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A mudança no Congresso, com vitória dos candidatos de Bolsonaro, marca a mudança na natureza do governo. Ele passa a ser um governo convencional, dependente do Centrão para ter capacidade de governança. Mas, não muda a qualidade da governança. Ela continuará medíocre, porque esta é a natureza do chefe do Executivo, a qual ele imprime a seu governo.

Ele muda para não mudar. A metamorfose de Bolsonaro é de outra espécie. Pode-se dizer que é da espècie Lampedusianae. Como Lampedusa, o autor italiano, escreveu em seu romance O Leopardo, para Bolsonaro toda mudança é para manter tudo como está. Fora sua agenda reacionária, que busca o regresso a um passado que não existiu, idealizado por ele. Agora, passa a ter que negociar cada peça legislativa que queira aprovar com os partidos que formam sua precária coalizão. Cada projeto terá um preço em emendas, em cargos, ou ambos. Ele pagou para elegê-los. Para manter a base de apoio, Bolsonaro terá que garantir um fluxo de recursos para os parlamentares e entregar os cargos que prometeu. A manutenção da coalizão, em algum momento, baterá no limite fiscal. Não vou discutir aqui os ministérios do desejo dos políticos, porque não tenho evidência de que eles foram de fato prometidos. É o que corre na imprensa. Bolsonaro mente muito. Pode ter prometido, o que não pretende entregar. Pode negar que prometeu e entregar o que negou. No primeiro caso, pagará caro. As mágoas da política também têm preço.

Nenhum parlamentar relevante, exceto Rodrigo Maia, cobrou de Bolsonaro a conta de dois anos de ofensa, menosprezo aos parlamentares e promessas não cumpridas. As mágoas da política são pacificadas pela conveniência. Mas, elas não morrem e ressurgem a seu tempo. Se frustar as expectativas que criou, Bolsonaro as verá ressurgir mais breve do que imagina.

Foram eleitas duas personalidades muito diferentes para Câmara e o Senado. Arthur Lira é agressivo, brigador, rombudo. Rodrigo Pacheco é jeitoso, conciliador, cuidadoso. Lira começou, logo no primeiro ato, hostilizando Rodrigo Maia e os que apoiaram a candidatura de Baleia Rossi. Em lugar de buscar uma solução negociada para a composição do restante da Mesa da Câmara, anulou a votação, que não daria maioria a seu grupo, considerou intempestivo e antirregimental o Bloco formado em apoio a Baleia Rossi e determinou que novas candidaturas sejam apresentadas, de acordo com a proporcionalidade da situação anterior à formação do bloco. Apesar de se dizer disposto à unificação e pacificação, não mostrou nenhuma disposição cordial. Pacheco também prometeu união e manteve a cordialidade no discurso de posse. Lira pode enfrentar mais problemas, com atitudes belicosas. Ele é vulnerável, réu em dois processos, e polarizar a Câmara pode paralisá-la, em lugar de fazê-la funcionar na direção de seus projetos.

Ainda não é possível afirmar que Bolsonaro tem uma coalizão formada. Há indícios de que sim e há indícios de que há uma promessa de compor a coalizão sob determinadas condições. Uma coisa é certa, ele não tem garantidos todos os votos que elegeram Arthur Lira (PP-Al) e Rodrigo Pacheco (Dem-MG). Nos 302 votos de Lira e nos 57 de Pacheco, há muitos que não comporão com Bolsonaro. No caso de Pacheco, os partidos de esquerda se oporão a quase toda a agenda do Executivo, talvez com exceção daquelas medidas destinadas a tirar os dentes e as garras do combate à corrupção.

Uma parte da operação de paralisação das investigações de corrupção de políticos e empresários consiste no desmonte da operação Lava Jato. Esta tarefa está a cargo do diligente Produrador Geral República, Augusto Aras, que a executa com persistente eficácia. Outra parte consistirá em bloquear projetos do pacote anticorrupção e, eventualmente, neutralizar a legislação já aprovada.

Neste tema, em que tem mais afinidades com muitos parlamentares, Bolsonaro quer blindagem para si, evitando o impeachment, e para os filhos, bloqueando e arquivando as investigações em curso contra eles. Está, neste importante capítulo de suas relações com o Legislativo, como ficou o ex-presidente Temer após o episódio da conversa indiscreta com Joesley Batista. Consegue a blindagem e mais nada. O Legislativo passa a aprovar o que quer e o presidente perde o poder de agenda.

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