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Só não vê quem não quer. O Brasil está em processo de dissolução político-institucional. O hiperpresidencialismo realiza sua vocação autocrática, sem freios e contrapesos. Uma suprema corte condescendente com os crimes de responsabilidade e comuns praticados pelo presidente. Cortes inferiores coniventes com a censura e a proteção dos mal feitos, em cujas dependências há muito não se encontra um exemplar íntegro da Constituição ou dos códigos legais. Um Itamaraty destroçado que entrega numa bandeja de prata a honra da pátria ao governo desvairado de Donald Trump. Um MP amordaçado por agentes internos que solapam sua autonomia, desenhada para ser uma das principais linhas de defesa da democracia, do meio ambiente e da lisura das transações públicas. Um Congresso de lideranças tíbias, dominado por bancadas que bloqueiam a vontade geral e se entregam à promoção de interesses menores. Tudo conspira para viabilizar a trajetória aventureira de um presidente autocrático, que todos sabiam prezar as ditaduras e desprezar as democracias.

Fico pensando naqueles que conhecem bem a história do país, sabem o que é liberalismo, têm plena noção das possibilidades de fracasso não apenas de democracias, mas de nações, sabiam quem é Jair Bolsonaro, perderam amigos nos porões do regime militar, e votaram nele por aversão ao PT, irritados com a gastança do último período de administração petista, convencidos da boa fé do juiz Moro. Não é possível que se sintam confortáveis por terem ajudado a sacrificar a democracia arduamente conquistada por seus pruridos fiscais e reservas morais seletivas. De nada adianta estarem agora na oposição. E há, ainda, aqueles que se dedicam à "crítica construtiva", ou ao pragmatismo, imaginando que desta forma reduzem a responsabilidade de viabilizar o projeto autocrático de uma pessoa sabidamente despreparada para governar o país.

Muitos pedem que o PT faça autocrítica. Deveria mesmo. Até hoje não ouvi, mesmo dos interlocutores mais inteligentes e confiáveis, uma defesa persuasiva de por que o PT não teria autocrítica a fazer. Mas, é indisputavelmente mais grave a ausência de admissão pública, de autocrítica severa, daqueles que viabilizam a maior tragédia política de nossa história, desde o golpe de 1964. Bolsonaro é fraco, sua base social militante é insuficiente para sustentá-lo no poder e ele não reúne as condições mínimas para governar um país da complexidade do Brasil, no momento da mais aguda crise existencial da sua história. Ele se sustenta apoiado nos que lhe dão condições institucionais de viabilidade. São os verdadeiros patrocinadores da marcha para a autocracia.

É espantoso que a maioria julgue natural a ocupação de praticamente todos os postos-chave de todas as áreas de políticas públicas do governo por militares. Que já se tenha naturalizado a existência de um escritório de comunicação no Palácio do Planalto dedicado à difamação, à mentira e à desinformação. Que não haja reação contra as concessões unilaterais a Washington, severamente gravosas para os interesses do Brasil.

O país testemunha bestializado a insensatez dos atuais donos do poder, a neutralização das instituições de freios e contrapesos, os abusos de autoridade, o prolongamento da pandemia e das mortes dela decorrentes por más decisões públicas. Muitos nem percebem a ação dos viabilizadores, quase todos agindo em nome do "bom senso", da estabilidade, do respeito às "regras do jogo", como se fosse uma escolha razoável, sacrificar a democracia pelo ajuste fiscal, ou pela estabilidade política precária. Manter-se fiel às regras do jogo, enquanto o outro catimba e o juiz finge que não vê. Escudados numa noção equívoca de responsabilidade, vivem na fé de que haja de fato um projeto de austeridade fiscal instalado no governo. Fazem de conta que não vêem como Bolsonaro muda a versão sobre seus propósitos de acordo com sua conveniência, enquanto promove suas descosidas ideias contra a democracia, contra o meio ambiente, contra o equilíbrio econômico-financeiro, contra o decoro e contra o trato respeitoso da coisa pública.

Sem oposição e sem projeto alternativo, vivendo o ocaso geral das lideranças, o país tem razão em passar as noites assombrado por demônios noturnos, aprisionado em um labirinto do qual não vê saída.

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