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O encontro entre Sergey Lavrov e Dmytro Kuleba, Antalya, sofisticado balneário no litoral turco do Mediterrâneo, mediado por Israel e Turquia foi frustrante. Os bombardeios de áreas civis pela infantaria pesada e pela aviação russa aumentaram em frequência e intensidade. A AIEA, Agência Internacional de Energia Atômica, que regula o uso de energia nuclear no mundo, expressou muita preocupação com a segurança nuclear na Ucrânia.

O discurso dos governantes da OTAN aumentou de tom e agressividade — "Putin precisa ser derrotado", disse a chanceler britânica — mas com as garras militares recolhidas. A escalada na agressividade da linguagem diplomática é um sinal histórico de aumento do risco de conflito armado. O perigo nuclear está presente e o risco de incidentes graves está em elevação. O ataque russo vai aumentar sua brutalidade, deixando terra arrasada e muitas vítimas civis no seu caminho, como aconteceu em Grozny, na Chechênia, e em Aleppo, na Síria.

O fato de Serguey Lavrov ter usado palavras mais duras do que se esperaria em uma delicada negociação diplomática não foi por erro, grosseria ou falta de experiência. Lavrov é um dos mais experientes diplomatas profissionais da Rússia. Está em funções importantes na diplomacia de seu país desde a Glasnost, no final dos anos 1980, com Mikhail Gorbachev. Respeitado por seus pares de países adversários, sempre foi visto como um fiel defensor das ideias do Kremlin. Tem experiência de vida no Ocidente. Foi o embaixador russo nas Nações Unidas, em Nova York, por 14 anos. Sua filha estudou na universidade Columbia. Quando ele fala duro é porque o Kremlin está falando duro.

Lavrov disse em coletiva, após a frustrada conversa com Kuleba, que a Rússia apresentou propostas à Ucrânia e quer uma resposta. Uma de suas frases não deixa muita dúvida, o desejo da Rússia é ter uma "Ucrânia amigável, desmilitarizada e neutra". Não há contradição entre amigável, que diz respeito a um governo alinhado com Moscou, como o de Lukashenko em Belarus, e neutralidade, que diz respeito a ficar fora da OTAN. Para Kuleba, as demandas russas se resumiriam à rendição da Ucrânia. Não houve discussão sobre cessar-fogo, disse Lavrov, o encontro se concentrou em questões humanitárias.

Significa que as portas da diplomacia foram trancadas? Não necessariamente. Mas Lavrov deixou claro que as próximas reuniões de negociação no mais alto nível, de chancelaria ou chefia de estado, terão que ser em torno de uma pauta com ítens concretos e específicos. Indicou que a trilha diplomática preferencial está em Belarus, onde as equipes de negociação se encontraram algumas vezes e acertaram corredores humanitários que permitiram a saída de civis, mas ainda de forma precária e muito arriscada. Mas não foram além disto. Está claro. As condições apresentadas em Belarus são a única via aceita pelo Kremlin. Lavrov anunciou que Putin não recusaria um encontro com Zelensky, desde que fosse para tratar de tópicos substantivos e focalizados em ações específicas. No mais, Lavrov repetiu as versões do Kremlin. Em outras palavras, as portas da diplomacia não estão fechadas, mas só há uma fresta estreita aberta.

Sem sucesso mais rápido pela via diplomática, a guerra continuará com o brutal bombardeio de núcleos urbanos, atingindo indiscriminadamente instalações civis de todo tipo. O custo humanitário vai subir barbaramente. Além da tragédia humana, que se desenrola ao vivo nas telas de todas as mídias, analógicas e digitais, o risco nuclear aumenta. A AIEA, no último boletim, anotou vários pontos de preocupação de seu diretor-geral, Rafael Mariano Grossi. Diz o boletim que, "dia a dia estamos vendo uma piora da situação em Chernobyl, especialmente em relação ao controle de radiação". A agência repetiu o apelo urgente "às forças com o controle efetivo das plantas para respeitar os procedimentos internos de proteção da radiação e facilitar a troca de turnos das equipes de manutenção em segurança".

