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Não se pode minimizar a gravidade do fato revelado por Andreza Matais e Vera Rosa no Estadão de que o general Braga Neto, ministro da Defesa, acompanhado pelos comandantes militares, mandou um recado intimidatório ao presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), dizendo que “ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”.

Braga Neto desmentiu. Mas, na nota que leu em evento no Ministério de Defesa, confirmou a defesa do "voto impresso e auditável", desmentindo o desmentido. O que ele disse:

"Acredito que todo cidadão deseja a maior transparência e legitimidade no processo de escolha de seus representantes no Executivo e no Legislativo em todas as instâncias. A discussão sobre o voto eletrônico auditável por meio de comprovante impresso é legítima, defendida pelo Governo Federal, e está sendo analisada pelo Parlamento brasileiro, a quem compete decidir sobre o tema."

Arthur Lira no Twitter, porém, em que pretendia aparentemente registrar a negação do fato, desconversou:

"A despeito do que sai ou não na imprensa, o fato é: o brasileiro quer vacina, quer trabalho e vai julgar seus representantes em outubro do ano que vem através do voto popular, secreto e soberano."

Segundo relatos, ele teria, todavia, mostrado grande preocupação com o que definiu como um momento gravíssimo, em conversa com interlocutores. Aos jornalistas, entretanto, negou que tenha recebido o ultimato militar. No Twitter, como se viu, tangenciou a questão.

O ministro Luís Roberto Barroso, presidente do TSE, também sse manifestou no Twitter:

"Conversei com o Ministro da Defesa e com o Presidente da Câmara e ambos desmentiram, enfaticamente, qualquer episódio de ameaça às eleições. Temos uma Constituição em vigor, instituições funcionando, imprensa livre e sociedade consciente e mobilizada em favor da democracia."

É pouco provável que jornalistas experientes como Andreza Matais e Vera Rosa inventassem uma história como essa. O Diretor de Jornalismo do Grupo Estado, manteve o teor da matéria, rejeitando, com firmeza, os desmentidos.

O que houve foi um gravíssimo ultimato golpista para que se altere o método de votação e se adote um híbrido de voto eletrônico com voto impresso, muito mais sujeito a fraudes do que o método atual. A teimosa reiteração do pedido de um "voto auditável" contém uma mentira e uma senha golpista.

A mentira está na ideia de que o voto eletrônico não é auditável e já teria sido fraudado. É o método de votação que mais garante a inviolabilidade do voto. Ele é auditável, ao contrário do que sugere a fórmula bolsonarista repetida por Braga Neto. Nunca se confirmou qualquer fraude ou tentativa de fraude no voto eletrônico. Braga Neto, em sua nota fala, ainda, em "transparência e legitimidade no processo de escolha de seus representantes". Ora, o processo é transparente e legítimo e é por causa dele que ele e seu chefe estão onde estão.

O voto impresso é que é vulnerável a fraudes e a práticas ilegítimas. Ele permite, por exemplo, ao comprador de votos ter certeza de que os eleitores que rceberam algo por seu voto cumpriram a promessa. Dá aos milicianos uma forma de ter recibo pelo voto que impuseram aos moradores de comunidades por eles dominadas. Além de permitir a Bolsonaro montar uma farsa para contestar sua derrota eleitoral, muito provável hoje.

Bolsonaro precisa do voto impresso para fazer o que Trump fez ao perder a eleição: alegar fraude e forçar recontagens morosas para, ao final, diante da ausência de qualquer fraude, tentar forçar o Congresso a invalidar a eleição. Incitou seus militantes da ultradireita supremacista a invadirem o Capitólio, sede do Congresso. Foi uma tentativa abortada de golpe, segundo vários analistas respeitáveis da política americana. Keiko Fujimori também pediu recontagem por suspeitas de fraude no Peru. A Justiça Eleitoral não encontrou as fraudes denunciadas. Mas, ao contrário de Trump, ela aceitou a decisão que reconheceu a vitória de Pedro Castillo.

O Brasil vive o momento mais delicado para a institucionalidade democrática, desde a redemocratização. Há uma ameaça golpista no ar e ela se avoluma. Pela primeira vez, na Terceira República, inaugurada em 1988, sucedem-se os pronunciamentos políticos dos comandantes militares.

Bolsonaro conseguiu cooptar uma penca de generais e, ao ser reforçado por eles, tem buscado pretexto para desfechar um golpe. Diante do cenário eleitoral que se anuncia, ele só conseguiria ficar no poder por esta via.

Politicamente enfraquecido, ele rasga a fantasia antipolítica a que usou na campanha. Ao nomear o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI) para Ministro-Chefe do Gabinete Civil, ele leva o centrão para o Palácio do Planalto, na busca de blindagem no Congresso e, de quebra, de abrigo na legenda para buscar a reeleição. Ao mesmo tempo em que se rende inteiramente ao centrão, à mais velha política, retorna àquilo que sempre foi. Bolsonaro acabou dizendo, "eu sou o centrão". Pois é, muitos analistas vinham dizendo isso desde o começo. O partido que o abrigou por 11 anos, quando deputado, foi exatamente o PP, hoje Progressistas que agora ele corteja, dando a seu presidente o Gabinete Civil. Uma legenda que já começa a enganar no nome, pois não há no velho PP sequer um progressista.

Bolsonaro está jogando suas últimas cartas e ameaça com os militares como seu coringa. Na verdade, o que nos está sendo dito é "ou ganha as eleições", ou fica no poder na marra.

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