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A ideia de terceira via em política surgiu como uma soma de três componentes fundamentais: compromisso inarredável com a democracia, agenda econômica atualizada e dinâmica, agenda social progressista. Era uma versão alternativa à nova esquerda, mais liberal na economia, com uma proposta programática no campo democrático e mais à esquerda na agenda social. Demarcava um espaço de centro-esquerda, ainda no âmbito da social democracia. É bem verdade, que muitas das lideranças que estiveram à frente dessa iniciativa, deslocaram-se para a centro-direita cedendo às pressões do mercado financeiro global.

O que se vem chamando de terceira via no Brasil, nada tem a ver com essa proposta. Primeiro, porque se define por negação: "nem Lula, nem Bolsonaro", o que não lhe confere qualquer identidade programática. É uma proposta que nega e pouco afirma. Ciro Gomes não se enquadra, obviamente, neste grupo. Segundo, porque praticamente todos os nomes especulados — até agora sem sucesso — para encarná-la são de direita ou centro-direita. Todos já se mostraram identificados com agendas conservadoras no campo social e, em alguns casos, com pautas reacionárias. Terceiro, vários deles são egressos do bolsonarismo e, certamente, apostam contar com o voto de bolsonaristas caso Bolsonaro não estivesse no segundo turno. Uma espécie de bolsonarismo sem Bolsonaro.

Existe espaço eleitoral, representado por eleitores que ainda não escolheram entre Lula e Bolsonaro. Mas, isto não quer dizer que concordem com a pauta desses candidatos que se apresentam como "nem-nem". Até porque, se houvesse identidade com essa proposta "nem-nem" da centro-direita, esses nomes apareceriam com mais intenções preliminares de votonas pesquisas do que aparecem.

Os eleitores disponíveis são relutantes em relação ao voto ou mais céticos em relação aos nomes apresentados. Precisam ser convencidos. Mas não se convencerão por um ataque aos dois polos, como se fossem equivalentes. Muitos se beneficiaram, direta ou indiretamente, com as políticas de Lula e muitos perderam, direta ou indiretamente com as ações de Bolsonaro.

É o que tenho tentado argumentar, quando digo que há espaço eleitoral entre Lula e Bolsonaro. Mas, a maneira pela qual explicitam a opção "nem Lula, nem Bolsonaro", cria uma identidade falsa entre os dois. É como se Lula fosse o equivalente a Bolsonaro pela esquerda. Não é. Lula governou o país por oito anos e não se pode comparar sua gestão com o desgoverno de Bolsonaro. Também não há equivalência entre os abusos e absurdos, as ofensas, ilegalidades e absoluta falta de solidariedade social de Bolsonaro e o desempenho de Lula como presidente. Bolsonaro deixará um legado trágico. Lula deixou um legado de políticas sociais de qualidade, cujo principal exemplo é o bolsa família. Bolsonaro transformou o Brasil em pária global, Lula tinha liderança no plano internacional. Bolsonaro é um extremista. Lula não é, sempre se mostrou um negociador pragmático.

Lula manteve seu governo no campo democrático, apesar de pressões para afastar-se das boas práticas democráticas, principalmente ao tentar regular a grande imprensa de forma restritiva e punitiva. Bolsonaro faz pior, tenta assegurar a possibilidade de disseminação de desinformação, mentiras e infâmias, muitas delas lesivas à integridade das pessoas e à saúde coletiva. O comportamento ofensivo, mentiroso e difamatório é parte central da prática política de Bolsonaro. Ele próprio usa cotidianamente essas práticas como método de governo e atitude pessoal. O PT tem setores intolerantes e agressivos que também ofendem e difamam quem se opõe a ele, mas não estão na liderança política do partido. Entre intelectuais e figuras sociais do PT há ainda muitos que agridem e desqualificam opositores e críticos, como se sua anulação abrissse caminhos. Ao contrário, fecha portas ao entendimento democrático, tão necessário no momento. Mas, felizmente, não são as figuras mais importantes nas decisões de seu campo. A maioria absoluta das lideranças do PT, incluído o próprio Lula, pode haver uma ou outra exceção, não adota essas práticas. Os parlamentares, governadores e prefeitos do PT caminharam, na grande maioria, para o campo da cordialidade e da convivência democrática, ainda que se mantendo combativos e ativos na luta política.

Não faz sentido, nem terá credibilidade, construir uma alternativa política baseada na falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro. Uma terceira via, só faria sentido, com um programa claro, voltado para a construção de uma sociedade pós-pandemia, oferecendo uma alternativa à polarização, comprometida com um sistema público de saúde avançado, um sistema educacional público digitalizado e voltado para as necessidades emergentes do século 21, uma política fiscal responsável que não siga a ortodoxia extremista do mercado financeiro globalizado. Em suma, uma alternativa programática, progressista, realista, que permitisse despolarizar a política e reconstruir o caminho para a convivência democrática entre discordantes no campo democrático. Uma liderança que viabilizasse uma grande frente democrática e renovadora, ainda que apenas no segundo turno.

É claro que o próprio Lula pode caminhar nessa direção revendo o programa tradicional do partido, desligando o espelho retrovisor e combinando uma visão aberta do presente a um zoom ligado no futuro. Há pensadores no PT que têm consciência disso e boas ideias a respeito. Se Lula ouvi-los avança muito nessa direção.

Não creio que seja possível qualquer mudança positiva na extrema-direita bolsonarista. Bolsonaro é cabeça-dura, autoritário, inarredavelmente convencido de suas ideias que formou com base em preconceitos, fantasias conspiratórias, reacionarismo e ódio político.

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