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A invasão da Ucrânia deve ser vista de dois ângulos distintos. Do ângulo moral, não há dúvida. A atitude da Rússia é indesculpável. A invasão e ocupação militar de país soberano é moralmente inaceitável sob qualquer ponto de vista. Putin nunca demonstrou qualquer respeito pela vida humana e não respeitará qualquer barreira moral na sua agressão contra a Ucrânia.

Do ângulo político, é preciso ser realista. A atitude russa tem explicação e cria controvérsias, dependendo da posição política de cada um. Do meu ponto de vista político, a conclusão é bem desagradável e cruel: a Rússia deu um xeque-mate nas potências ocidentais. Putin é um autocrata e tem uma posição política interna muito mais sólida do que todos os governantes ocidentais relevantes que se opõem ao movimento russo. Putin tem popularidade, mantém a oposição sob controle à base de forte repressão, complementada por mentiras digitais, prisões abusivas e assassinatos. Putin tem mais experiência e treino estratégico.

Os governantes ocidentais estão todos em situação política delicada. Olaf Scholz, acaba de chegar ao poder, apoiado em uma coalizão de equilíbrio delicado. Joe Biden enfrenta eleição intermediária que pode deixá-lo em minoria no Congresso e tem baixa popularidade. Boris Johnson está cai-não-cai. Macron disputa uma eleição em busca da reeleição que complicada para ele. É o único que tenta manter uma linha de comunicação com o russo, numa tentativa de alavancar sua posição na eleição francesa e o papel da França na Europa. É improvável que tenha sucesso. Volodymyr Zelensky é um governante por acidente, despreparado e fraco. Pode se transformar em vítima involuntária e herói inesperado.

Infelizmente, a Ucrânia está só. Nem a OTAN, nem os Estados Unidos isoladamente vão intervir militarmente. Os ucranianos sofrerão as piores consequências da invasão. O governo Zelensky está condenado. Ele não tem como sobreviver a esta invasão. Putin, além de um hábil estrategista, é frio, cruel e insensível. Ele não mede consequências para conseguir seus objetivos: mata seus adversários na Rússia, invade vizinhos, como fez na Georgia, na anexação da Crimea e agora na Ucrânia. Este episódio só tem final razoável se for negociado. Mas, já não há como ter um bom final.

Ainda do ponto de vista político, é preciso levar em consideração os erros diplomáticos e estratégicos dos Estados Unidos e da Europa. Há mais de uma década, analistas de estratégia, diplomatas americanos e europeus, especialistas em relações internacionais, especialistas em Rússia vinham alertando que a OTAN precisava respeitar a área de influência russa. Os governos — não importa se republicanos ou democratas, nos EUA; social democratas ou conservadores na Europa — não ouviram esses alertas e sancionaram os avanços da OTAN sobre países na fronteira da Rússia.

Putin vem reclamando do avanço da OTAN sobre sua região geopolítica de interesse, desde que tomou o poder, em 1999. Em 2007, em Munique, no encontro anual sobre política de segurança, ele disse que a OTAN nunca aceitou a realidade geopolítica após o fim do bloco criado pelo Pacto de Varsóvia, que era a contrapartida do bloco soviético à OTAN. Para Putin o Ocidente traiu os compromissos assumidos no fim do Pacto de Varsóvia que garantiam que a OTAN não avançaria sobre as regiões de fronteira da Rússia. Ele disse que a expansão da OTAN representa uma séria provocação que reduzia a confiança nas relações multilaterais. Basta ver o mapa para entender o ponto de Putin. Ele queria manter um cordão de neutralidade entre a Rússia e as potências europeias. A OTAN avançou sobre um de seus flancos, admitindo como membros Letônia, Estônia e Lituânia. Países que, hoje, pedem a intervenção da aliança militar contra a Rússia. O autocrata do Kremlin nunca se conformou com este avanço sobre suas fronteiras. Belarus tem um governo sob influência russa. A Ucrânia é o último território sensível nesta adversariedade entre a Rússia e a OTAN. A Crimea, posição estratégica no Mar Negro foi anexada pela Rússia em 2014. A Georgia, desde a invasão está sob a influência geopolítica russa.

No mundo multipolar cada potência defende sua área de influência e deveria respeitar a área de influência das outras potências. Desde a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, no auge da Guerra Fria, a zona de influência dos Estados Unidos não é seriamente contestada por outra potência. A China não apoia a invasão da Ucrânia, mas concorda com a tese de Putin de respeito às respectivas zonas de influência. O governo chinês tem mostrado irritação ao que vê como desrespeito à sua área de influência no Mar da China pelo Japão, aliado dos Estados Unidos. A China quer uma solução negociada, porque ela implicaria um pacto de não interferência nas respectivas zonas de influência geopolítica.

No quadro multipolar, no qual não há espaço para uma nação hegemônica, o conflito assume duas formas. No plano da região de influência de cada potência, houve o ressurgimento do uso de armas convencionais e ações de guerra regionalizadas e localizadas. No plano global, como não é imaginável o recurso às armas nucleares, o recurso é a ciberguerra, a guerra cibernética, que está sendo usada. Biden se referiu explicitamente a ela em seu pronunciamento. O recurso às guerras convencionais é cruel e perigoso, por isso precisamos de uma séria revisão das instituições multilaterais para que assegurem a multipolaridade, respeitem as zonas de influência e reduzam a frequência de ações de guerra. A ONU e o Conselho de Segurança já mostraram que são inócuos. Um redesenho nesta direção, com salvaguardas mais efetivas comtra ações de agresão unilaterais, poderia talvez gerar um novo equilíbrio da ordem global.

No quadro institucional vigente, em conflito envolvendo potências nucleares, os únicos recursos são a diplomacia, sanções econômicas e retaliações cibernéticas. A diplomacia está emperrada. Sanções econômicas nunca funcionaram e a Rússia tem capacidade de retaliação, no campo da energia e da produção de grãos. A única coisa que se pode esperar é que as nações ocidentais se disponham a negociar e convençam Putin a um cessar-fogo. Mas, é difícil ver como provável uma saída negociada que não contemple uma nova ordem para a Europa que garanta à Rússia a neutralidade dos países da OTAN em sua fronteira e que a Ucrânia não seja incorporada. A situação no momento é de muita incerteza, cheia de “se isso, então aquilo” e de “talvez isso ou aquilo”. De certo, há apenas o domínio político de Putin no plano doméstico, o xeque-mate na Ucrânia e o fato de que os governantes ocidentais decidirão suas ações com um olho em suas aflições internas e outro no tabuleiro europeu.

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