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O ano de 2020 ficará marcado pela pandemia. Um triste episódio que já fez história, além de tirar a vida de mais de 1,3 milhão de seres humanos em todo o mundo. Será também o ano em que os Estados Unidos e o mundo se livraram de Donald Trump e sua realidade alternativa. No Brasil, foi o ano em que o país deu um largo passo para o reencontro com a democracia e a normalidade. As eleições mostraram que o Brasil já se desencantou com a direita extremista. Se Trump era o mais poderoso dos governantes incidentais — e confirmou minha hipótese de que esses governantes têm fôlego político curto — Bolsonaro é sua cópia sem originalidade e sem projeção global. Por isso o EUA dos anos Trump não se tornou um pária global e o Brasil sob Bolsonaro já é um pária mundial.

Passado o vexatório espetáculo de pirraça infantil do presidente derrotado, em Washington, o país voltará ao normal. Um presidente em sintonia com o real passará a ocupar a Casa Branca. O Brasil ainda terá que conviver com Bolsonaro e seu mundo alternativo por mais dois anos. Ele acredita ser capaz de reproduzir o clima de polarização desorganizada e algo anômica de 2018. Não será. Nestas eleições, perdeu a oportunidade de transformar o PSL, a casca vazia que o elegeu e à segunda maior bancada da Câmara, em um partido com raízes. Ao abandonar o partido, condenou-o a ser nanico. Corre o risco de desaparecer do cenário em alguns anos. Se ele está se fiando no centrão que o apoia hoje para lhe dar base partidária em 22, está apostando no bicho errado. Os maiores partidos do centrão, são feitos de puro oportunismo e se seus cabos eleitorais disserem que o povo está olhando para outro lado, será o lado para o qual irão.

Eleição municipal não prevê eleição presidencial. Tem influência na formação das bancadas na Câmara dos Deputados, porque as máquinas locais alimentam os cabos eleitorais nos redutos em que são eleitos. Os deputados que perdem a prefeitura e muitos vereadores em seu domícilio eleitoral e nos outros municípios em que garimpam seus votos, encontram maiores dificuldades para sua reeleição.

Mas, esta eleição tem um fator nacional que a singulariza das eleições municipais anteriores: a pandemia. Ela interferiu na decisão dos eleitores em todo o país, em todos os estados, nas capitais e no interior. Os prefeitos que tiveram bom desempenho na proteção da saúde de seu povo foram premiados com a reeleição ou a eleição de seus candidatos no primeiro turno. Os que tiveram mau desempenho, foram punidos com a derrota ou um difícil segundo turno, como Crivella, no Rio. A pandemia foi, também, a maior responsável pelo aumento da abstenção. Há a possibilidade de um grande número de eleitores estar em isolamento em lugares diferentes daqueles em que votam. Além disso, aparentemente o medo desestimulou mais gente a não votar, do que o desencanto com a política.

Os erros e omissões do PT abriram espaço para afirmação de lideranças emergentes como Guilherme Boulos e Manuela D'Ávila. Em Porto Alegre, o PT teve o bom senso de apoiar Manuela D'Ávila, outra liderança emergente. O fato é que com sua rigidez e a insistência em se manter hegemônico na esquerda, o PT está perdendo terreno para outras forças, menos exclusivistas à esquerda, que antes operavam como seus satélites. No Rio, por exemplo, o PSOL tornou-se uma das três maiores forças na Câmara de Vereadores. O PSOL, o DEM e o Republicanos, este puxado pelos votos de Carlos Bolsonaro, fizeram sete vereadores cada. Um resultado que forçará Eduardo Paes a buscar um acordo programático com o PSOL para vencer e governar. O PSOL é mais importante para o destino de sua candidatura e gestão, caso vença, do que Bolsonaro e os Republicanos. O PT, ao que parece, está disposto a apoiá-lo contra o adversário comum, que é Crivella, com suas falsidades e sua representação do reacionarismo de uma parte do mundo evangélico e de Bolsonaro. Se fizer uma coalizão mais progressista, vence as eleições e poderá governar com mais legitimidade. Se fizer uma coalizão só pela direita, perderá legitimidade e uma ótima oportunidade de pacificar o Rio e ainda pode pôr sua eleição em risco. A banca carioca do PSOL foi puxada por seus campeões de voto, Tarcísio Motta e Chico Alencar, dois políticos experientes, que ampliaram o coeciente eleitoral do partido, levando-o a fazer uma bancada três vezes maior do que a do PT, que elegeu apenas três vereadores. Isto, apesar de sua candidata à prefeitura, Renata Souza ter obtido 3% dos votos e Benedita, do PT, 11%. Em São Paulo, foi o contrário. Jilmar Tatto, do PT, teve votação pífia, mas Suplicy (PT) teve o triplo da votação de Érika Hilton (PSOL) para a Câmara de Vereadores e Boulos (PSOL) foi para o 2o turno contra Covas (PSDB). O PSDB e o PT fizeram as duas maiores bancadas, com oito vereadores cada. O DEM e o PSOL fizeram a segunda maior, com seis cada um. A divisão esquerda centro-direita continua equilibrada, 14 vereadores de cada lado.

O Rio, com a disputa entre Paes e Crivella, tornou-se um microcosmo no qual o Brasil pode se olhar, para entender 2022. Aliado à esquerda, numa ampla frente democrática, Paes vence Crivella com largueza. Tem esta oportunidade diante de si. A questão é saber se vai aproveitá-la. Foi assim, também, que Biden venceu Trump com ampla margem no voto popular e no colégio eleitoral. Os governantes incidentais vencem na divisão polarizada e raivosa. Perdem fácil diante da união dos que preferem a liberdade e a lei. Crivella é um deles. Bolsonaro, também. O mesmo dilema se porá diante de nós nas presidenciais de 2022. Nos Estados Unidos era mais fácil a união porque boa parte do espectro político está dentro do partido Democrata. Biden conseguiu unir a centro-direita, o centro e a esquerda do partido. Além disso obteve apoio de importantes lideranças republicanas e independentes descontentes com os desmandos e delírios de Trump. Ao contrário do que muitos dizem, no Brasil não é de um candidato de centro ou de uma aliança das esquerdas que se precisa para vencer. É uma candidatura de união de democratas, contra a ameaça comum da autocracia neofascista.

Olhando o país com olhos de sociólogo, creio que na maioria esmagadora das cidades, de todos os tamanhos, houve um espírito comum de busca de segurança, normalidade e realismo. Um certo fastio com as personalidades delirantes e o desgoverno de Bolsonaro e, nos grandes centros, do próprio Trump. Por isso se comemorou tanto por aqui a vitória de Biden. Buscou-se o retorno a agendas que enfoquem os problemas reais e mais prementes de cada lugar. Este foi o que se poderia chamar de espírito deste ano de pandemia e voto local e tenho a forte suspeita de que seja o espírito do tempo em que vivemos. Se este zeitgeist perdurar, será ele que dominará as eleições de 2022. Neste caso, diante de tantos ineditismos históricos do período que vivemos, haverá um elo mais forte, pela primeira vez, entre as eleições municipais de 2020 e as eleições gerais, de 2022.

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