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O presidente Bolsonaro só respira em ambientes exaltados. Ele até pareceu algo deprimido em duas, das três vezes, que falou recentemente em público. Ao anunciar a demissão do ministro da Saúde e apresentar o seu substituto, ele estava tenso e desconfortável. Talvez por não poder falar tudo que pensa. Na posse do novo ministro da Saúde, ele também não tinha o tom, nem o tonus, habituais. Mas, sentiu-se mais livre para insistir na saída para muito em breve da quarentena, numa espécie de comando a seu novo auxiliar. O ex-ministro Luiz Mandetta perdeu o posto por não obedecer à risca ao comando presidencial e por ter popularidade em demasia. Minha impressão é que a desobediência pesou um pouco mais do que o ciúme com o estrelismo de Mandetta, que chegou a criticar em público.

Logo depois do anúncio da demissão de Mandetta — "um divórcio amigável" mais uma vez namoros e casamentos servem de metáfora para relacionamentos profissionais — Bolsonaro deu uma entrevista à CNN Brasil, na qual escalou seu conflito com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Atacou Maia várias vezes, num crescendo de destempero. Fez acusações graves, que foram de desejar derrubar o governo a ter comportamento impatriótico. Promoveu um rompimento público com o presidente da Câmara, que ele diz que o desrespeita. Bolsonaro reclamou também do STF, que lhe tirou poder. Ele anda obcecado com a ideia de posder. Está a demandar respeito e obediência de seus ministros. Faz questão que digam que ele é o comandante. Sente-se desrespeitado e desautorizado pelo presidente da Câmara e por ministros do STF.

Pode haver, nestas atitudes, mais do que a insatisfação de uma mente autoritária que não consegue exercer o poder sem contraste. Ele se sente ameaçado. Imagina que estejam a conspirar por sua derrubada. O Painel da Folha de São Paulo relata que ele tem dito a parlamentares ter informações de inteligência de que Rodrigo Maia (DEM-RJ), o governador João Doria (PSDB-SP) e um grupo de ministros do STF estariam tramando um golpe para tirá-lo do governo. Se tem mesmo dito isto, há três hipóteses possíveis. Se for verdade, é um crime grave, pois a Abin ou alguma outra agência de inteligência do governo federal estaria espionando adversários ou competidores políticos do presidente. Este tipo de atitude deu no escândalo de Watergatee e no impeachment de Richard Nixon. A segunda hipótese é que seja mentira. O presidente tem mostrado pouco cuidado com as fake news e as tem disseminado. No discurso na posse do novo ministro da Saúde, investiu contra os governadores Dória e Witzel, sem mencionar nomes, mas falando de cenas de prisão de pessoas que não obedeciam à quarentena em casa. Não encontrei estas cenas na grande imprensa. Cenas desta natureza apareceram em um vídeo de propagandista da ultradireita, que circula, com grande apoio, nas redes do presidente. A terceira hipótese é que o presidente esteja em um surto paranóico, imaginando ameaças por todo lado.

São, as três, hipóteses graves que indicam incapacitação para o exercício do cargo e falta de decoro. Todas, formas de crime de respnsabilidade. O presidente jamais pratica a grande política, centrada na estratégia, no convencimento e na negociação de políticas. Ele é mestre na pequena política, de intriga e ataque. E suas desavenças semnpre orientam suas decisões, o que é mais grave. Toda a irritação do presidente com Rodrigo Maia tem a ver com o projeto da Câmara de garantia de receitas dos estados e municípios, porque implicaria, eventualmente, em fazer aportes para Rio e São Paulo. Bolsonaro não quer dar qualquer apoio a Dória ou Witzel, que considera adversários em 2022. Por isso, o ministro da Economia, que também se relaciona mal com o Legislativo e, principalmente, com Rodrigo Maia, fez a contraproposta de aportes com base nos fundos de participação de estados e municípios, que reduziriam a cota de estados como São Paulo e Rio de Janeiro.

Tudo é politizado no governo Bolsonaro e submetido ao crivo da pequena política. Ele investe todo o tempo contra o isolamento social. Diz que "alguns" governadores fecharam tudo e terão queda de receita. É, para ele, argumento suficiente para vetar aportes de recursos para os estados que não relaxarem o isolamento. É o que Bolsonaro chama de contrapartida. Quer agregar a saída do isolamento ao projeto de garantia de receita. Já os fiscalistas da Economia chamam de contrapartida medidas de responsabilidade fiscal e transparência, para que a ajuda não se torne um pretexto para transferir o resultado da má gestão fiscal do passado para a conta dos gastos extaordinários com a pandemia.

