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A invasão da Ucrânia completa 30 dias hoje. Trinta dias de horror. Uma gigantesca crise humanitária. Mais de três milhões e meio de refugiados, mais de um milhão deslocados dentro do país. Mortes ainda incontáveis, de civis e crianças, como em toda guerra. Destruição brutal de infra-estrutura, residências, equipamentos urbanos essenciais como escolas, hospitais, teatros. Destruição quase total de cidades inteiras, como Mariupol.

Não era o que Putin havia planejado. Nem o que os cenários estratégicos das autoridades da OTAN e dos governos a ela pertencentes previam. O que mudou as tendências e frustrou os planos da Rússia foi a resistência heróica dos ucranianos. Esta bravura inesperada e o bom uso das forças militares em desvantagem pararam o avanço russo no território ucraniano.

Se pensamos a guerra em três fases, começo, precedido de inteligência; invasão e ocupação; finalização e acordo de paz, Putin saiu com vantagem na primeira e atolou na segunda fase. Na primeira fase da guerra, o movimento inicial em várias frentes indicando uma invasão total, e não apenas de Donetsk e Luhansky na região contestada de Donbass, a Rússia deu um cheque-mate na OTAN e seus aliados. A estratégia no plano geopolítico foi bem pensada. Limitou o alcance das respostas ocidentais. Para evitar a mundialização do confito, em termos militares, o máximo que o Ocidente pôde fazer foi dar ajuda militar parcial à Ucrânia (não puderam dar caças, por exemplo) e se fixar em sanções duríssimas, mas também parciais (Alemanha, por exemplo, continua se recusando a banir o petróleo e o gás da Rússia). No plano de movimentação de tropas, o máximo que fez foi deslocar efetivos dos países da OTAN para os países-membros na fronteira da guerra. É um movimento estratégico de antecipação, que serve para evitar ações militares da Rússia nestes países, porque corresponderiam a um ato de guerra contra todos os países da OTAN.

A segunda fase da guerra, a execução da invasão e a ocupação dos pontos estratégicos para controle do país adquiriu dinâmica própria, o que é de se esperar numa guerra, e frustrou os planos inciais de Putin. O avanço russo encontrou um obstáculo inesperadamente resistente na épica resposta dos ucraniano. Putin teve que mudar de tática militar e o custo humanitário da guerra aumentou exponencialmente. Diante do avanço penoso nas várias frentes e das dificuldades de tomar Kyiv e outras cidades e das enormes dificuldades militares e econômicas para manter ocupação prolongada, abandonou os planos originais. Parece ter desistido, inclusive, de entrar na capital, derrubar o governo, capturar e provavelmente matar Zelenskyi. Mudou para uma tática guerra aérea, na qual predominam bombardeios por aviões, navios, mísseis e da artilharia pesada, ao confronto de tropas no solo. Putin tenta manter o cerco nos arredores de Kyiv e tomar os portos para fechar a saída da Ucrânia para o Mar de Azok e para o Mar Negro. A Rússia provavelmente vai insistir nesses objetivos em Kherson, Mykolaiv, Mariupol e Odessa. Os bombardeios devastadores e aparentemente aleatórios para causarem o máximo de surpresa, além da destruição de infra-estrutura, instalações militares, prédios governamentais, visam a quebrar o moral dos ucranianos. Esta última tem se mostrado infrutífera.

Ninguém sabe como esta fase terminará, nem se e quando o conflito entra na fase de finalização, para chegar a acordos de paz. Há vários cenários possíveis e em aberto. O prolongamento desta fase por meses, até mesmo por todo o ano, com pesadíssimas perdas para a Ucrânia e perdas significativas também para a Rússia é um deles. Quanto mais tempo a Ucrânia resistir, mais efeitos das sanções a economia russa sentirá e maior o desconforto interno, da população, com a inflação, o desabastecimento, o desemprego e as restrições de mobilidade.

A Ucrânia pode chegar ao limite de sua resistência, apesar de toda sua bravura e vontade. Seria o pior cenário do ponto de vista humanitário e do futuro na nação ucraniana. Os russos conseguiriam a rendição e negociariam termos muito lesivos à Ucrâni, que atingiriam a soberania nacional ucraniana, para retirada das tropas.

O melhor cenário seria a finalização da guerra por meio de acordos diplomáticos, que permitissem à Ucrânia sua integridade nacional. Claro que os ucranianos teriam que fazer concessões limitando suas relações com a Europa, principalmente no campo da segurança militar.

As negociações diplomáticas, que normalmente ocorrem nesta segunda fase, como preparação para a terceira, que é de fechamento, a finalização das operações, avançaram muito pouco. Há, em todo conflito, uma guerra de versões. Elas servem de suporte às negociações, tentando captar apoios e desviar pressões de outros atores nacionais e internacionais. Houve anúncios de impasses e avanços de parte a parte, mas pouco de concreto. Mesmo os corredores humanitários têm sido objeto de muita troca de acusações e, embora funcionem, não têm sido suficientes para preservar civis, particularmente em áreas hipercríticas como Mariupol.

Tudo indica que Putin conseguiu a aceitação de uma de suas exigências que foi o compromisso de que a Ucrânia ficará fora da OTAN, numa situação de neutralidade. É possível que a Ucrânia tenha conseguido que Putin tenha aceitado a desmilitarização parcial, podendo manter suas forças armadas apenas para autodefesa. Também há sinais de que Putin teria abandonado a mudança de regime, com saída de Zelenskyi, que chamava de "desnazificação". No restante, ainda não conseguiram chegar a pontos mínimos de entendimento.

