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Por que a inflação é responsabilidade de Bolsonaro? A inflação está acima de 10% há seis meses. A economia está desgovernada e os juros em elevação. No ministério da Economia parece que a crença é que discursos fantasiosos teriam o condão de virar as expectativas dos agentes econômicos. Mas, os truques que às vezes pegam no mercado financeiro, não funcionam quando se trata de comprometer investimentos de mais longo prazo em atividades produtivas ou comerciais. A economia, fragilizada pelos erros sequenciais de política econômica e pelos abalos na confiança provocados por atos e declarações de Bolsonaro, está muito vulnerável a choques externos adversos.

Pensei que nunca mais precisaria voltar a me preocupar com a economia política da inflação. A última vez que tratei deste assunto foi ainda na época da hiperinflação. Publiquei dois estudos sobre as coalizões inflacionárias e as estratégias de adaptação das diversas forças sociais ao ecossistema hiperinflacionado. Naquele período, era frequente a controvérsia em torno da causa da última subida da inflação. Em vários momentos, a causa última era um choque externo de preços, por exemplo do petróleo ou do trigo. Mas, a causa primária era sempre doméstica, tinha a ver com erros de política econômica e com a inércia inflacionária. Esta, resultava da realimentação dos preços com a inflação passada pela via da indexação praticamente total da economia.

Agora, a indexação é residual e, mesmo quando é contratual, os reajustes pode ser renegociados abaixo do indíce de correção de preços. Na economia praticamente desindexada e com a inflação de dois dígitos já por seis meses, as variações de preço têm impacto direto na renda real da população assalariada. Principalmente porque, em períodos de estagnação econômica e desemprego alto, o reajuste salarial é muito menos frequente e o poder dos sindicatos, reduzido. O câmbio também tem impacto sobre a inflação, pela via dos preços dos importados e sua repercussão por toda a economia. No ano passado, a maior parte da inflação brasileira veio do choque de câmbio. Mas nada estsava acontecendo no mundo que pressionasse o câmbio. Apenas no Brasil a moeda perdia valor para o dólar. Por que? Por causa das trapalhadas de Bolsonaro e de suas ameaças golpistas. Nas proximidades do 7 de setembro de 2021, quando Bolsonaro tentou sua quartelada, o câmbio disparou. No resto do mundo, estava estável.

Entramos em 2022, com a inflação alta e resistente à elevação da taxa de juros. A Selic, taxa básica de juros, já estava em 9,25% ao ano e a inflação em 10,06% no acumulado de doze meses. A maior taxa desde 2015. A inflação alta e persistente é muito vulnerável a choques externos. Se o preço das importações sobe, e ele já está em patamar muito elevado por causa do câmbio, seu impacto inflacionário é maior e há pouco a fazer. A pandemia provocou inflação em todo o mundo, mas a boa ou má gestão macroeconômica e da pandemia fez diferença no nível de inflação. Trump fez péssima gestão w BIden resfolegou nos primeros meses de governo. Resultado, inflação em nível mais alto. Bolsonaro errou o tempo todo. Resultado, imflação em nível muito mais allto.

A parte principal do bom desempenho da economia vinha do agronegócio, que sofreu um choque meteorológico interno, com secas importantes e chuvas intensas em regiões produtoras. Agora, o setor será diretamente afetado pelo choque externo provocado pela guerra. O agro sustentou o crescimento da economia, ainda que medíocre, mas contribuiu para o aumento da inflação.

A guerra provocará, muito provavelmente, uma onda de choques externos que dificultará o fluxo de várias cadeias importantes de suprimento. Muitas dessas cadeias ainda não haviam se recuperado da paralisação causada pela pandemia. O preço internacional do petróleo está em alta por causa das sanções impostas à Rússia que reduzem sua capacidade de exportação. A Rússia é um dos três maiores exportadores de petróleo do mundo. Não adianta controlar o preço artificialmente, nem gastar recursos escassos do Tesouro para subsidiar consumidores, exceto o gás das pessoas de baixa renda.

