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O presidencialismo de coalizão não é um ecossistema propício para mudanças tardias de ministério que buscam fortalecer presidentes politicamente fracos. Bolsonaro já mostrou que, embora sempre tenha feito parte do centrão, jamais deixou de ser um "backbencher", um parlamentar irrelevante. Nunca jogou o jogo do poder buscando precedência na formação de coalizões de governo. Jamais foi integrante ativo de qualquer coalizão.

Ao assumir o governo, rejeitou a ideia de fazer alianças políticas com o objetivo de chegar a uma coalizão majoritária negociada. Imaginou que seria possível governar com as bancadas da Bíblia, da bala e do boi. Nunca foi uma opção viável. Pensou, como bom demagogo com tinturas de populismo, que poderia governar "com as massas" que o elegeram, a quem chama de povo. Mas, Bolsonaro confundiu a massa com um povo. A massa difusa forma uma nuvem que rápido se dissipa. Seu eleitorado era passageiro. Povo é este que agora o rejeita. Jamais entendeu que foi eleito de forma incidental e que não tem a força que gostaria de ter. O centrão entende perfeitamente a diferença entre uma eleição ao azar e uma vitória eleitoral construída por persuasão, escolha e mobilização política. É a diferença entre ele e Lula. Daí boa parte do centrão não estar com ele, nem acreditar numa coalizão.

Ciro Nogueira (Progressistas-PI) foi para o Gabinete Civil não para lhe dar a maioria, coisa que não conseguiria, mas para aproveitar-se pragmaticamente do poder e do controle sobre políticas públicas. É, em boa medida, um voo solo. Ele já mostrou isso, ao dizer que assinou o manifesto dos partidos contra o voto impresso porque era presidente do partido que se opunha à ideia de Bolsonaro. Não é a opinião pessoal dele. Pois é isso, ir para o governo foi uma decisão pessoal, acertada com uma facção do partido, não foi uma escolha partidária.

O problema central é que Ciro Nogueira entra no ministério como símbolo de uma reforma ministerial em busca de acomodar políticos no governo, em atendimento a demandas dos partidos. Mas, não é uma reforma. Não passa de um remanejamento de peões para acomodar um cavalo, que pode ser de Troia. Onyx Lorenzoni (Dem-RS), é outro ex-parlamentar sem brilho e que não representa seu partido, nem mesmo uma facção dele. Não tem por função ser efetivo em nenhuma posição. Cabe-lhe só ocupar um espaço até o rei precisar dele. Idem para o general Ramos, que sacrificou o restante de carreira em atividade, para ficar em um navio náufrago. A única virtude do general é sua lealdade ao chefe. Por isso, foi removido da Casa Civil sem aviso prévio. Engoliu a insatifação para aceitar o cargo de Onyx, de Secretário Geral da Presidência, sabe-se lá a que se destina este posto. Provavelmente nada mais que outro espaço de passagem.

No presidencialismo de coalizão brasileiro não há como trocar alianças no ambiente fragmentado do sistema partidário representado no Congresso. Quando há partidos com bancadas fortes o suficiente para atuarem como pivôs, não sobram outros pivôs. Como eles são a chave da maioria, se a coalizão em crise já tem seu pivô, não há outro para pôr em seu lugar. No caso de Bolsonaro, o desalinhamento partidário da eleição atípica que o elegeu, produziu uma fragmentação tão elevada que todos os partidos ficaram entre médios e pequenos. Não há partidos-pivô. Pior ainda, o maior partido do campo que poderia ancorar precariamente uma coalizão de governo, o PSL, foi partido que ele rejeitou após usá-lo como legenda para disputar as presidenciais.

Quando há um partido-pivô, como foram o PFL na coalizão de Fernando Henrique e o PMDB, no governo Lula, a reforma ministerial implicaria, sempre, em fazer mais concessões ao partido-pivô e mudar a coalizão na franja de partidos que ajudam a compor a maioria, trocando uns por outros, ou abrigando mais partidos, às custas de reduzir o espaço daqueles que esstavam na coalizão original. O resultado é sempre maior heterogeneidade e mais conflito na coalizão, aumentando significativamente o custo fiscal da coalizão, como mostrei no livro Presidencialismo de coalizão: raízes e evolução do modelo político brasileiro (Companhia das Letras, 2018). As mudanças não melhoram as condições de governabilidade, nem fortalecem o presidente em processo de inexorável enfraquecimento político. Lula, enfraquecido pelo mensalão, se fortaleceu indo para a rua, em campanha, e reconstruindo o apoio popular e a popularidade, os trunfos com os quais ele pôde manter a fidelidade dos partidos em sua coalizão e se reeleger.

Nos regimes multipartidários de coalizão, presidencialistas ou parlamentaristas, com fragmentação partidária média para baixa e partidos programáticos, é possível trocar alianças ao centro. Em geral, há espaço para algum deslocamento programático ou ideológico, abrindo mão, por exemplo, de um pivô de centro-esquerda por um pivô de centro-direita. Muda a composição programática ou ideológica da coalizão e mudam as políticas de governo que correspondam a esta inflexão. Neste caso, pode haver melhora nas condições de governabilidade e maior estabilidade política. No caso de um sistema partidário hiperfragmentado e com pouquíssimos — se houver algum — partidos programáticos, não há como fazer essa troca de alianças ao centro e recompor a maioria com outra conformação programática. Troca-se seis por meia dúzia e se obtém apenas mais do mesmo: mais demandas e desgostos de natureza puramente fisiológica.

Em poucas palavras, a mudança ministerial terá um custo alto a vista alto e um preço ainda maior a prazo. Ela vai produzir mais demandas por recursos, muito além do fundão eleitoral, que a equipe econômica terá que engolir. Já começou a coleta para a campanha do ano que vem, que precisa se materializar em obras para inaugurar, asfalto, cimento e, evidentemente, cargos e dinheiro público livre. Os outros partidos também vão querer pedaços do governo. Várias demandas serão atendidas pelo fiel Onyx, no recriado ministério do Emprego, que vai gerar muito mais emprego público do que vagas para reduzir o desemprego do povo. Ele terá muitos postos para preencher. Não será uma pasta com estrutura técnica como quer Paulo Guedes, mas uma pasta com nomeados politicamente, principalmente nas estruturas nos estados, como as delegacias do trabalho e da previdência. Fora os fundos, FGTS, FAT e que tais. Lorenzoni não tem capacidade para manejar isso tudo tecnicamente. Não vai fazer muito mais do que repassar as benesses que o chefe mandar.

Há, ainda, um agravante no caso específico. Bolsonaro tem uma mentalidade autoritária. É um peão que quer ser rei. Como se sabe, isto não é possível nem no xadrez, nem na política. Detesta ser contrariado. Tem bom relacionamento com Nogueira, até o curto limite de sua vontade. Se for contrariado, reage muito mal e acaba sacrificando o cavalo em troca de nada.

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