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A notícia chegou de repente e mudou nossas vidas para sempre. Resultado do manejo displicente e predatório da natureza, o novo coronavírus migrou do organismo de animais silvestres para o humano. Como todo elemento exótico, ao se adaptar ao novo hospedeiro sofreu mutações que o fizeram muito perigoso, com altíssima capacidade de propagação por contágio e alta letalidade. Sua principal via de espalhamento são as gotículas (perdigoto) que dispersamos ao falar, tossir ou espirrar. Tornaram-se névoas com elevada carga viral, uma expiração tóxica que pode ser fatal.

Passamos a desconfiar um do outro, a temer a proximidade não apenas de estranhos, mas de parentes. Os que têm mais de 60 anos, o grupo mais vulnerável às manifestações mais grave e potencialmente letais, foram avisados para temer os netos e as crianças em geral.

Além de invisível, o vírus provoca uma doença que tem um tempo longo de incubação, entre 7 e 14 dias, sem sintomas ou com sintomas tão leves que podem passar desapercebidos. Vem daí sua periculosidade. As pessoas infectadas transmitem o vírus sem saber, em escala geométrica. Por causa destas características, gerou rapidamente uma pandemia global. A doença espalhou-se veloz por este mundo globalizado.

A doença surgiu na China, em Wuhan, capital da província de Hubei. Uma feira de frutos do mar misturava pescados e carcaças de caça ilegal de animais silvestres. O coronavírus presente em morcegos comuns ou pangolins (Manis javanica) importados ilegalmente para a província de Guangdong. Ao entrar no corpo humano sofre mutação adaptativa (seleção natural) que o transforma em um agente altamente infeccioso e bastante letal. A origem específica é ainda um mistério para a ciência. Sabemos quase nada sobre este novo tipo de coronavírus que ganhou o nome de Sars-Cov-2. Menos ainda sobre a doença que provoca, uma síndrome respiratória severa e aguda (sarss) conhecida por Covid-19. Pessoas reagem a ela de modos tão variados que não temos ainda condições de detectar padrões.

Faltam-nos dados suficientes e pesquisas adequadas. Conhecimento que só teremos após a pandemia passar completamente e se tornar mais uma “influenza” que ressurge anualmente em surtos sempre de alguma gravidade. Não é mistério, porém, o que permitiu sua migração para o organismo humano. Foi o manejo inadequado da natureza, a invasão descuidada do ambiente natural pelo ambiente humano.

O impacto econômico foi quase imediato. Quando a doença começou a se propagar por Wuhan, o governo fechou toda a província. Hubei é uma das regiões mais importantes para a produção de eletrônicos. A economia mundial depende de cadeias de suprimentos globalizadas e várias delas têm elevada concentração de hubs na China, para fornecimento de peças e componentes e para montagem de produtos finais. A paralisação total da produção na província de Hubei freou bruscamente vários setores da economia mundial, inclusive dos Estados Unidos e da Alemanha, duas outras máquinas fundamentais da economia globalizada.

O uso de máscaras foi recomendado a partir de determinado ponto, mas elas escassearam rapidamente e faltaram até mesmo para o pessoal de saúde, em cujo meio as taxas de infecção e óbito têm sido muito altas. Faltaram, também, em todo o mundo, ventiladores para pacientes que requeriam respiração mecânica na fase mais grave da Covid-19. Suas consequências sanitárias são devastadoras.

A gravidade da pandemia acompanha a qualidade da governança. Má governança está associada à gravidade grave da crise do Covid-19. Vários fatores não epidemiológicos afetam a dinâmica natural da doença, que ainda é uma desconhecida para a ciência e a qualidade da governança é um deles. Os politólogos sempre disseram que bons governos fazem diferença para a estabilidade da democracia e também para a eficácia das políticas públicas.