Bolsonaro copia mal e sem originalidade tudo que Trump faz. Trump também está incomodado com governadores que usam a autonomia que têm e é constitucional, para determinar a continuidade do lockdown seguindo a recomendação dos epidemiologistas. Ele sugeriu à população destes estados que pratiquem a desobediência civil. Bolsonaro copiou. Disse que a atitude dos governadores de manter o isolamento devia ser rechaçada, embora não estivesse sugerindo a desobediência civil. ELe considera o isolamento uma violação indevida dos direitos individuais. Mas, nem passa por sua mente que o relaxamento do isolamento antes que a pandemia passe o pico, que ainda está distante, viola o direito à vida, que supera a qualquer outro direito individual.

Bolsonaro entende às meias, se tanto, o que lhe dizem. Acha que 60% a 70% da população precisam ser infectados, para debelar a pandemia. Para isto, o melhor seria que todos que não fazem parte dos grupos de risco voltassem a circular. Ele diz que não tem notícia de criança abaixo de 10 anos que tenha morrido da Covid-19, por isso as escolas podem reabrir. Está implícito na frase do presidente que as crianças podem contrair a doença porque ela não terá gravidade. Qualquer médico lhe diria que não é possível afirmar que a doença não evoluisse com gravidade em crianças. É o mesmo que deixar a doença seguir seu curso natural. As estimativas para este tipo de decisão são dantescas.

Bolsonaro deixou claro que espera que o novo ministro da Saúde, bolsonarista de primeira hora, Nelson Teich siga suas diretrizes e comece a preparar a saída do isolamento. Sabe que não pode impor a decisão ao país. Interpreta a decisão do STF como retirada de um poder que ele tinha. Mas, o presidente nunca teve o poder de interferência nas decisões dos governadores e prefeitos em suas áreas de atribuição constitucional. Além disso, como o desejo presidencial viola o consenso médico e expõe a população ao risco de morter por Covid-19, viola o princípio constitucional do direito à vida e à saúde.

O presidente afirmou que ele tem o poder de decretar o estado de sítio e os governadores não. Parece um comentário, mas não é. É uma ameaça à democracia. Quem imagina que ele pode ser contido no seu ímpeto autoritário pelos generais que o cercam, podem estar enganados. Não há liberais entre eles.

O quadro que se desenha neste momento para o Brasil não é bom. O presidente troca o ministro da Saúde, no curso da mais grave crise pandêmica de nossa história, a qual ainda não entrou na sua fase de maior gravidade. O novo ministro é vago sobre o que pretende fazer, mas explícito no seu completo alinhamento com o presidente. Se está sendo pouco claro sobre suas intenções, porque imagina que possa persuadir o presidente da necessidade de manter o isolamento até que passe o risco de perda de controle sobre o espalhamento da doença, menos mal. Mas, pode frustrar a expectativa do presidente e cair. Se sua reticência em deixar claro o que pretende, porém, é porque quer se sentir mais seguro, para indicar o caminho da saída do isolamento no tempo do presidente e não da epidemiologia, seria péssimo.

O conflito do presidente com o Legislativo e com os governadores pode paralisar o processo decisório, no momento em que a crise demanda rapidez e sensatez. A troca de ministros enfraquece, pelo menos momentâneamente, o setor mais crítico do governo para lidar com uma crise sem precedentes na Saúde.

Bolsonaro se incomoda com a perda de de popularidade, que se amplia a cada semanas. Aposta todas as suas fichas na retomada da economia para recuperar a popularidade perdida. As pesquisas mostram todavia, que as pessoas estão mais preocupadas com a saúde, do que com a economia e avaliam mal o desempenho de Bolsonaro por causa disso. A aprovação de governadores e do ex-ministro Mandetta está associada à prioridade da saúde em suas decisões.

Todas as atitudes do presidente mostram que ele não tem condições de lidar com uma crise desta magnitude e gravidade, que pede decisões orientadas exclusivamente pela epidemologia. Uma gestão técnico-científica à qual a gestão econômica e a articulação política devem se dedicar a viabilizar.

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