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O inimigo é desconhecido, invisível, praticamente indetectável e perigoso. Só a letalidade em média inferior a 5% na população total e a 15% entre os que têm mais de 60 anos impede uma catástrofe humana de proporções apocalípticas. Perdas humanas evitáveis são, contudo, sempre demasiadas. E podemos chegar à casa dos milhões de mortos, antes que a pandemia global se abata.

Enfrentamos um vírus muito contagioso e de rápido espalhamento. O período de incubação relativamente longo faz com que a infecção em massa se dê por pessoas assintomáticas, embora os sintomáticos apresentem maior virulência no contágio. Não há vacina, nem tratamento para a epidemia de Covid-19. Tudo isto põe o mundo diante de um desafio sem precedentes.

A maioria dos países vivia um regime de austeridade fiscal — as exceções são aparentemente a Coreia e a Alemanha — que hoje se vê que foi acriterioso. Cortes horizontais de despesas e a ausência de noção de prioridade social deixaram desguarnecidos os sistemas de saúde e desprotegidos amplos setores sociais. Por isto, não há disponibilidade adequada de suprimentos e equipamentos de segurança e tratamento essenciais, como máscaras cirúrgicas, respiradores e leitos de UTI no Reino Unido, na Itália, nos Estados Unidos, na Espanha e no Brasil, entre outros países. O consenso fiscalista se mostrou sempre impermeável às críticas, mesmo daqueles que admitiam o imperativo da responsabilidade fiscal, mas defendiam critérios no processo de redução e distribuição do gasto, com prioridade para os setores de saúde e educação e tratamento tributário mais progressivo, para reduzir a desigualdade. O resultado está expresso em sociedades frágeis, no mundo desenvolvido e no emergente, diante de ameaça inédita.

Vivemos um quadro no qual boa governança, transparência, confiança e credibilidade são fatores cruciais para dimensionar a extensão da tragédia em cada país. A capacidade de disciplina coletiva, de cooperação e solidariedade da sociedade é outro elemento diferenciador no enfrentamento da epidemia.

A Coreia tinha recursos, boa governança e uma sociedade disciplinada. Adotou a estratégia de prevenção mais eficaz, pelo que se sabe até agora, de submeter grande número de pessoas ao teste. Pode isolar mais rápido a maioria dos contaminados, reduzindo a virulência do processo epidêmico. O governo italiano demorou a agir com rigor, não tinha os recursos para aplicação de testes em grande volume e se tornou o exemplo do pior cenário, até agora. Não se pode comparar Itália e China, porque este último foi o primeiro caso. Não tinha noção de como agir adequadamente, nem do tamanho do problema. Mas, conseguiu aprender rápido, tem recursos, e já se encontra na fase de esgotamento da epidemia. A Itália nos está a mostrar o quanto a pandemia pode se agravar, em número de infectados, mortes e na duração da fase aguda.
Estados Unidos, Brasil e Reino Unido, têm governos fracos. Donald Trump começou negando a importância da virose e só mudou de atitude ao ver cenários confiáveis a indicar que haveria mais de 2 milhões de mortes, se o país continuasse sem agir com severidade. Mesmo após a mudança de atitude e querer passar a imagem de comandante em chefe à frente de uma guerra, continuou cometendo erros graves. O mais recente foi dizer que já havia uma droga eficaz na cura da Covid-19. Tratava-se de um teste inicial, em pequeno número e com resultados incertos. Esta eficácia ainda está para ser comprovada em testes em maior escala e com melhor controle de resultados.

No Reino Unido, Boris Johnson também demorou a agir e só adotou medidas de confinamento diante da ameaça de um cenário como o italiano e dos sinais de colapso de suprimento da rede hospitalar. Mas ainda está longe de fazer o necessário para atenuar a piora acelerada da epidemia.
O mesmo caminho de Trump, não por acaso, foi adotado por Bolsonaro no Brasil. Começou em negação, adotou comportamento público irresponsável diante dos alertas dos infectologistas e retardou as ações de controle. Passou a falar na gravidade do problema muito recentemente, ainda assim, sempre dizendo que esta gravidade não deve ser exagerada. Também propala a existência de medicamento para a doença. Abriu perigoso conflito de jurisdição e competição política com governadores, atrapalhando a implementação de ações corretas de isolamento social já adotadas nos estados. É improvável que, diante do despreparo e destempero do presidente, a doença no Brasil não tenha trajetória similar, se não pior que a da Itália. O presidente é um dos fatores e risco no nosso caso.

Na Argentina e na Alemanha, dois países federativos como o nosso, o presidente Alberto Fernández e a chanceler Angela Merkel buscaram a cooperação com os estados para uniformizar as medidas e verificar a necessidade de adaptá-las à características de cada região. Fernández procurou o ex-presidente Macri para buscar consenso interpartidário no combate ao vírus. Merkel tem se mostrado uma liderança firme, solidária e cooperativa. Provavelmente colherá resultados muito mais positivos para sua sociedade. Até Trump está buscando formas de cooperação com os governadores, independente da polarização partidária que assola a política americana.

Trump e Bolsonaro se mostram muito mais interessados em evitar a recessão econômica, que já é inevitável, do que em minorar a gravidade da evolução do quadro epidêmico. Têm apresentado mais medidas de alívio fiscal e monetário para a economia, do que ações mais enérgicas e eficazes em benefício da saúde pública.

Hoje, só existe uma providência para evitar catástrofe de grande envergadura. O rigoroso isolamento social, o confinamento da população, o fechamento de portos, aerportos, transporte público municipal, intermunicipal e interestadual, exceto de cargas. É uma solução com sequelas econômicas e sociais inevitáveis. Representará, também, uma carga inédita de stress para as pessoas. Nunca, na história das gerações presentes, viveu-se a contingência de isolamento social comulsório e prolongado. As gerações nascidas digitais terão menor dificuldade de se adaptar. A maior parte de seu relacionamento já é remoto, por via digital. Para elas, interações grupais online, aprendizado e compras pela Internet são rotina. As gerações analógicas integradas à vida digital terão menos stress. Para os totalmente analógicos será mais difícil. Para todos, o convívio prolongado em reclusão compulsória com familiares ou colegas de coabitação será um duro teste. É uma dinâmica de relacionamento muito diferente da vida voluntária sob o mesmo teto, com plena liberdade de ir e vir. Uma nova rotina que testa os limites de tolerância de cada um, que pode esgarçar os padrões de convivência.

Nada está dado, nada é conhecido, nada é previsível. Vivemos uma situação sem similar na nossa experiência de vida. Sem vivência de situações extremas como esta, cada novo evento testará nossos limites. O desassossego será enorme. Haverá escolhas trágicas e privações afetivas impensáveis. Vamos aprender vivendo com as surpresas de cada dia. Se tivermos sabedoria, temperança e sensatez, aprenderemos muito, nossas sociedades ficarão melhores e nossas democracias mais fortes.

Publicado originalmente no Blog do Matheus Leitão/G1

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