• face
  • twitter
  • in

A Ucrânia está lutando sozinha contra um invasor brutal e militarmente mais forte. As tropas não avançam sobre as principais cidades, embora elas estejam sitiadas. Com as forças invasoras cercando os centros urbanos, a infantaria pesada e as aeronaves bombardeiam impiedosamente aparentemente preparando o terreno para a tomada definitiva das cidades. É resultado da mudança de tática militar da Rússia. É resultado da frustração da expectativa russa em completar seus objetivos em poucos dias? É sim. Mas, é preciso considerar que esta tática é parte integrante da ação militar da Rússia. O uso dos ataques aéreos e do bombardeio da infantaria pesada é para quebrar o moral da população, destruir infra-estrutura das cidades e forçar a evacuação de civis. É o modelo de guerra russo.

O gatilho nuclear voltou à agenda de risco na invasão russa porque deixou a OTAN e seus aliados sem possibilidade de reagir no plano militar. Por outro lado, a posição russa no mercado de petróleo, no momento, levanta muito a barra de custos do embargo das importações do produto. É claro que vai ajudar a acelerar a transição para uma matriz energética livre de fósseis, mas no curto prazo nada há a fazer. Ou importa-se óleo da Rússia, ou aceita-se a redução do abastecimento. As formas de lidar com desabastecimento de combustível têm custo elevado. A elevação do preço nas bombas alimenta a inflação que já está subindo. O estabelecimento de cotas por setores de atividade não reduz o preço e pode se refletir no nível de atividade. 

O presidente Joe Biden anunciou o embargo americano sobre o petróleo russo. Mas, nem todos os seus parceiros europeus na OTAN estão dispostos a acompanhá-lo nesta decisão, pelo menos por enquanto. Boris Johnson avisou ao parlamento que vai apresentar amanhã um plano para abandonar as importações de petróleo russo. O Reino Unido, como os EUA importam relativamente pouco petróleo da Rússia, comparado aos europeus da UE. A União Europeia está ultimando um plano para acelerar a transição para a energia limpa nos próximos 8 anos. Nos EUA, o aumento do preço do diesel e da gasolina podem tornar competitivo o shale oil (óleo de xisto) americano, mas com alto impacto ambiental. Outro caminho, péssimo do ponto de vista ambiental e climático, é voltar a usar carvão. Aí o mundo estaria comprando um futuro de tragédia climática fora de proporções aceitáveis. A única nota positiva neste campo é que a visão do petróleo como um risco geopolítico crescente acelere a transição para a energia limpa e a economia de baixo carbono. Mas isto leva algum tempo para se verificar.

A União Europeia e o Reino Unido vão anunciar um plano para reduzir a importação de óleo e gás da Rússia e acelerar a transição para uma matriz energética limpa. Mas nada muito relevante pode ser feito no curto prazo.

Sem poder escalar as sanções econômico-financeiras de forma mais efetiva no curto prazo — todas as novas sanções são contra oligarcas — a única saída para interromper a guerra é diplomática. Seria uma negociação mediada na qual, pela primeira vez, os Estados Unidos não seriam a principal força. Dos governantes europeus, Macron e Scholz são os que mantém alguma comunicação com Putin, o que os situa em melhor posição para negociar. Mas, os dois interlocutores que podem ser mais efetivos são a China e Israel.

O ministro chinês das relações exteriores, Wang Yi, disse ontem em Pequim que a China está pronta para mediar as negociações para o cessar-fogo. Ele já havia conversado com o ministro ucraniano Dmytro Kuleba e a Ucrânia concordou com a mediação chinesa. O chanceler chinês deixou claro que a parceria entre China e Rússia é sólida como pedra. Isto faz a China um mediador mais aceitável para Putin. A China quer acabar com o conflito na Ucrânia, que atrapalha seus planos estratégicos na Eurásia e dificulta ainda mais suas relações com os Estados Unidos e seus aliados na OTAN.

Xi Jinping, o presidente da China, segundo a imprensa oficial chinesa, mostrou-se incomodado com o conflito e afirmou que a situação na Ucrânia é preocupante. Para ele, a prioridade deveria ser evitar que ela saísse completamente de controle. Em um encontro online com o presidente francês Emmanuel Macron e com o primeiro-ministro alemão, Olaf Scholz, Xi Jinping disse que os três poderiam trabalhar em conjunto para estabelecer conversações de paz, mediando um acordo entre Rússia e Ucrânia. China e Alemanha são dois dos maiores importadores de petróleo russo e a Alemanha é a principal opositora da ideia do embargo de importações russas. Xi usou como argumento para defender a negociação o impacto forte das sanções sobre a economia global.