O boletim ainda registra que a AIEA, nos últimos dias, não tem recebido os dados transmitidos remotamente dos sistemas de segurança instalados para monitorar material nuclear em Chernobyl e, mais preocupante, na usina de Zaporizhzhya. A interrupção abrupta do fluxos desses dados das duas instalações nucleares sob controle das tropas russas, onde "grandes volumes de material nuclear" impede a agência de monitorar a segurança e tomar medidas preventivas. Estes dados "são um importante componente para implementação de nossas salvaguardas na Ucrânia e globalmente”. Segundo Grossi, "esses sistemas estão instalados em várias plantas na Ucrânia, inclusive em todas as usinas nucleares, e nos permite monitorar material nuclear e as atividades nestes locais na ausência de nossos inspetores”. A razão da interrupção da transmissão de dados de salvaguarda não estão claras. A AIEA continua a receber dados das outras três usinas ucranianas.

O operador da usina de Zaporizhzhya informou à IAEA diversas avarias externas e internas à planta. Evidência de danos em um dos "pilares de segurança" que garantem o suprimento externo de eletricidade para as usinas. Esses eventos recentes aumentam a preocupação da agência sobre o impacto do conflito na Ucrânia na segurança, no monitoramento e nas salvaguardas das instalações nucleares do país, incluindo as quatro usinas em operação (Zaporizhzhya, Ucrânia do Sul, Khmelnitsky e Rivine, e o sítio de Chernobyl), e o sítio de Chernobyl). Grossi pediu às lideranças de todos os países envolvidos que ajam imediatamente para que as instalações nucleares fiquem fora de alcance de qualquer operação militar.

A AIEA registrou que, em relação à segurança do lixo atômico (combustível usado) abrigado no sítio de Chernobyl, o volume de água para resfriamento no poço é suficiente para manter o material resfriado, mesmo sem eletricidade. Além disso, tem geradores a diesel e baterias de reserva. Mas a falta de eletricidade provavelmente levará à deterioração adicional da segurança operacional da radiação.

Já os incidentes em Zaporizhzhya apontam para o risco de impactos mais graves, que precisam ser evitados sem demora e sem vacilação. É uma usina em plena operação, com material nuclear "vivo" e, se atingida por um míssil ou bomba de trajetória descontrolada, pode provocar um acidente da proporção do ocorrido em Fukushima, no Japão.

O que fica claro é que, mesmo havendo garantias de parte a parte de que tudo farão para evitar o uso de armas nucleares, a estratégia da Rússia de bombardeios urbanos indiscriminados, aumenta perigosamente o risco de atingir instalações nucleares. Lavrov respondeu à possibilidade de um conflito nuclear com uma frase que permite várias interpretações: “eu não quero acreditar, e eu não credito, que possa começar uma guerra nuclear”. O perigo de incidente nuclear suficiente para produzir efeitos tóxicos em território ucraniano e, além dele, partes da Europa está em elevação. Ele não se resume ao uso de armas nucleares, mesmo de natureza tática, de menor alcance. Está claro que deixar usinas atômicas vulneráveis ao bombardeio, ainda que acidental, também pode causar um incidente nuclear de grandes proporções. Por isso já há vários países europeus elevando o nível de alerta nuclear, que determina ações mais específicas de preparação para evacuação de população de áreas mais vulneráveis e medidas técnicas preventivas.

A melhor chance de avanço nas negociações é por meio da intermediação da China, apoiada por governantes europeus que mantém contato com Putin, como Emmanuel Macron e Olaf Scholz, e a ostensiva concordância do presidente americano, Joe Biden. A pressão chinesa, aliada às sanções econômicas, que atingem a Rússia duramente, afetam a economia global e incomodam a China, poderia levar Putin a aceitar uma negociação com honra. A questão é saber quanto a Ucrânia está disposta e ceder e que condições os países da OTAN estão dispostos a aceitar. Macron e Scholz voltaram a falar com Putin insistindo em um cessar-fogo para iniciar negociações. Os 27 líderes da União Europeia estão reunidos em Versailles, o icônico palácio onde foi assinado o acordo de paz da Primeira Guerra, para discutir o que mais é possível fazer e os efeitos colaterais das sanções contra a Rússia sobre a Europa. A Ucrânia já mostrou que aceita parte importante e, até abusiva, das condições Rússias. O problema é o que pode persuadir um autocrata com mentalidade compulsiva, paranóica e obstinada, a ceder o suficiente para se chegar à paz. Para Putin pode ser uma jornada sem retorno. Mas, até lá, a Ucrânia pode ser arrasada.

Enquanto isto, a Ucrânia continuará só e a sangrar. Putin escalará a brutalidade de seu ataque. A economia global entrará em zona de muita turbulência e volatilidade, podendo descarrilhar.

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