Países com governantes incidentais, incapazes de equilibrar o processo político, governos fracos, minoritários, líderes dispostos a desprezar os alertas da ciência para manter seus planos políticos sofreram mais agudamente as consequências da pandemia. Seus governos não foram capazes de responder prontamente à ameaça da pandemia de Covid-19. Os três piores casos, até o momento, Itália, Espanha e Estados Unidos, ilustram esta associação entre mau governo e virulência da crise pandêmica.

A Itália, cujo sistema político nunca se recuperou do escândalo de corrupção que levou ao fim do sistema partidário do após-guerra, havia saído de um governo de coalizão entre o M5S, um partido do contra, e a Liga, ultranacionalista de extrema-direita, para uma aliança multipartidária. A nova coalizão centrada no M5S e no Partido Democrata, de centro-esquerda, reunindo ainda o LeU, um grupo parlamentar de esquerda, e o Italia Viva, de centro, teve como motivação central impedir a chegada ao poder do líder populista ultradireitista, Matteo Salvini. O segundo governo de Giuseppe Conte, foi capaz de reagir com prontidão e energia à chegada da pandemia. As autoridades de Milão, o ponto de entrada do inimigo invisível, desprezaram o perigo que representava. Lá, repetiam que a cidade não podia parar. O resultado das fragilidades do governo, da procrastinação das autoridades milanesas e da dificuldade de articulação entre os governos locais e o governo nacional foi trágico. Em questão de semanas a doença estava fora de controle. Conte decretou o lockdown, mas já foi uma resposta desesperada. O sistema de saúde já havia entrado em colapso. Os médicos viram-se rapidamente diante da escolha macabra de escolher a quem acolher e dar uma chance de sobreviver à doença e a quem deixar por conta própria para morrer. Lembra a forma cáustica pela qual o inesquecível personagem Settembrini, de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, chamava os tuberculosos internados no fictício sanatório Internacional de Berghof, em Davos, os morituri. Os que vão morrer. Conte ganhou apoio social com o grau de transparência e solidariedade como administrou o lockdown e robusteceu politicamente seu governo. Esta guinada deu ao primeiro-ministro mais força para continuar a gestão da crise e comandar a recuperação pós-isolamento.

O vírus chegou à Espanha e encontrou uma sociedade politicamente fragmentada, incapaz de produzir maiorias claras, mesmo após quatro eleições em três anos. O governo de esquerda, liderado por Pedro Sánchez, apoia-se numa frágil coalizão entre o tradicional PSOE e o novo UnidasPodemos, mais algumas pequenas legendas. Conseguiu a investidura com uma fina maioria de 167 votos contra 165. Não foi capaz de responder em tempo e adequadamente ao desafio posto pelo coronavírus, embora tivesses duas semanas de frente em relação à Itália. Atrasou a decisão de estabelecer o isolamento social e só testou os que deram entrada no sistema de saúde. O resultado foi a perda de controle da progressão da doença e a adoção de medidas “heróicas”, mas que não conseguiram deter o seu avanço e levaram ao esgotamento da capacidade de atendimento do sistema de saúde.

No Reino Unido, Boris Johnson, um dos governantes incidentais que chegaram quase por acaso ao poder, decidiu deixar a epidemia seguir seu curso natural, até alcançar a “imunidade do rebanho”. Em outras palavras, esperar que a imunização de grande parte da população, após ser infectada, levasse ao declínio do contágio. A decisão foi confinar apenas os idosos, como o presidente brasileiro, outro incidental, quer impor e não consegue. Foi um modelo epidemiológico do Imperial College que fez Johnson mudar de ideia, mostrando que o cenário derivado de sua política de deixar rolar levaria à morte de mais de 500 mil bretões. Alterou a decisão de só testar casos graves passou a testar em muito maior quantidade, mas ainda não alcançou a meta de 100 mil testes/dia. A aplicação de testes só ganhou momento depois que o próprio Johnson foi internado para tratar da Covid-19. O Reino Unido não foi capaz de reduzir na medida necessária a velocidade do contágio para aliviar a pressão sobre o NHS. A taxa de mortalidade, medida por óbitos/casos confirmados é praticamente a mesma da Itália.