O primeiro-ministro de Israel Naftali Bennett esteve com Putin no Kremlin e depois telefonou para o presidente ucraniano Volodymyr Zelenski. E já explicou sua conversa com o autocrata russo ao parlamento de Israel. Israel tem a confiança dos Estados Unidos e mantém boas relações com a Rússia, por causa da posição russa no Oriente Médio, principalmente na Síria. A China tem a confiança da Rússia, na limitada medida em que Putin é capaz de confiar em alguém, e tem os ouvidos de Macron e Scholz, pelos menos. Mas já é um interlocutor necessário e poderoso no quadro geopolítico global, o que lhe dá o respeito de todos os envolvidos.

O caminho para uma saída negociada depende da implementação dos corredores humanitários. Como a Rússia forçou a saída para Belarus e para seu próprio território, principalmente dos civis de Sumy e Mariupol, a Ucrânia vê essa oferta com desconfiança. Ao que tudo indica, pelo que pude verificar online, pelo menos o corredor de Sumy está funcionando e estão sendo evacuados estudantes estrangeiros — há perto de mil em Sumy — e civis que aceitam ir para Belarus. Há informações, menos firmes, eu diria, de saída de civis de Mariupol para a Rússia. Não consegui informação confiável sobre os outros corredores. A questão, após o encerramento da retirada dos civis, é o que ocorrerá com eles. De Belarus poderão seguir para a Polônia ou para a Lituânia? No caso dos que forem para a Rússia, poderão is para outros países fora da sua órbita? Serão colocados em campos de refugiados?

Após a oferta russa dos corredores humanitários, houve uma troca ácida de acusações entre os embaixadores da Ucrânia, Sergiy Kyslytsya e da Rússia, Vasily Nebenzya no Conselho de Segurança da ONU. Cada um acusou o outro de desrespeitar o cessar-fogo na primeira tentativa de abrir um corredor humanitário para a retirada de civis de Mariupol, rompendo o cessar-fogo. A Rússia, entretanto garantiu que respeitará o cessar-fogo humanitário em cinco corredores. Mas em todos eles, como as fronteiras de Belarus ou Rússia estão mais próximas deles, a trégua se daria no trajeto para um desses dois países. Embora Belarus tenha sido um hóspede seguro para os negociadores russos e ucranianos se encontrarem, é aliada da Rússia neste conflito. Portanto a questão é saber se os corredores serão respeitados e funcionarão e que destino terão os civis retirados por eles.

Outra notícia que aponta para a possibilidade de uma saída negociada é o possível encontro entre os ministros das relações exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, e da Ucrânia, Dmytro Kuleba. A Rússia reviu suas condições, mas elas continuam pesadas: Ucrânia teria que reconhecer que a Crimeia é parte da Rússia (ela já foi anexada por Putin à força em 2014); reconhecer as duas regiões separatistas como repúblicas independentes como fez a Rússia dias antes de atacar a Ucrânia; e escrever na Constituição a neutralidade da Ucrânia e que não poderá ser parte da OTAN. São exigências abusivas que ferem a soberania ucraniana, mas podem ser o ponto de partida para uma negociação. A Ucrânia terá que fazer concessões duras para não perder integralmente a soberania. Ela combate só, numa posição de defesa e moralmente superior, mas sem grande chance militar.

Se não houver negociação de cessar-fogo a Rússia acabará ocupando Kyiv, num avanço muito destrutivo, tipo terra arrasada e muito sangrento. Ou Kyiv se tornará um teatro brutal no qual a ocupação virará uma batalha de guerrilha urbana. A Ucrânia perde me qualquer situação.

Pin It

Mais recentes

22 Jul 2021
21 Jul 2021
09 Jul 2021
24 Jun 2021
18 Jun 2021
07 Nov 2020
24 Fev 2020
29 Out 2019
20 Ago 2019
24 Out 2017
28 Nov 2016
04 Mar 2016

Mais Artigos

Back to Top