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Bolsonaro quer corrigir o incorrigível. Sua participação em comício contra as instituições quebrou o decoro do cargo, violou a Constituição e desrespeitou o princípio republicano de respeito mútuo entre os Poderes. Não tem qualificação, equilíbrio ou compreensão das responsabilidades inerentes ao cargo de presidente.

Seus mais próximos valem-se de mentiras sobre uma conspiração das cúpulas do Legislativo e do Judiciário contra Bolsonaro. É uma tosca inversão da realidade, para falsificá-la. Quem age explicitamente contra as instituições é Bolsonaro. Um presidente não vai, não pode ir e deve evitar que se vá às portas de um quartel do exército para pedir o fechamento dos poderes republicanos.

O silêncio dos militares beira ao consentimento. As críticas dos generais só circulam em off. Não vale. As faixas pedindo intervenção militar e medidas de exceção eram visíveis e legíveis. A presença de Bolsonaro e a frase indelével afirmando que ele acredita nos manifestantes antidemocráticos está gravada. Portanto, só valem respostas explícitas e os outros Poderes e autoridades políticas civis devem ir além dos tuítes e estudar ações institucionais.

É evidente que Bolsonaro convalidou as manifestações. Não adianta dizer depois que "aqui é democracia, aqui é respeito à Constituição", pedindo respeito a um participante da sua claque sempre presente a seus minicomícios diários na frente do palácio. Uma frase insincera, que só seria verdadeira se tivesse sido dita no comício do forte Apache.

Chamou de invencionices as matérias e as manifestações de autoridades do Legislativo e do Judiciário e da maioria esmagadora dos governadores. Insistiu que o comício era pela volta ao trabalho. Não, as faixas, que o presidente certamente leu, eram contra as instituições democráticas e pela intervenção militar. Bolsonaro endossou as faixas, porque não pediu que fossem retiradas e disse que acreditava naqueles que as portavam. Não há desordem promovida por outros setores da sociedade. Os desordeiros são os grupos nos quais Bolsonaro acredita.

A manifestação golpista nas portas dos quartéis foi planejada, financiada e convocada. O presidente tinha conhecimento prévio dos comícios. Seu círculo íntimo certamente faz parte de redes de WhatsApp pelas quais os comícios foram convocados.

Presidente em comício golpista na porta da sede do comando do Exército na capital é uma anomalia, uma anormalidade e uma ilegalidade. Bolsonaro não tem condições pessoais mínimas para exercer o cargo. Agride serialmente a Constituição, que diz sempre respeitar. Aceita pedidos de fechamento dos outros Poderes, que diz querer abertos e respeitados.

Bolsonaro não é uma metamorfose ambulante. O que ele disse na manhã seguinte ao comício não desdiz o que falou no comício. Nas ruas, ele prometeu que não negociará nada com o Congresso. Mandou que fosse tudo gravado para que pudesse reproduzir em suas redes. Transformou o comício numa live sua. Na manhã da ressaca do golpismo que bateu nas portas dos quartéis, disse defender a democracia. Não está sendo sincero. Logo em seguida, levantou a suspeita falaz de que "por enquanto vivemos normalidade institucional". Uma frase ameaçadora, que contém uma mentira e um ato falho. A mentira é que estejamos sob alguma ameaça de anormalidade institucional, que remete à teoria da conspiração das cúpulas dos poderes republicanos contra ele. O ato falho é que é ele quem ameaça a normalidade institucional e não a deseja. Quer uma situação institucional anormal de hegemonia da Presidência da República sobre os demais poderes. Já subordinou a Procuradoria Geral da República.

Politicamente, Bolsonaro é uma Penélope iliberal. Ele desfaz aquilo que seus ministros tentam fazer. O general Chefe do Gabinete Civil negocia cargos de terceiro escalão com lideranças partidárias no Congresso. O que Bolsonaro está tentando fazer é cooptar parte do Centrão para remover Rodrigo Maia da presidência da Câmara. Quando afirma que não negociará está dizendo que não aceita negociar medidas de políticas públicas. Desta forma, desautoriza o general.

O recém-nomeado ministro da Saúde prepara suas propostas de nova gestão da crise pandêmica. Mas, seu chefe vai às ruas e deixa claro que a única decisão que aceita é o fim do isolamento social. Desacredita o ministro da Saúde que ainda nem disse a que veio. Uma pessoa de brio mais à flor da pele pedia demissão antes mesmo de encerrada a transição de equipes.

Bolsonaro aceita ataques às instituições. Desautoriza seus ministros. Desacredita o governo. Só ele sabe o que é melhor para o país. Só ele pode prevalecer. É o líder supremo que não ouve o conselhos dos especialistas que leva para auxiliá-lo a governar. Não respeita a lei e quer subordinar os outros poderes da República. A hegemonia que deseja do seu poder sobre os demais poderes republicanos tem nome técnico: autoritarismo ou ditadura. Na democracia presidencialista só é cabível o equilíbrio entre estes poderes. A pessoa que ocupa a Presidência da República, hoje, é uma ameaça à continuidade democrática. Seus atos públicos são irresponsáveis, desqualificados e enganosos.

Sem reação institucional a crise se aprofundará e terminará por abalar o quadro institucional da democracia. As instituições e os militares precisam dar uma resposta estratégica, refletida e efetiva contra a atitude antidemocrática, impatriótica e ilegal da pessoa que ocupa a Presidência da República.

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