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"O fim do mundo aparece e não o vemos". (Gonçalo Tavares, Diário da Peste, 18 de junho, em Expresso, 19 de junho de 2020)

Os ficcionistas são mais capazes de captar o espírito do tempo e o significado íntimo da contemporaneidade do que os ensaístas e analistas acadêmicos. Sentir com a alma, antes de filtrar com a razão, lhes dá esta vantagem suprema. Já escrevi isto em mais de um de meus ensaios, nos quais sempre recorri aos ficcionistas para elucidar, sem medo de errar, questões ainda obscuras ao microscópio analítico.

Gonçalo Tavares viu o século XXI partido em dois. A primeira parte foi enterrada com os mortos da pandemia. A segunda parte, começa com o fim da doença. "Ritos de entrada e de saída. Aprender rituais de saída da primeira parte de um século. A parte de um século que está encerrada", escreveu no Expresso, no dia 8 de maio de 2020. Com ideias cheias do brilho da compreensão e da aflição do desconhecido no jornal português, foi compondo seu “diário da peste” aos bocados nas páginas do jornal. Sai agora em livro, não é ficção, mas é resultado do olhar do ficionista. Os muros absurdos das fronteiras editoriais do mundo lusófono farão com que nós, leitores brasileiros, tenhamos que esperar alguma editora se dispor a publicá-lo por aqui. Não há de tardar.

A pandemia, de fato, encerrou ciclos na economia, na sociedade e na politica. Cortou processos que vinham amadurecendo ao longo da última década do século pré-pandemia. Uma delas foi o desencanto com a democracia que levou a extrema direita ao governo de países como a Hungria, a Polônia e a Turquia, na Europa, Estados Unidos e Brasil, nas Américas. Estes foram apenas alguns dos candidatos a autocrata espalhados por várias partes. O sinal de alerta para as democracias ocidentais soou com a eleição de Donald Trump e o crescimento, que chegou a parecer avassalador, do UKIP nas ondas da Brexit, no Reino Unido, do AfD, na Alemanha e da Lega, de Matteo Salvini, na Itália.

Trump foi derrotado por seu negacionismo, misturado ao racismo e embrulhado na política do ódio, na segunda parte do século dividido pelo vírus. Continuou a vociferar, enquanto os americanos enterravam suas centenas de milhares de mortos. Seu principal imitador, Bolsonaro, fez o mesmo por aqui. As pesquisas indicam que terá o mesmo destino de sua matriz. E ele fará como seu emulador e negará a validade das eleições. Se chegar a disputá-las.

Boris Johnson teve seu negacionismo interrompido pela internação, chegando a frequentar a UTI do NHS, o serviço público de saúde britânico, que seu partido quis privatizar. Ao sair das portas do Hades, reconheceu que o NHS havia lhe salvado a vida. Deu uma guinada, adotou o lockdown, defendeu o uso de máscara e a vacinação em massa. Conseguiu equilibrar-se no cargo.

Na Alemanha, o AfD e os neonazistas não conseguiram avançar nas eleições do século pós-pandemia. Os sinais da virada já haviam aparecido na Itália, onde Salvini que parecia às portas do Palácio Chigi, a sede do governo, elevado a primeiro-ministro. Súbito, sumiu de cena. Na Áustria, a extrema-direita começou a ser derrotada na parte antes da pandemia.

O resgate da saúde pública e a constatação do risco que representa para todos um extremista no comando durante uma peste fizeram o seu trabalho. Esperança e medo derrotaram aqueles que subiram mentindo, usando o medo e espalhando esperanças vãs. Eles só destroem e nada têm a pôr no lugar porque vivem numa ilha imaginária, localizada em passado nulo, pois nunca existiu.

Aconteceu de novo na Alemanha, com a vitória dos social-democratas. O reconhecimento a Merkel por serviços prestados manteve seu partido em segundo lugar, na liderança de uma oposição que compete, mas não transforma o adversário em inimigo. Ao contrário, eram aliados no século antes da pandemia. Mas o partido teve a pior votação na era Merkel. Em terceiro lugar, ficaram os Verdes, sinais dos tempos, e se tornaram os “kingmakers”. Sem eles não pode haver governo viável, exceto se o SDP e a CDU/CSU de Merkel decidissem reeditar a grande coalizão, do governo recém-encerrado. Não acontecerá. Em quarto, ficou o FDP, liberal. A extrema direita conseguiu manter-se no parlamento, mas não terá nem mesmo papel coadjuvante secundário, pelo menos no primeiro ciclo de governos na era pós-Merkel. Não estará na coalizão de oposição, nem próximo ao governo.

A austeridade como imposição do capital financeiro globalizado, hegemônico ficou obsoleta. Todos gastaram o que foi necessário. A dívida de todos cresceu. Ganhou dominância a prioridade de fortalecer e ampliar os sistemas de saúde pública, assistência médica e seguro saúde estatal. O dilema educacional deixou clara a necessidade de investir mais e repensar a educação, para recuperar o que se perdeu na pandemia e para preparar os jovens para a segunda metade do século. Todos esperam que seja uma nova metade, realmente um novo século — ou uma nova era — no século XXI.

Da Alemanha nos chega uma lição cristalina de como formar uma coalizão, sem troca de favores discutíveis, sem distribuição de cargos imerecidos ou verbas públicas que estariam melhor nas mãos de quem delas realmente precisa. Os social-democratas, como primeira minoria, conquistaram o direito de negociar um governo de coalizão. Tiveram sucesso. O líder social-democrata, na iminência de ser tornar Chanceler, Olaf Scholz, anunciou o acordo prévio, ou acordo de intenções, ao lado de Annalena Baerbock, co-líder dos Verdes, e de Christian Lindner, líder dos liberais do FDP.

Como funcionou o acordo, que levou a uma espécie de memorando de intenções, com 12 pontos? O SDP, líder da coalizão é o partido que concede pontos de programa para obter a aquiescência dos partidos que deseja trazer para sua coalizão. Os Verdes, como principais kingmakers, apresentaram a condição imperativa para participar: aumentar significativamente a ambição da política de redução de emissões de gases estufa. O programa do SDP, deveria ser substituído nesse capítulo, pela proposta negociada sob liderança dos verdes. O SDP e os liberais aceitaram e o centro da coalizão será a mudança climática, uma demanda, hoje, da sociedade Alemã. Isto implicará em direcionar a maior parte dos investimentos e incentivos para a construção da infraestrutura que viabilize o programa. O fim do uso de carvão será antecipado em oito anos e a meta para interromper o licenciamento de veículos a combustível fóssil também será antecipada.

Mas o FDP, também teve direito a dizer sua condição de entrada. Aprova tudo, mas não abre mão do teto de crescimento da dívida pública em 0,35% do PIB ao ano e não aceita aumento de impostos. O FDP e os Verdes, aceitaram acomodar as prioridades sob o teto, como desejam os liberais. É uma questão de escolhas no orçamento. Annalena Baerbock disse que será uma "coalizão do progresso". Scholz considera que será "um novo começo" para a Alemanha. A ideia é que a nova política com prioridade ambiental leve a uma onda de inovações no país. O líder liberal, Christian Lindner disse que é uma oportunidade de unir o país e que a soma será maior do que as partes.

Agora tem início um período de delicadas negociações para detalhamento do memorando de intenções, transformando seus 12 pontos em um efetivo programa de governo. A rapidez com que alcançaram o acordo incial, após apenas uma semana de conversas que, em geral, demoravam meses, é um bom indicador de que se formará a coalizão.

Assim se negocia uma legítima coalizão de governo.

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