A doença desembarcou nos Estados Unidos pela costa oeste, na Califórnia, onde teve pronta resposta. Na costa leste, ela chegou pelo icônico aeroporto internacional John Fitzpatrick Kennedy, ou JFK, de Nova York. No dia 26 de fevereiro, constatou-se a transmissão social do vírus na California. No dia 16 de março as autoridades dos 17 condados da San Francisco Bay Area assinaram a ordem para o “abrigo em casa”, o isolamento social. No dia 19, o governador do estado, Gavin Newsom, estendeu a toda a California a determinação do confinamento residencial. O contraste com a atitude dos governantes da cidade e do estado de Nova Iorque é notável. O primeiro caso de contágio social foi detectado em Nova York, em 3 de março. O governador Andrew Cuomo e o prefeito Bill de Blasio prometeram pronta ação, mas não cumpriram a promessa em tempo. Alguns dias depois, um segundo caso foi detectado no subúrbio novaiorquino de New Rochelle. Soube-se que o paciente passou por circuitos altamente populosos de Manhattan, no horário em que os passeios ficam lotados de pessoas andando apressadas em todas as direções. As autoridades do estado e da cidade concentraram seus esforços no subúrbio, deixando desatendido o centro nervoso metropolitano que é Manhattan. O prefeito disse que avisaria a população quando fosse para mudar de comportamento. O governador não poupou arrogância e disse que tinham o melhor sistema de saúde do planeta em Nova York. O “abrigo em casa” e o fechamento das lojas só foram determinados no dia 22 de março. Quando o aviso de lockdown chegou, o melhor sistema de saúde do planeta já estava próximo da exaustão e a doença se espalhava sem controle pela população. A diferença entre a qualidade da resposta governamental na Califórnia e em Nova York aparece nos números locais da pandemia registrados até a noite do dia 14/5. O percentual de mortes sobre casos confirmados na Califórnia era de 3% e em Nova York, de 4,8%. Em números absolutos, 768 mortes para 25.356 casos confirmados e 9524 mortes para 199.756 casos, respectivamente.

O presidente incidental, Donald Trump, desdenhou da doença, que caracterizou, inicialmente, como “a common flu”, um resfriado comum. Recusou-se a tomar medidas de contenção. O país é uma federação bastante descentralizada, mas ainda depende de ação cooperativa e enérgica da Presidência, em casos de prontidão para calamidades. Principalmente as emergências biológicas contam com um sistema bastante robusto de pronta resposta, centrado no CDC (Centers for Disease Control and Prevention), uma agência federal com os melhores recursos técnico-científicos para este tipo de ameaça. Trump desprezou vários de seus alertas, até que o progresso da doença na Europa atingiu vulto suficiente para assustar o mais empedernido dos negacionistas. O estudo do Imperial College de Londres, que impressionou o primeiro-ministro britânico, também ajudou a persuadir Trump a mudar de atitude. Ele mostrava um cenário dantesco para os Estados Unidos, com perto de 2 milhões de mortes, se nada enérgico fosse feito. Nos últimos dias, Trump tem mostrado a vontade de reabrir a economia do país até maio. Os especialistas alertam para o perigo desta decisão. Reacendeu o conflito federativo. Os sete governadores da costa leste criaram um comitê técnico-científico para decidir quando e como iniciar o relaxamento do lockdown e já anunciaram que não seguirão na velocidade desejada pelo presidente. O mesmo fizeram os três governadores da costa oeste, para planejar a “reabertura incremental” da economia.

