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Há dois movimentos na conjuntura política que são muito significativos. Um, emergente, é a iniciativa de lideranças e intelectuais de diversas tendências de promover uma frente política contra o avanço do autoritarismo. Outro, revelador, é a explicitação das inspirações fascistas e supremacistas dos movimentos de apoio a Bolsonaro. Com destaque para a live na qual ele toma um copo de leite. Um ato que pareceria banal — e é, no cotidiano privado — mas quando feito em público e em contexto político, é um aceno aos supremacistas brancos, em geral neonazistas que têm por alvo central de seu ódio os negros. A marcha nazi-fascistóide na noite de sábado (30/5) com mascarados portando tochas, reproduzindo comportamentos da Ku Klux Klan que remontam às marchas de milícias fascistas e nazistas é um marco simbólico.

Uma conjuntura que não pode ser deslocada de seu contexto maior, o momento da pandemia no Brasil em que o país se torna o epicentro, com mais de 500 mil pessoas reconhecidamente infectadas e perto de 30 mil mortas por Covid-19 — os dois números macabros devem ser muito maiores, por causa da subnotificação e da subtestagem. A insensibilidade do governo federal em relação a esta tragédia humanitária e sanitária, a acefalia do ministério da Saúde, mostram um país em desgoverno. Como já escrevi mais de uma vez aqui, o presidente só se preocupa com questões menores ou acessórias. Politiza temas que deveriam ser tratados de forma técnica e coordenada cortando as divisões políticas e ideológicas. O vice-presidente pediu em entrevista ao Valor que "deixem o cara governar". O problema é que o "cara" não quer governar. Se quisesse estaria debruçado sobre o maior problema dos brasileiros hoje que é a pandemia no seu auge e não passeando a cavalo entre manifestantes contra a democracia.

Não se pode tirar do foco o fato relevante de que a conjuntura mais imediata à ocorrência destas manifestações simbólicas de extremismo da direita está marcada pelas mortes brutais do jovem João Pedro — mais uma de milhares — e de George Floyd — também mais uma na violência serial contra negros — sufocado por um policial em Minneapolis, Minnesota. A proximidade das duas mortes deixou evidente a procedência da identidade da mensagem "Vidas negras importam" e "Black lives matter". Lá como cá, ela fala de racismo e de violência que mira os homens negros.

O movimento pela unidade em favor da democracia, ainda incipiente, tem muita importância. Sem uma ação conjunta de todos os setores democráticos será impossível conter o avanço de extrema-direita rumo ao autoritarismo. O que a desabrida mostra de símbolos fascistas, nazistas e racistas evidencia é, exatamente, a natureza extremista do grupo de apoio do poder. Significa que tende a alienar os setores de centro-direita e da direita liberal porque as aspirações supremacistas e totalitárias destes extremistas negam radicalmente os valores liberais, progressistas ou conservadores. Do mesmo modo que confronta os valores da esquerda democrática. Há, portanto, razões objetivas para esta frente unificada, da direita liberal à esquerda democrática, e muito a fazer.

A democracia não tem autodefesas suficientes nos seus mecanismos institucionais de freios e contrapesos para conter autonomamente uma investida autoritária, de um grupo que usou a eleição como cavalo de Tróia para poder solapá-la por dentro. Só a ação política coletiva e concertada para revigorar e ativar esses mecanismos no modo emergência democrática pode frear um processo como este.

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