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A ordem multilateral criada em 1945 desmoronou de vez com a invasão da Ucrânia. A ação de Putin é inaceitável, mas tem explicação. O mundo multipolar mantém a dissuasão nuclear, pela qual as potências nucleares não usam seu arsenal, porque as outras podem retaliar, mesmo sendo destruídas. Mas, a manutenção das esferas de influência permitiu a retomada, cada vez mais cruenta, das armas de guerra convencionais. A multipolaridade desregulada como está, sem as limitações de novos tratados que reconheçam as realidades do novo ecossistema global, alimenta guerras regionais. No plano global o que há agora é a ciberguerra, com ataques de tropas de hackers e milícias digitais.

O ataque russo à Ucrânia confirmou os piores cenários e deixou evidente a impotência da ONU e de seu Conselho de Segurança, que já falhou inúmeras vezes na última década. Não há como justificar ou aceitar um ataque militar contra outro país. Mas ele pode ser explicado. Toda a arquitetura multilateral criada em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, vem mostrando falhas estruturais generalizadas. Basta ver a desimportância do FMI nas crises financeiras globais; a incapacidade do Banco Mundial de redefinir seu papel no mundo pós-desenvolvimentista; a paralisia da Organização Mundial do Comércio, que jamais fechou um acordo de relações comerciais compatível com a globalização e não consegue implementar suas decisões arbitrais. Os erros estratégicos da OTAN e sua ineficácia na dissuasão da Rússia no conflito com a Ucrânia.

Não há espaço para resposta militar do Ocidente contra a Rússia, nem sanções suficientes para fazê-lo recuar. Putin preparou a economia russa para um período relativamente longo de bloqueio econômico. Ele vai impor sua vontade na sua esfera de influência. Não haverá resposta da OTAN. Declarações retóricas fortes não têm efeito sequer na política doméstica dos países. Apenas ressaltam a falta de alternativa. Putin escolheu um movimento agressivo e de alto risco, mas coerente com seus movimentos anteriores, como a invasão da Georgia e a anexação da Crimea. O tabuleiro, tal como está hoje, mostra que o desfecho mais provável é o xeque-mate de Putin. Só resta ao Ocidente, se preparar para a próxima partida. Esta está provavelmente perdida.

A ordem multilateral pós-1945 foi desenhada para uma situação bipolar. De duas potências — EUA e URSS — que tiveram papel fundamental na vitória aliada contra Hitler. O desenho era claro. Stalin pode ampliar o poderio russo para toda a sua região de influência, desenhando o mapa da União Soviética. A OTAN sempre foi um problema para a Rússia/URSS. Stalin sentiu-se ameaçado pela criação da OTAN, em 1949, unindo EUA, Canadá e a Europa aliada e formou o bloco oriental com o Pacto de Varsóvia. Vladimir Putin sentiu-se ameaçado com o avanço da OTAN pelas fronteiras da antiga URSS. Alertou os países da OTAN seguidamente. Putin não tem gosto pela diplomacia, que usa de "polidez excessiva, agradável, mas vazia", segundo ele. É um homem de ação. Já mostrou isto ao consolidar seu poder autocrático. Já escrevi várias vezes que Putin, nascido em São Petersburgo, se vê como um czar plebeu. No encontro de Munique, sobre política de segurança, em 2007, ele deixou muito claro o que considerava um acerto multipolar como o único caminho para a ordem e a segurança global. Investiu contra o mundo unipolar, sob a hegemonia dos EUA, e afirmou que a nova ordem devia buscar um equilíbrio entre as várias forças existentes, em um ambiente em mudança.

O problema com a Rússia começa com a incapacidade do Ocidente (leia-se EUA) de aceitar que o novo mundo pós URSS devia ser multipolar. O desrespeito à multipolaridade e suas áreas de influência gera tensões no Mar da China, região destinada a ser esfera de interesse da China. Na Europa, desde os incidentes na Geórgia e na Crimea estava claro que Putin considerava que o Ocidente, via Otan, estava invadindo sua esfera de influência e pondo em rico a segurança da Rússia. A invasão da Georgia, em 2008, tinha ver com isto e, agora, a Ucrânia. Tinha e tem razão nisto. Ele quer um cinturão neutro entre a Rússia e a Europa, daí falar em desmilitarização da Ucrânia. O sistema internacional desmoronou e isto era previsível, dado que todos os sistemas estão vazando água com a transição global em marcha.

Putin já havia sido muito claro, em 2007, em seu pronunciamento no encontro de Munique sobre política de segurança, que acontece anualmente desde 1963. Ele disse que a OTAN nunca aceitou a realidade geopolítica após o fim do bloco criado pelo Pacto de Varsóvia. Para o autocrata russo, o Ocidente traiu os compromissos assumidos com o fim do Pacto de Varsóvia e a dissolução do bloco por ele criado. Para ele havia a garantia de que não seriam fixadas tropas nas regiões fronteiriças e ela foi repetidamente traída pela expansão da OTAN. As fronteiras móveis da OTAN ameaçam a Rússia. Já em 2007, Putin dizia que a expansão da OTAN representava uma séria provocação que reduz a confiança nas relações multilaterais. Foi um erro dos Estados Unidos e da Europa avançar as fronteiras da OTAN. Era evidente que a Rússia veria este avanço como uma agressão à sua área de influência.

Além dessa incapacidade dos EUA e da Europa em lidar com o mundo multipolar, era previsível que a ordem institucional global existente desde 1945 não resistiria às mudanças radicais e velozes trazidas pela digitalização e pela globalização. O mundo está em processo de metamorfose. É uma grande transição, que marcará o século 21 e mudará radicalmente nossas vidas e das gerações por vir. A característica desses tempos é a velocidade espantosa da mudança, sua abrangência global e sua natureza estrutural, atingindo todas as partes do planeta e todas as dimensões da vida. Por isso crescem a incerteza, a insegurança e o medo. Nesse intervalo entre duas eras, uma que se esgota e a outra que emerge, as maneiras como aprendemos a lidar com os desafios da realidade vão perdendo eficácia. A funcionalidade e a eficácia de todo o ferramental de respostas políticas e econômicas estão dando sinais de falhas cada vez maiores. Seria ilusório imaginar que a ordem institucional de 72 anos, que tem se mostrado incapaz de afetar os eventos mais importantes com impacto sobre as relações multilaterais resistisse à mudança. O mundo precisa de um novo acordo de respeito à soberania das nações, sem desconhecer as respetivas esferas de influência regional.

A China que, como a Rússia, deseja maiores garantias sobre sua área de influência, tem adotado posição muito equilibrada, insistindo, todo o tempo, em uma solução negociada. Os chineses sabem que para os russos um acordo só seria admissível com o respeito a essas zonas de influência, que pressupõem a garantia de não-intervenção nelas por outras potências. É o que a China também quer. Com sua atitude, os chineses estão se qualificando para intermediar o desfecho negociado para esta crise.

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