscilações. Uma rejeição alta demais, que define um teto baixo para o crescimento do voto em Bolsonaro. Se permanecer neste patamar dificilmente ele terá sucesso na eleição.

Este quadro inercial é muito negativo mesmo para Bolsonaro. Não há, no cenário atual, nenhum número relevante que seja positivo para seu desejo de se reeleger. O gráfico seguinte mostra a avaliação do governo de Bolsonaro, medida pelo Datafolha para março deste ano, comparada à avaliação do governo de seus antecessores, no mesmo mês do ano da reeleição de cada um. A desaprovação do governo Bolsonaro, de 46%, é mais do que o dobro da desaprovação de Dilma, Lula e FHC, em março dos anos em que eles conseguiram se reeleger. Todos os três, coincidentemente tinham 21% de reprovação no mês de março do ano de suas respectivas reeleições.

 

Reprova22

 

Outro número crítico para a reeleição, que tem impacto na avaliação negativa e na rejeição, é a inflação. A inflação de Bolsonaro, acumulada em 12 meses neste março, é também muito maior do que a inflação de seus antecessores, no mesmo mês da disputa pela reeleição, como mostra o quadro abaixo. O IPCA acumulado em 12 meses neste março é de 11,3%. Em março de 2014, ano de reeleição de Dilma, era de 6,15%. Em março de 2006, quando Lula foi reeleito, era de 5,32% e, quando FHC foi reeleito, de 4,52%.

 

IPCAmar

 

Se permanecer esta inércia pré-eleitoral, que indica crescente cristalização das preferências dos eleitores, a avaliação negativa do governo e a rejeição a Bolsonaro tão altas e a inflação também muito elevada, a probabilidade de reeleição de Bolsonaro é bem pequena.

Nas últimas semanas aumentaram as conversas em torno de uma possível terceira via, uma candidatura única para tentar despolarizar a campanha presidencial. Existe mesmo, ainda, espaço para uma candidatura alternativa?

Há três maneiras de examinar esta questão. Uma, é por meio das pesquisas, verificando o espaço estatístico, teórico, para um terceiro nome. A segunda, é histórica, examinando o padrão do voto para presidente entre 1989 e 2018. A terceira é pela análise política do posicionamento dos partidos e dos pré-candidatos que buscam a terceira via.

Examinando-se os números da pesquisa, no gráfico abaixo, vê-se que, teoricamente, haveria espaço para um terceiro nome crescer, partindo de um patamar de 20%. Este patamar é dado pela soma das intenções de voto para Ciro Gomes (PDT-CE), João Doria (PSDB-SP), e Simone Tebet (MDB-MS. Para avançar acima deste patamar, a candidatura da Terceira Via teria que tirar votos de Lula e Bolsonaro.

 

TerceiraVia

Na história da Terceira República, um terceiro nome apareceu em algumas eleições, mas ficou no patamar de 21% dos votos, não logrando despolarizar a disputa PT/PSDB. Como se vê no gráfico, o percentual de voto dado a um terceiro nome no primeiro turno (o terceiro mais votado), variou entre 6,85% para Heloisa Helena (PSOL-AL), em 2006, a 21,32% de Marina Silva (PSB-AC), em 2014. Marina Silva foi a candidata que conseguiu o melhor desempenho como tentativa de terceira via. Foi dela, também, o segundo maior percentual obtido por um terceiro nome, com 19,33% dos votos, concorrendo pelo PV, em 2010.

 

TerceiroNomeHist

Em 2002, Anthony Garotinho (PSB-RJ), conseguiu 17,87% dos votos. Ciro Gomes (PPS-CE), em quarto, teve 11,97% dos votos. Seria possível especular que, se os dois partidos apresentassem um candidato único, eventual, a terceira via poderia alcançar quase 30%. Mas, contrafactuais não fazem história. O gráfico mostra que o partido que cedeu votos aos dois outros candidatos foi o PSDB. José Serra ficou com apenas 23,19% dos votos. Em 1994 e 1998, a vitória de Fernando Henrique no primeiro turno deixou pouco espaço para um terceiro nome.

Em 1989, a eleição presidencial mais fragmentada de nossa história, com 22 candidatos inscritos e gande dispersão dos votos, o PSDB, em sua eleição inaugural obteve apenas 11,5% dos votos, com Mário Covas. Fernando Collor (PRN-AL), teve a maior votação, 32,47%. O PT foi para o segundo turno com Lula, que teve 16,69%. Leonel Brizola (PDT-RS), obteve 16,04%, apenas 0,65 pontos abaixo de Lula.

Foi uma eleição atípica, como a de 2018. As duas únicas que levaram ao segundo turno e à vitória, candidatos de partidos miniaturas, com votação significativamente superior às dadas aos candidatos do PT e do PSDB. Portanto, historicamente, a terceira via alternativa ao PT e ao PSDB só teve chance em eleições atípicas, fora do padrão dominante na Terceira República. É possível argumentar que a eleição deste ano, 2022, também será atípica, o que poderia em tese dar viabilidade à terceira via. Mas, a probabilidade, à luz da história recente, é baixa e a tendência à bipartidarização da disputa presidencial é dominante e já aparece claramente nas pesquisas.

A análise política das conversas em torno da terceira via reforça esta baixa probabilidade. Até agora, a terceira via é hipótese, miragem. Há vários nomes, todos aparecem com baixo percentual de votos pelas pesquisas. Alguns, como Ciro e Doria são mais conhecidos pelo eleitor. Ciro parece ter um eleitorado fiel que lhe dá perto de 10% de potencial. Mas uma proposta nem-nem não tem cara, nem conteúdo e não vai prosperar. A terceira via precisa de nome, cara e proposta e tem muito pouco tempo para isto.

É pouco provável que Ciro aceite negociar a união em torno de um nome para encarnar a terceira via que não seja o dele. Duas candidaturas concorrendo dispersarão os votos e tirarão ambas do segundo turno. Há divisões dentro de todos os partidos, em torno da opção por entrar na corrida presidencial, com candidato próprio ou com um nome saído da coalizão pela terceira via. Os sistemas políticos regionais compelem os partidos a se aliar aos dois ponteiros, Lula e Bolsonaro. São divisões difíceis de eliminar, a não ser que o nome suba rapidamente nas pesquisas, empatando com Bolsonaro.

Todos os partidos estão focados, também, na busca de votos para fortalecer suas bancadas, principalmente na Câmara dos Deputados. Precisam ultrapassar a cláusula de barreira e não podem mais contar com coligações proporcionais. As federações, não têm viabildiade, a não ser entre partidos pequenos, ou por forte proximidade programática como é o caso do PT e do PCdoB. A busca de bancadas mais fortes acentua as divisões regionais internas aos partidos.

Bancadas mais encorpadas garantem o acesso ao poder e ao orçamento federal. Além disso, tenho insistido que são uma precondição indispensável à governabilidade. Menos partidos e bancadas maiores permitem coalizões mais enxutas e homogêneas , melhorando significativamente as condições de governabilidade. O último gráfico mostra, com nitidez o efeito da fragmentação partidária e da dispersão dos votos na miniaturização das bancadas na Câmara Federal.

Bancadasnanicas

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