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Bolsonaro gera crises porque ele imagina que elas o favorecem e porque ele não consegue conter sua personalidade conflituosa, assombrada por paranóias seriais. Foi uma surpresa que tivesse se comportado com civilidade na telerreunião com os governadores do Norte e Nordeste. Afinal, o Nordeste é dominado pelo PT e outros partidos da esquerda que Bolsonaro abomina. Também, manteve-se em equilíbrio na teleconversa com governadores do Sul e Centro-Oeste. Mas, o presidente teve, em seguida um surto de irresponsabilidade e voltou a adotar uma atitude de negação à virulência da pandemia, em pronunciamento extemporâneo. Não aguentou seguir as recomendações do ministério da Saúde por mais que alguns dias. A teleconferência com os governantes do Sudeste foi um desastre político. Adotou atitude insensata e desatinada. Hostilizou o governador de São Paulo, João Dória. Inaugurou uma nova etapa de seu isolamento. Bolsonaro já havia optado por ser minoritário. Agora, escolheu o distanciamento político radical dos governadores, do Congresso e de seus auxiliares mais equilibrados. Um misto de oportunismo populista e desequilíbrio emocional.

O pronunciamento alucinado do presidente ontem à noite (25/3), repetido esta manhã no teatro que faz para sua claque em frente ao Palácio da Alvorada. Bolsonaro já havia provocado reação muito negativa no Congresso. Ao preferir o confronto com os governadores do Sudeste, o presidente confinou-se movido por ideias preconcebidas e estreitas. Passou de todo e qualquer limite de responsabilidade. Violou o princípio federativo que a Constituição manda que respeite. Cometeu mais uma sequência de crimes de responsabilidade, por ações contra a segurança coletiva, a federação e por reiterado desrespeito ao decoro do cargo.

O presidente, incapaz de cumprir com suas responsabilidades como primeiro mandatário em um estado de calamidade pública, força seus ministros a um comportamento leviano que pode resultar em perdas elevadas de vidas humanas. É simples, ou se enquadram ou saem. Os governadores já anunciaram que seguirão as determinações da OMS. Foram unânimes em condenar a atitude do presidente, com maior ou menor ênfase. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, aliado de primeira hora, rompeu com Bolsonaro com palavras duras de censura.

No seu confinamento político, Bolsonaro deve imaginar que poderá culpar os governadores e prefeitos pela recessão, que será global. Mas, antes disto, ele pagará o preço por seu desprezo com a saúde coletiva. Ele se tornou o principal fator de risco nesta pandemia, ao mostrar limitado raciocínio e raros momentos de lucidez. Ele politiza uma emergência global de saúde pública, rivaliza com prefeitos, governadores e ministros. Vive num mundo de política miúda, irascível e medíocre.

O ministro Mandetta hipotecou sua reputação à linha minoritária do presidente. Assumiu o risco de recomendar o uso da cloroquina como medicamento de curto prazo, sem ter a comprovação científica. Uma liberação que escapa ao protocolo mundial de aprovação de medicamentos para situações novas e pouco conhecidas. O ministro começou, hoje, a preparar o terreno para seu recuo da posição de sensatez que adotou e passar à linha menos responsável de ação terminada pelo presidente. Criará muita insegurança quanto ao papel do ministério da Saúde de agora em diante.

A crise política assumiu outra dimensão com a insensatez presidencial em momento delicadíssimo. O enquadramento político do ministro da Saúde enfraqueceu muito a confiabilidade da principal autoridade sanitária do país. Bolsonaro é, hoje, um político fraco, que está perdendo o respeito dos políticos, inclusive seus aliados. Com a justaposição entre a mais séria crise de saúde coletiva da história recente, a paralisação econômica e a crise política, o Brasil vive um dos mais dramáticos de sua história e o de maior risco político do período posterior ao regime militar. Diante do grau de incerteza que experimentamos, todos os governantes têm por obrigação moral tomar as medidas de precaução considerando o pior cenário. Na incerteza o melhor cenário nunca pode ser o guia, sob o risco de causar perdas muito maiores à sociedade.

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