O Brasil segue a trajetória dos Estados Unidos. Bolsonaro é sempre uma cópia piorada e sem originalidade de Trump. Criou enorme confusão, com o que tratou durante a maior parte do tempo como um “resfriadinho”. Estimulou as pessoas a romperem a recomendação de isolamento social. Tenta seguidamente desacreditar as orientações do Ministério da Saúde, em linha com a OMS. O ministério da Saúde mantém a orientação de “distanciamento social”, mas sempre qualificando que não seria tão rigoroso como o “isolamento”, ou “lockdown”. Há governadores, em todas as regiões, respondendo com muito mais rigor à ameaça da pandemia. O confronto entre o presidente e seu ministro e a desobediência serial por Bolsonaro às recomendações da OMS e das autoridades estaduais, como as do governador do DF, apontam para um cenário sinistro, de descontrole da doença no país. Sobretudo se os governadores começarem a relaxar as regras de distanciamento social. O isolamento só encontra oposição no presidente e na facção de degenerados que o apóia. A divergência entre Bolsonaro e Mandetta sobre a necessidade de distanciamento social deve terminar com a demissão do ministro da Saúde. O afastamento do ministro agravará o estranhamento entre o presidente e o Legislativo.

Bolsonaro é irresponsável e obsessivo. O presidente fechou seu circuito mental na politização da pandemia e na competição com os governadores de orientação mais à direita do Sudeste, João Dória e Wilson Witzel, que ele vê como seus adversários eleitorais em 2022. Ele será contra a linha de ação que eles adotarem. Está querendo bloquear o projeto de lei de seguro de emergência da arrecadação dos estados, para não dar dinheiro aos dois. O presidente não vê o povo como beneficiário, só vê o governador inimigo. Sempre buscará o confronto, independentemente dos custos de suas ações para a sociedade. Não há lampejo de sensatez em Bolsonaro.

Trump e Bolsonaro operam movidos a confronto com inimigos que eles próprios criam para desviar a atenção de suas incapacidades pessoais e para manter mobilizada a militância. O último inimigo selecionado pelo americano foi a Organização Mundial da Saúde (OMS). Ele atribui seu próprio negacionismo à má informação disseminada pela OMS sobre a China. Só acredita nele a facção obnubilada pelas quimeras ideológicas que os reuniu. Bolsonaro, elegeu os governadores, principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro como inimigos-alvo. O brasileiro é um dos poucos governantes que ainda se mantém na negação da gravidade da pandemia. Ele também já lançou dúvidas sobre a OMS e circula nas redes bolsonaristas vídeo de propagandista da ultradireita levantando suspeitas sobre a OMS.

Países grandes, como a China e grandes e federativos como os Estados Unidos e o Brasil, podem enganar quem examina o avanço da pandemia superficialmente e ficar vulneráveis diante do baixo nível de compreensão de governantes despreparados, como Trump e Bolsonaro. As autoridades chinesas estão adotando novas medidas de controle de fronteiras na região Nordeste do país, na província de Heilongjiang e na Mongolia interior, onde há grande vai e vem para a Rússia. Em Guangzhou, que fica a 130 quilômetros de Hong Kong foram adotadas medidas adicionais de controle das pessoas que transitam entre os dois pontos. Especialmente em Heilongjiang, pode ocorrer em breve um segundo pico da doença. Nos Estados Unidos, Nova York está chegando no pico, mas outras regiões começam a ter disseminação comunitária e podem ser o epicentros de novos picos da doença no segundo semestre. No Brasil, São Paulo se aproxima do pico, mas outras partes do país terão que manter o isolamento social por mais tempo, para evitar novos picos regionais. Há risco muito alto, em ambos os países, de que o governo nacional recomende o relaxamento da quarentena, antes do momento e tornem o país mais vulnerável ao novos surtos em sequência. Tudo dependerá da reação dos governadores.

A qualidade da governança e a funcionalidade do sistema político fazem uma grande diferença quando se trata de responder a emergências criadas por calamidades coletivas que requerem prontidão e eficiência.

Leia mais: A solidão do indivíduo e a regeneração da empatia

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