Além disso, o conflito atinge o suprimento global de trigo e milho, porque Rússia e Ucrânia são grandes produtores. O preço dos grãos já estava em alta, por causa da pandemia e da seca nos Estados Unidos, outro grande produtor. Com a guerra, não apenas o preço do trigo e do milho subiram, como também de fertilizantes e agrotóxicos. A Rússia também é grande produtora de fertilizantes, junto com sua aliada Belarus igualmente atingida pelas sanções. Segundo Mark Welsh, professor do departmento de economia agrícola da Universidade Texas A&M, os fertilizantes são produzidos por um processo químico que usa gás natural. Quando o preço do gás natural sobe, o preço dos fertilizantes também sobe.

Logo o preço dos fertilizantes vai ser afetado tanto pelo preço do gás natural, que representa em torno de 75% do custo de produção de fertilizantes, segundo Welsh, quanto pela escassez do produto final com a interrupção das exportações da Rússia e de Belarus os maiores produtores mundiais.

Adicionalmente, a Ucrânia é o maior fornecedor global de gás neon, usado nos chips. Como o suprimento de chips foi muito afetado pela pandemia, a recuperação de sua cadeia de suprimentos fica fortemente prejudicada. Isto tem impacto no preço e na produçao das indústrias automobilística, de eletrodomésticos e de equipamentos de informática.

Não importa de quem o Brasil compra estes insumos. São comoditties globais, portanto o preço delas é dado pelo mercado internacional, não pelo mercado interno. Nosso trigo, por exemplo, vem da Argentina e os preços esstão em alta porque acompanham a cotação internacional. Estes aumentos de preço das commodities é repassado para toda a cadeia de produção, até o consumidor final, acelerando a inflação que já está alta demais.

Que países serão mais afetados, além da Rússia, Belarus e Ucrânia? As mais dependentes de produtos dos três e aquelas cuja a economia já está muito frágil por causa dos efeitos da pandemia e da má gestão. A inflação nos EUA está em 8% e com tendência de alta. Já é o índice mais elevado em 40 anos, puxado pelo preço do combustível e dos alimentos. O FED, o banco central americano, deve aumentar a taxa de juros esta semana, pela primeira vez depois da pandemia. O choque externo já faz os mais pessimistas imaginarem que a inflação possa chegar aos dois dígitos e os mercados reagiram a esta possibilidade, ajustando suas operações a uma taxa de juros mais alta.

O Brasil pontua nos dois quesitos. É dependente e sua economia estava em crise bem antes da guerra. O Brasil é importador de petróleo, trigo, milho e fertilizantes. Será atingido pelos choques externos de preço, no momento em que a economia está na estagflação de Bolsonaro. As contradições da política governamental e o fato de que só resta a política monetária do Banco Central elevam os juros, ampliando o escopo da estagnação e apontando para a recessão. Na economia brasileira debilitada e com alta febre inflacionária, os choques externos atuam para agravar perigosamente o seu estado. Não criam crise nova, acentuam a crise provocada pelo governo Bolsonaro. A absorção inevitável desses choques externos levaram o governo a transferir toda a causalidade da crise para a guerra.

Mas, os fatos não permitem dúvida. A guerra tem menos de um mês. A inflação está acima de 10% no Brasil há seis meses. O PIB do último trimestre de 2021 cresceu apenas 1,5% em relação ao último trimestre de 2020. Em janeiro deste ano, a produção industrial havia descrescido 2,4%. O setor de bens de consumo duráveis teve queda de 11,5% e o de bens de capital, que é indicador de investimento, caiu 5,6%. Todos dados oficiais do IBGE. Portanto, a economia já estava em um estado péssimo, bem antes da guerra. A inflação, a perda de renda real e atividade medíocre da economia são de Bolsonaro e agravadas pelos choques da guerra.

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