• face
  • twitter
  • in

O principal formulador da política cultural de Bolsonaro, Roberto Alvim, Secretário da Cultura, caiu, em episódio revelador, no qual copiou em pronunciamento para lançar o prêmio para artes texto do discurso que Joseph Goebbels, o chefe da propaganda de Hitler, fez na antevéspera da grande queima de livros promovida pelo regime em Berlim, em 10 de maio de 1933.

Não foi coincidência, nem um pronunciamento infeliz, com equivocada citação. Era a explicitação de uma proposta de cooptação de artistas, das artes cênicas, incluindo a ópera, das artes plásticas, escultura em destaque, da literatura e da música, ela também uma cópia do projeto de Goebbels. Foi a expressão sincera dos fundamentos ideológicos do programa cultural do governo Bolsonaro.

Os recursos anunciados para o prêmio nacional, que seria o instrumento da cooptação, são abundantes, da ordem de R$ 20 milhões, só para a parte das artes. O prêmio teria "curadoria" por segmento, outro nome para escolha ideológica. Haveria um programa adicional para encomendar biografias e textos de história do Brasil, para "escrever a verdadeira história". Entenda-se editar a história para adequá-la à narrativa autoritária, como fizeram Hitler e Stalin. E o cinema já tem seu próprio mecanismo de financiamento.

Está claro que caiu o articulador intelectual de um plano de dirigismo cultural e educacional, mas não o projeto. Ele era coerente com as promessas e declarações de Bolsonaro sobre cultura e história. Caem as últimas máscaras que pretendiam dar ao governo uma fantasia liberal.

O modelo nazista também não foi incidental. Foi intencional e estudado. Expressava plenamente os desejos do grupo no poder e seu líder de impor uma narrativa que justificasse e legitimasse a dominação política de longo prazo. Um projeto obscurantista, censório e de cooptação de artistas oportunistas e ambiciosos dispostos a vender a alma a este projeto faustiano.

Goebbels não deixou qualquer campo de ideias livre de sua intervenção. Controlou a produção cultural, o sistema educacional, a imprensa, com destaque para o rádio, um instrumento que usaram com muita competência para a doutrinação e grande parte da igreja Protestante. Logo no início do regime, 250 escritores fugiram da Alemanha para escapar à sanha nazista, com Thomas Mann à frente. Mais de 800 pastores da igreja Luterana foram presos. Os estudantes, acompanhados por forças da SA e da SS, queimaram 20 mil livros, logo depois do pronunciamento que foi importado para o projeto cultural do governo brasileiro.

Em 2012, o especialista em inteligência militar alemã, Kenneth J. Campbell, escreveu um artigo detalhando a politica de propaganda e controle de Goebels para o American Intelligence Journal, dirigido à comunidade de segurança nacional americana, amplamente lido por oficiais da inteligência militar, analistas da NSA, da CIA, do FBI e da Homeland Security, para "alertar os analistas para que nunca subestimem os inimigos da América, como Goebbels, um 'jovem scholar sensível', que se tornou um monstro quando ganhou autoridade. Do seu cargo, cumpriu sua tarefa com fanatismo".

Não foi surpresa o surgimento de um Goebbels na Alemanha, como não devia ser surpresa o surgimento de uma cópia sua medíocre no Brasil. As lideranças nazistas alertaram sempre, antes de chegar ao poder, sobre o que pretendiam fazer. Aqui, também. O reitor Gresham College, de Londres, Richard J. Evans, especialista na história do Terceiro Reich, em resenha da biografia de Hitler por Volker Ullrich (Hitler: Ascent, 1889–1939) para a revista The Nation, registra como esses alertas não foram vistos como ameaça, antes de os nazistas chegarem ao poder. Na biografia, Ulrich conta como os jornais foram enfraquecidos pela pressão econômica do governo nazista. Editores foram forçados a deixar o cargo, repórteres eram disciplinados ou presos.

Goebbels instrumentalizava o projeto de Hitler, com toques pessoais, que não incomodavam o Fürher, porque para ele, escreve Evans, educação era uma questão de instrução prática, nada tinha a ver com a transmissão de conhecimento, menos ainda com os valores humanistas que haviam animado a República de Weimar, por ele destruída. Antes da chegada de Hitler ao poder, um quinto dos alunos universitários alemães estavam na área de humanidades. Na véspera da guerra, eles já eram um décimo. O número de matriculados em universidades caiu para menos da metade. Universidade só para uma pequena elite, o resto precisava era aprender ofícios. No controle da Câmara de Cultura do Reich, Goebbels financiou pintores, escultores e compositores e baniu os artistas considerados subversivos. Evans alerta que o objetivo principal do projeto educacional e cultural dos nazistas não era despolitizar ou alienar, mas instilar um novo sentido de patriotismo, discriminatório e totalizante.

Tudo isto soa familiar demais entre nós, se lembramos declarações do presidente, de seus ministros Abraham Weintraub e Ernesto Araújo, para que se possa imaginar que apenas o leviano Alvim era portador deste vírus abominável. É um projeto, completo, coerente, ainda que tosco e mal articulado. Mas é, sem dúvida, uma das maneiras pelas quais se acaba com a democracia. O título do artigo-resenha de Evans é "Um alerta da história", e a chamada "uma nova biografia de Hitler nos lembra que há mais de uma maneira de destruir a democracia".

Pois é, a cópia sem originalidade alguma de Goebbels por Alvim deveria ser um alerta de que o projeto cultural que ele articulava não caiu com ele e, enquanto ele estiver em vigor no governo, é um dos instrumentos pelos quais se destróem democracias. Temos um governo disfuncional e autoritário, com um projeto educacional e cultural perigoso para a democracia e para o Brasil.

Boots
Pin It

Mais recentes

07 Nov 2020
24 Fev 2020
29 Out 2019
20 Ago 2019
24 Out 2017
28 Nov 2016
04 Mar 2016

Mais Artigos

Back to Top