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É comum candidatos a presidente fazerem um tour internacional, encontrar-se com lideranças políticas e dar declarações sobre o país no contexto global. Candidatos americanos fazem isso. Aqui no Brasil, os candidatos mais importantes também fazem pré-campanha ultramar. Por isso, é legítimo tomar como início dapré-campanha as viagens de Jair Bolsonaro aos países árabes do golfo e de Lula à Europa.

A ida de Bolsonaro à Itália para a reunião do G-20, antes da COP26 em Glasgow não tem essa natureza, porque era uma missão de estado e ele foi como chefe de estado de país-membro. Mas, foi um episódio vexatório, que deixou clara a irrelevância internacional de Bolsonaro, seu isolamento falta de traquejo internacional. A solidão do presidente brasileiro numa reunião de presidentes e primeiros-ministros que o conheciam, sabiam quem era e não consideraram sequer uma breve conversa informal durante o coquetel foi inédita. Era um governante sem liderança de um país que ele contribuiu para transformar em pária global.

Todavia, a visita de Bolsonaro aos países do golfo, monarquias hereditárias, ditatoriais, discriminatórias e fósseis, não foi menos vexaminosa. Ele deu declarações estapafúrdias sobre o Enem, mentiu sobre a Amazônia, encantou-se com o desenvolvimento de economias mercantilistas que vivem de comercializar petróleo. Dubai, sem petróleo, está se transformando num hub de negócios e de eventos internacionais, como a Expo Brasil. Mas é um episódio menor na agenda global. Bolsonaro subestimou o desmatamento e disse que a floresta não queima porque é úmida. Criticou o Enem, no qual tem interferido para piorar a qualidade. Bolsonaro não tem  superego, não teme o ridículo, nem passar vexame. Também não tem a menor noção da dimensão do cargo que ocupa, nem do valor do softpower brasileiro que ele tem depreciado e tentado destruir.

Lula foi recebido pelo parlamento europeu, onde fez um discurso mostrando que tem, ao contrário de Bolsonaro, noção da importância que o Brasil teve e pode voltar a ter. Centrou seu discurso na ameaça climática e na necessidade de combatê-la com mais ambição. Mostrou como a ação climática global deve estar conectada ao combate à pobreza. Agradou e foi muito aplaudido. De Bruxelas, deslocou-se para a França, onde falou na Sciences Po, recebeu prêmio por seu papel na luta contra a desigualdade, encontrou-se com o presidente Emmanuel Macron, que o recebeu no Elysée de forma amigável e como se Lula fosse um chefe de estado. Ficaram mais de uma hora em conversa marcada para ser de 30 minutos. O Elysée definiu o encontro como "caloroso e de alto nível". Em seguida, almoçou com Anne Hidalgo, prefeita de Paris.

Antes de Bruxelas, teve encontro, na Alemanha, com os líderes da social-democracia que está para assumir o poder no lugar de Angela Merkel. Ainda vai se encontrar com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Ele se move no teatro global com desenvoltura, é respeitado e conversa em igualdade de condições com todos os governantes, como uma verdadeira liderança global.

A comparação é desastrosa para Bolsonaro, que não tem bom desempenho nas reuniões com as potências globais. Lula mostrou que é presença relevante no plano global. Bolsonaro, não é. O que Lula diz tem a ver com a agenda geopolítica global. Bolsonaro fala absurdos que seriam risíveis, se não fossem trágicos para o país. Lula está em visita a países democráticos, que estão na vanguarda da política global do clima, em contato com lideranças democráticas das potências globais. Bolsonaro anda por países monárquicos ditatoriais, misóginos e fósseis, que dificultam as negociações sobre o clima.

Lula não é sem defeitos, mas Bolsonaro é só defeitos. Os governos do PT cometeram erros, alguns deles graves, como Belo Monte, uma hidrelétrica quase inservível, que causou enormes danos à região amazônica, às comunidades ribeirinhas e aos povos indígenas do Xingu. Outro
grave erro foi permitir a corrupção e não reconhecer que esse desvio de conduta pública de fato aconteceu e não propor formas para evitar que se repita.

Bolsonaro foi o condutor da necropolítica de omissão e ação criminosa na pandemia. Aliou-se à ilegalidade na Amazônia, incentivando a grilagem de terras, a garimpagem ilegal e danosa e a invasão criminosa de terras indígenas. Essa política de terra arrasada na Amazônia deixou povos originários em perigosa posição vulnerável e de abandono, como ocorre no momento com os Yanomami.

Enquanto Bolsonaro mentia sobre a Amazônia, Lula reconhecia a necessidade de zerar o desmatamento. Disse que sabia como fazer, porque fez. De fato, nas gestões de Marina Silva e de seu sucessor, Carlos Minc,no governo do petista, o desmatamento caiu ao menor nível da história. Mas voltou a crescer no governo Dilma, não, porém, com a velocidade com que cresceu nos governos Temer e Bolsonaro. Lula mostrou que está na mesma direção que o restante do mundo. Bolsonaro seguiu na contramão.

Em suma, se era para mostrar capacidade de liderança internacional, bom relacionamento com os principais governantes do mundo e sintonia com a agenda global, Lula mostrou que tem e Bolsonaro que não tem.

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