• face
  • twitter
  • in

Foram mil dias de desassossego. Como disse Bolsonaro, embora com outras intenções é preciso dizer, nada é tão ruim, que não possa piorar. A frase pode ser tomada como a síntese de um governo agressivo, ofensivo, desrespeitoso das pessoas e das leis.

Bolsonaro transformou o ministério da Educação num depósito de nulidades. Eles paralisaram e distorceram o processo de avanço educacional, desorganizaram os planos e a avaliação da pós-graduação e deixaram as universidades à míngua. Atrapalharam os processos de avaliação e deixaram o sistema educacional nacional desorientado.

O desgoverno desarrumou todo o arcabouço de promoção da ciência e do desenvolvimento tecnológico, no momento mesmo em que estamos em plena era do conhecimento. Atrasou irremediavelmente a entrada do país no 5G, em plena era da sociedade digital. Como resultado, não poderemos participar como agentes ativos do amplo processo de inovação que o 5G vai deflagrar.

Na pandemia, Bolsonaro estimulou o negacionismo e a mentira, prescreveu tratamentos que a ciência diz que são ineficazes e perigosos, sabotou o quanto pôde o acesso à vacina, deixou os testes de Covid mofarem nos porões do ministério. Defendeu a criminosa imunidade de rebanho como forma de conter a doença, primeiro ostensivamente, depois, sob ameaça da Justiça, veladamente. Recusou-se a assumir a responsabilidade da União definida pela Constituição Federal, deixando o país sem coordenação no enfrentamento da pior pandemia da história. Bolsonaro abriu frentes de conflito com estados e municípios, em lugar de patrocinar ações solidárias em favor da saúde coletiva.

Sob seu comando, o governo desorganizou a economia, por erros e omissões, em parte por incompetência da política econômica, em parte por sua desastrosa gestão da saúde na pandemia. Apesar de ter o apoio do mercado financeiro, gerou incerteza e instabilidade, resultando no câmbio excessivamente desvalorizado, em inflação e recessão. O governo não soube administrar a crise hídrica e de energia, recusando-se a agir preventivamente e negando a realidade evidente. Levou o país à beira do colapso do sistema, do apagão.

Bolsonaro e seu indigitado ex-ministro Ricardo Salles, desmontaram o ministério do Meio Ambiente e abriram a porteira para desmatadores, grileiros e garimpeiros agirem livremente, incentivando a destruição da Amazônia e do Cerrado, incluindo-se o pantanal que faz fronteira entre os dois biomas. Não bastasse tudo isso, cogita de desproteger o que resta de Mata Atlântica. Com seu negacionismo climático, tirou o país da liderança na discussão da política global do clima e da proteção da biodiversidade. Anulou a política indigenista e desmontou a Funai, abandonando a política de proteção das populações indígenas, expondo-as ao risco de extinção.

Quase destroi a diplomacia brasileira profissional, das mais respeitadas do mundo. A trôpega política externa do ex-ministro Ernesto Araújo, com pleno apoio de Bolsonaro, depreciou o papel do Brasil como potência média, potência florestal e nação que conquistou a liderança como um soft power, sem poderio econômico e militar, mas com riqueza natural valiosa, influência político-cultural e liderança pelo prestígio e competência da diplomacia profissonal na solução de impasses.

Bolsonaro transformou o sistema cultural em uma máquina de destruição da cultura, obscuranstismo, propagação de racismo, perseguição política, paralisando a produção cultural. O setor passou a fazer censura ideológica abertamente. A Fundação Palmares adotou política negacionista em relação ao racismo e passou a perseguir personagens notáveis da cultura e do movimento negro. O uso de um negro racista para executar essa política adicionou uma dose bruta de crueldade ao processo.

Na política, Bolsonaro recusou a lógica necessidade de uma coalizão. Apesar de quase 30 anos de mandato parlamentar, cometeu o erro primário de imaginar que poderia governar com o apoio das bancadas evangélica, ruralista e da bala. Fracassou como esperado. Ao longo dessa trajetória de fracassos, criou conflitos paralisantes com o Legislativo. Ameaçado de processos na justiça, buscou uma coalizão tardiamente, encontrando apoio no centrão. Sua coalizão, porém, é minoritária e instável. Ao longo desses mil dias confrontou os poderes Legislativo e Judiciário, promoveu manifestações de rua contra os poderes da República, em favor do golpe militar e de atos de exceção como o famigerado AI-5. A postura de Bolsonaro tem sido sistematicamente golpista e de afrontou à Constituição. Ele ameaçou intervir no processo eleitoral, tentou deslegitimar o voto, as urnas eletrônicas e o TSE. Desde a posse, alimentou uma crise política, com sua atitude geral de confrontação e desrespeito.

Escrevo os verbos no passado, porque tratava dos últimos 1000 dias de desassossego, desgoverno e crise. Nada indica, todavia, que será melhor até o final do governo. Bolsonaro, em alusão aos 1000 dias de governo, disse que a crise econômica não foi culpa dele, mas da pandemia. Mas ao dizer isso, quer indicar que foi por causa da maneira como governadores e prefeitos enfrentaram a pandemia. Disse que não é contra a vacina, mas contra sua obrigatoriedade, porque defende a liberdade e há muita dúvida ainda sobre as vacinas. Em suma, comemorou os 1000 dias de desgoverno, que mais parecem cem anos de retrocesso, mentindo.

Pin It

Mais recentes

22 Jul 2021
21 Jul 2021
09 Jul 2021
24 Jun 2021
18 Jun 2021
07 Nov 2020
24 Fev 2020
29 Out 2019
20 Ago 2019
24 Out 2017
28 Nov 2016
04 Mar 2016

Mais Artigos

Back to Top