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As negociações retomadas hoje entre Rússia e Ucrânia avançaram apenas na aceitação de corredores humanitários para retirada de civis feridos e envio de suprimentos de socorro. Porta-voz da delegação russa disse que em breve é possível que abram uma rota de evacuação de civis em zonas de perigo. Com relação ao cessar-fogo e condições para fim da agressão, o único ponto positivo é que as conversações continuarão. O porta-voz russo disse que questões importantes que surgiram na negociação dependem de consultas e avaliações que levam tempo. Não podem demorar muito, segundo ele, porque precisamos resolver este conflito com rapidez. A coalizão de países contra a agressão russa à Ucrânia já fez praticamente toda a pressão que podia fazer antes de um engajamento direto de tropas. O fator-chave é o tempo. Quanto mais tempo o conflito durar, maior será o sofrimento humano e menor a capacidade de resistência ucraniana.

Várias ações em curso pela coalizão levam algum tempo para se tornarem efetivas. Parte da pressão no campo econômico-financeiro e do auxílio militar sob a forma de armamentos e munições ainda fará efeitos mais fortes nos próximos dias. Além disso, Estados Unidos e Europa terão que eliminar a dependência energética em relação à Rússia e isto não pode ser feito em curto prazo. Há pressão política nos Estados Unidos por uma moratória nas importações de petróleo. O Senado americano vai discutir este ponto. Caso Biden tenha que fazer isto, o impacto na bomba dos postos será grande. Podem reduzir as importações para debilitar a Rússia economicamente, mas no curto prazo não têm muito o que fazer. Por outro lado, o tempo também conta para que as sanções tenham efeitos cada vez mais negativos sobre a economia dos países da coalizão.

Já não há muito que a coalizão possa fazer. O que estabelece o limite do envolvimento da grande coalizão que se formou em velocidade sem precedentes na Ucrânia é o gatilho nuclear. Um envolvimento direto de forças da OTAN ou qualquer um dos países da coalizão implicaria em uma declaração de guerra à Rússia, uma potência nuclear. É este impedimento que fez Estados Unidos, França e Alemanha recusarem fechar o espaço aéreo da Ucrânia, uma no fly zone (zona de exclusão aérea) sobre a Ucrânia. Hoje, na coletiva de imprensa Jen Psaki, porta-voz da Casa Branca, disse claramente que isto implicaria entrar em guerra contra a Rússia, "exatamente o que queremos evitar". Para fazer isto, precisariam de não apenas patrulhar o espaço aéreo ucraniano com seus caças, como destruir, em solo, instalações de satélite e baterias antiaéreas russas, além de derrubar aeronaves e drones russos que violassem a ordem de não voar sobre o território ucraniano. Isto corresponderia a iniciar uma guerra convencional com a Rússia e, portanto, um enfrentamento entre potências nucleares, o que seria um risco grande demais para ser aceitável pelas potências ocidentais. Mesmo o ataque de caças americanos ou de outros países da OTAN, ainda que pilotados por ucranianos e pintados com as cores da Ucrânia, poderiam ser interpretados como engajamento de terceiros.

Este risco já é alto, no momento, por causa de elevado grau de tensão entre Rússia e a coalizão, pelos efeitos das sanções econômico-financeiras duríssimas e pela elevação do tom nas declarações de parte a parte. A ponto de o porta-voz do Pentágono ter dito, ontem, que os Estados Unidos haviam adiado um teste previaemten agendado de mísseis de longa distância, que podem ser equipados com ogivas nucleares, "para evitar qualquer mal-entendido" e que esperava que os russos tivessem o mesmo cuidado. Exatamente porque um teste interpretado como um ataque dispararia o gatilho nuclear retaliatório e haveria pouquíssimo tempo para evitar uma catástrofe global. Para minimizar este risco, os militares americanos estabeleceram uma linha direta com os russos. A existência deste gatilho, portanto, impede que a coalizão avance muito além do que ela já foi.

Hoje o presidente Zelensky em coletiva à imprensa disse que pediu a vários líderes, Biden, Macron, Scholz entre eles que decidissem sobre o fechamento do espaço aéreo ucraniano, ou dessem aviões para que a própria Ucrânia assumisse o controle de seu espaço aéreo. A resposta que enviar aviões para a Ucrânia seria complicado.

Do lado russo, embora Putin tenha escalado seu discurso e insistido na suposta identidade nacional entre russos e ucranianos, o fato concreto é que seu primeiro movimento que parecia destinado a uma vitória rápida, falhou. Falhou não por causa da resposta econômico-financeira da coalizão, mas porque subestimou a capacidade de resistência dos ucranianos. A resistência ucraniana frustrou a expectativa russa de rápida solução do conflito. Pelo menos no curto prazo a OTAN se fortaleceu, outro efeito colateral com a qual a Rússia não contava.

Não tendo planejado para uma ação de maior duração, a Rússia enfrenta problemas logísticos, principalmente para reabastecer sua artilharia. Precisou ajustar a estratégia, deixar a ação em terra como principal movimento e passou a bombardear duramente cidades ucranianas, enquanto avança mais lentamente e sitia centros urbanos estratégicos como Kherson, já sob seu controle, Chernihiv, Mariupol, Odessa, Kharkiv e Kyiv.

Com a mudança na tática russa, a guerra se tornou mais cruel e sangrenta. Já não se trata mais só de ataques de precisão sobre alvos militares, mas bombardeios aleatórios para quebrar a resistência ucraniana.

A Rússia passou de uma posição em que poderia impor condições diante da expectativa de rápida resolução da agressão, para uma posição difícil e potencialmente mais perigosa de negociar em desvantagem. Daí o recrudescimento dos ataques. Se recuar, Putin perde os argumentos com que tem assediado o povo russo, em dificuldade para ter outras versões, por causa da censura e da derrubada de agências e plataformas russas de notícias. Hoje, em telefonema ao presidente francês, Emmanuel Macron, Putin disse que levará a guerra até o fim, para atingir os objetivos russos. Por isso, Macron informou que o pior ainda está por vir.

Putin agora luta para preservar os objetivos originais que o levaram a invadir a Ucrânia, e evitar que os efeitos crescentes das sanções sobre a população russa e a elite econômica tenham efeitos suficientes para derrubá-lo do poder.

A resistência ucraniana surpreendeu a todos os estrategistas. Mesmo considerando a ajuda ocidental com inteligência, armas e munições, ela tem superado todas as expectativas e cálculos, pricipalmente, quando se leva em consideração que os armamentos ainda não chegaram no volume já comprometido, por razões técnicas, burocráticas e logísticas. Zelensky em sua coletiva hoje pediu maior velocidade e destreza na ajuda que vem recebendo, pela qual ele e o povo estão muito agradecidos.

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