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A história não abriga coincidências. O fato de Bolsonaro tentar um golpe, na véspera da data em que houve o golpe militar de 1964, não é coincidência. É caso pensado. A ideia era que os quartéis se manifestassem celebrando a ditadura e os chefes militares demonstrassem apoio político irrestrito a ele. Paralelamente, um de seus faz-tudo no Congresso manobrava para aprovar em regime de urgência um projeto de lei ditatorial, que permitiria usar a pandemia como pretexto para lhe dar poderes excepcionais.

Deu errado. A tentativa de enquadrar os militares dividiu a alta oficialidade e deixou claro que o apoio ao projeto político de Bolsonaro é minoritário entre eles. A substituição do general Fernando Azevedo e Silva pelo general Braga Neto, para demitir o comandante do Exército, general Edson Pujol, pode resultar em um ineditismo. Um general da reserva na Defesa, que era bem reputado na corporação, pode ter menos respeito das Forças Armadas, do que alguns de seus antecessores civis no cargo. Ao se deixar instrumentalizar politicamente, Braga Neto perdeu a confiança a credibilidade conquistadas em sua carreira militar.

Mas, Bolsonaro não vai desistir. Hoje (31/3), ao anunciar o auxílio emergencial, ele voltou às suas obsessões. Tratou a pandemia como algo natural, que deve ser enfrentado pelos fortes, criticando as medidas de isolamento social. Voltou a falar em estado de sítio e na suposta convulsão social que seria provocada pela fome causada pelo lockdown, que nunca foi decretado no Brasil. Mentiu várias vezes, como é hábito seu. Insistiu que o Brasil está em situação confortável, em comparação com o resto do mundo. Em suma, continua a delirar, completamente fora da realidade, e a mentir e ameaçar, apesar de ter encontrado limites claros a seus impulsos autoritários.

Enquanto estiver na Presidência, Bolsonaro ameaçará a democracia e as instituições do estado democrático de direito. Insistirá no enquadramento político das Forças Armadas. Inventará pretextos para adotar medidas de exceção.

É preciso lembrar 1964, para que não se repita. Mas, há uma diferença abissal entre lembrar e celebrar. Proponho um retorno ao passado mais longínquo, ao momento em que Hitler, o precursor de governantes incidentais com projetos autocráticos, obteve poderes excepcionais, derrubou a democracia de Weimar e instalou o III Reich. Uma espécie de império plebeu absolutista. Sonho de Bolsonaro.

Era uma segunda-feira, 27 de novembro de 1933. Fo a noite em que Weimar desapareceu nas brumas da história, nascidas da fumaça que saía do prédio do Reichstag. Hitler já havia conquistado a maioria no parlamento com o Partido Nacional Socialista, o braço político do nazismo. Era o chanceler, há quatro semanas, por convite formal e relutante do envelhecido presidente Paul von Hindenburg e apoio explícito do poderoso chefe militar, Eric Ludendorff. A milícia de Hitler, as SA, seu braço armado, já o acompanhava há mais de uma década. Foram membros das SA que entraram no Reichstag e atearam fogo no parlamento.

Menos de meia hora depois, Hermann Göring, o operador político de Hitler e seu líder no Reischstag chegou e, diante dos jornalistas na frente do prédio em chamas, culpou os comunistas pelo fogo. Logo depois, chegaram Hitler e seu chefe da propaganda desde o putsch de Munique, Joseph Goebbels. Goebbels reforçou a acusação aos comunistas. Hitler, então, estendeu a culpa, além dos comunistas, acusou os judeus. Prometeu que aquela noite não acabaria antes que os culpados estivessem enforcados.

Na manhã do dia 28, às 11 horas, o gabinete de Hitler se reuniu para discutir o incêndio do Reichstag. O ministro do Interior, Wilhelm Frick, apresentou o decreto a ser assinado pelo presidente do Reich, von Hindenburg, para proteção do povo e do estado. Ficou conhecido como o decreto do incêndio do Reichstag. O documento apresentado por Frick endossava a versão de Hitler de que o incêndio havia sido obra dos comunistas e dera o início de um golpe bolshevista para tomar o poder. O estado precisava se defender com poderes de emergência. As liberdades civis foram suspensas. O édito autorizou a prisão sem processo daqueles considerados ameaça ao regime, aboliu a liberdade de expressão, reunião e associação e a confidencialidade das comunicações e permitiu buscas e apreensões sem ordem judicial. Assim acabou a república democrática de Weimar e começou o totalitarismo nazista.

Os traços são iguais: mentira, pretexto e golpe. Há duas maneiras de olhar para o passado trágico. Celebrá-lo e mirar no seu exemplo, para repetí-lo. Lembrá-lo como história, para iluminar o presente e o futuro, evitando que ela se repita. Os democratas lembram, nunca celebram a ruptura democrática.

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