O cenário de interrupção das hostilidades por acordo diplomático dificilmente se realizará sem a mediação de países que tenham a confiança dos dois lados, Rússia e OTAN/Ucrânia. Até agora, os países da OTAN não se manifestaram sobre ações diplomáticas para a paz. As declarações são todas beligerantes. A China seria o pivô que falta. Xi Jinping tem manifestado o desejo de uma saída diplomática, mas ainda mantém uma atitude de distanciamento ostensivo das negociações. Há, contudo, algumas indicações de que tem agido nos bastidores. Não há, porém, sinais de engajamento diplomático do Ocidente com a China, para vaibilizar este movimento. Sem mediação externa, é difícil imaginar que o impasse diplomático seja rompido em breve.

Na avaliação de risco dos organismos de segurança do Ocidente, porém, há a hipótese de que a China dê ajuda econômica e militar à Rússia. O risco deve ser considerado porque, embora a probabilidade seja baixa, os custos seriam altos. Os governantes europeus e o presidente dos EUA estão discutindo na OTAN e no G7 e como fazer a China saber que isto não seria tolerado. Tenho dúvida de que interesse à China se envolver tanto nesta guerra, tomando tão ostensivamente o lado da Rússia a ponto de dar ajuda militar, como a OTAN faz com a Ucrânia. Vejo a China mais interessada em evitar o cancelamento geopolítico da Rússia e deixar claro que quer suas zonas de influência respeitadas pelo Ocidente. Daí porque protestar contra a excclusão da Rússia da reunião do G20. Por outro lado, não interessa ao Ocidente hostilizar a China a ponto de gerar dificuldades mais sérias de relacionamento. A China é uma potência geopolítica e econômica, controla redes de suprimentos estratégicos para a economia global e é um megamercado tanto para os EUA, quanto para a Europa.

Que consequências mais duráveis desta guerra já estão visíveis, além das enormes dificuldades de repatriar os refugiados e reconstruir a Ucrânia? Haverá traumas indeléveis, com as perdas de pessoas amadas e de compatriotas?

Do ponto de vista geopolítico, algumas mudanças duráveis já estão ocorrendo. Creio que está claro que entramos definitivamente na geopolítica de grandes potências, EUA, China, UE e Rússia. Uma geopolítica multipolar com zonas de influência demarcadas. Não é bom, mas é o que parece inevitável consequência deste quadro. A União Europeia se fortaleceu. O Reino Unido teve mais uma demonstração do erro estratégico da saída da UE, a Brexit. A Europa ficará mais armada e adotará novas diretrizes estratégicas de segurança nacional e dos países da União. O G7 também sai mais forte, pelo menos temporariamente, porque o G20 ficou inviabilizado e será difícil recuperá-lo enquanto as relações com a Rússia não se normalizarem. Países importantes do G20 como China, Índia, Indonésia e Brasil rejeitam a exclusão da Rússia. De fato, seria um precedente que esvaziaria de vez o G20. Mas, ele ficará inoperante ou inóquo, até que a situação da Rússia se resolva.

A globalização mostrou fragilidades importantes, pela segunda vez nos últimos três anos, diante de situações extremas como a pandemia e a invasão da Ucrânia pela Rússia. O acidente nuclear em Fukushima, causado por um terremoto seguido de um tsnunami, em 2011, já havia mostrado como algumas cadeias globais de suprimentos poderiam ser paralisadas por eventos imprevistos, causando a interrupção de cadeias de produção em todos os países a elas ligadas. A pandemia paralisou cadeias de suprimentos estratégicas na China, como a de chips, prejudicando a indústria eletroeletrônica, de informática e de automóveis em todo o mundo. Antes que essas cadeias globais sejam totalmente reativadas, a invasão russa expôs a dependência crítica da Europa à energia fóssil russa. A cadeia de chips ficou prejudicada pelo suprimento de gás neon, do qual a Ucrânia é o grande fornecedor global. A oferta de trigo, milho e fertilizantes no mercado global foi fortemente prejudicada pelo impedimento das exportações de grandes produtores de grãos, Rússia, Belarus e Ucrânia; e de fertilizantes da Ucrânia. Esta queda pressiona a inflação global e prejudica o abastecimento. A experiência mostra que, em situações de escassez de grãos, os elos mais fracos da corrente de consumo, os mais pobres, saem perdendo e ficam vulneráveis à surtos de fome. Aplica-se a setores sociais e a países.

O mundo não vai se desglobalizar por causa disso. A globalização deverá, todavia, ser redesenhada, principalmente para evitar disrupções de vários tipos: pandemia, desligamento por guerra, desastres tipo Fukushima. Há vários caminhos possíveis, nenhum deles de baixo custo e realizável no curto prazo. Uma das saídas é por meio de investimentos em cadeias regionais de suprimento de menor escala, de modo a assegurar redundância suficiente para atender a essas emergências. Outra é a formação de estoques estratégicos em maior escala para reduzir necessidades imediatas de importação e ganhar tempo. Os estoques estratégicos americanos de petróleo, por exemplo, estão sendo usados nesta crise com esta finalidade. A substituição de combustíveis fósseis por fontes de energia não-emissoras de gases estufa deve ser acelerada. Os investimentos em geração de hidrogênio devem ser aumentados muito significativamente para acelerar a solução dos últimos gargalos tecnológicos. O hidrogênio é única fonte limpa que pode ser desenvolida como substituta perfeita do petróleo.

Até o final desta guerra, iniciada com a invasão injustificada da Uccrânia pela Rússia, ainda haverá mais repercussões geopolíticas e para a globalização que afetarão a nova ordem global após a guerra da Ucrânia. Haverá também mais efeitos econômicos duros para a Rússia e desestabilizadores, para o mundo. Mas o pior, é que a tragédia humanitária na Ucrânia, o horror, pode aumentar, antes de tudo acabar. As enormes sequelas humanas serão duráveis.

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