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A decisão de Donald Trump de assassinar Qassem Suleimani, o estrategista militar iraniano, surpreendeu pelo inesperado, mas não por seu teor temerário, nem pela forma. Governantes incidentais chegam ao poder em eleições atípicas, de forma imprevista. Ocupam a chefia do Executivo de seus países despreparados e dispostos a fazer corte raso nas políticas públicas, inclusive as mais bem sucedidas. Demolem instituições que contrariam os interesses que representam, desprezam a lei e a justiça. Têm particular desapreço pelas burocracias profissionais, capazes de relativa autonomia, principalmente a diplomacia profissional. Trump afastou o Departamento de Estado do centro decisório, só nomeia secretário de Estado pessoas que aceitam trabalhar isoladamente, sem recorrer aos profissionais da política externa. Bolsonaro nomeou como chanceler um diplomata medíocre, em meio de carreira e ressentido. Ele encostou os mais experientes diplomatas, os profissionais no topo da carreira. Deixou o Brasil sem política externa e se esmera em mostrar que o objetivo do governo é se tornar um sabujo de Washington. Boris Johnson desenvolveu sua política externa de um tema só, Brexit, sem o concurso e, não raro, contra a opinião do Foreign Office, a casa da diplomacia profissional britânica.

Trump decidiu praticamente sozinho ordenar o assassinato do líder militar iraniano Qassem Suleimani, surpreendendo o comando militar dos Estados Unidos. Discutiu as opções para responder a ataques recentes com apenas cinco assessores. Entre eles não havia um só interlocutor com experiência suficiente em estratégia militar ou, mesmo, política diplomática. Seu principal interlocutor foi o assessor para Segurança Nacional, Robert O’Brien, um advogado sem expertise na área, com alguma experiência em organizações multilaterais. Foi representante do governo de G. W. Bush nas Nações Unidas. É o quarto a ocupar o posto, nestes menos de quatro anos de governo Tump. Ele mesmo ficou surpreso, quando Trump escolheu a mais drástica opção que lhe apresentaram. O secretário de Estado, Mike Pompeo estava entre os consultados. Pompeo, como se sabe, era deputado do Tea Party, a facção de ultradireita do partido Republicano, foi militar e chefiou a CIA. Sempre defendeu uma posição mais dura no Oriente Médio. O secretário de Defesa Mark T. Esper, era lobista da indústria privada fornecedora das forças armadas. Gina Haspel, diretora da CIA, funcionária de carreira da agência e acusada de práticas de tortura no governo G. W. Bush. Mick Mulvaney, chefe da Casa Civil interino, ex-parlamentar. Eric Ueland, funcionário de carreira da assessoria do Senado, o assessor parlamentar de Trump. Todos têm em comum, além da inexperiência em estratégia militar e externa, o fato de que tenderiam a apoiar qualquer decisão do presidente, sem questionar sua eficácia ou seus custos. Deixou os comandantes militares americanos atordoados.

Trump pegou os aliados europeus de surpresa e os jogou num turbilhão de contradições. Com sua habitual descortesia não os avisou e deixou-os muito irritados. Estão, agora, a tentar apagar o incêndio provocado pelo americano na geopolítica do Oriente Médio. Todos se mostram preocupados com os riscos exponenciais de uma escalada do conflito na região. Os dirigentes europeus concordam que Suleimani era um sério inimigo comum e um risco regional importante. Mas, são também unânimes em condenar a ação americana. O que se viu foi uma reação consensual e concertada para “desescalar” o conflito. A diplomacia europeia — Macron e Merkel mantém a centralidade da diplomacia profissional — entrou em ação imediatamente. Procura acalmar as lideranças no Oriente Médio e evitar uma escalada do conflito rumo a uma guerra aberta. A censura à decisão intempestiva de Trump veio praticamente nos mesmos termos, da Alemanha, França e Reino Unido e, embora feita em linguagem diplomática, foi inequívoca. Para eles, foi uma decisão de extrema imperícia e impulsiva, que aumentou a instabilidade em um momento de alta tensão na região de maior risco estratégico do mundo atualmente.

Aos poucos, vai surgindo o sombrio inventário dos efeitos colaterais da decisão impulsiva de Trump. Ele desestabilizou a precaríssima geopolítica regional, sem medir consequências, sem avaliar riscos, sem contrapor os ganhos à inevitável fieira de perdas e danos. Prejudicou toda a ação diplomática e militar de contenção do Estado Islâmico. O assassinato na avaliação das principais potências europeias pode provocar uma escalada com alta probabilidade de terminar em guerra aberta. “Ninguém quer uma guerra no Oriente Médio” é a síntese do entre os aliados europeus dos EUA. No Oriente Médio, países alinhados a Washington como Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos, emitiram sinais diplomáticos pedindo calma e manifestando a preocupação de que a morte de Suleimani abale seriamente as fundações nas quais se assenta a presença dos Estados Unidos na região. Todos são alvos potenciais da realitação iraniana. O assassinato de Abu Mahdi al-Muhandis, o homem-chave das milícias xiitas, ao lado de Qassem Suleimani, interrompeu as iniciativas contra o estado islâmico, que envolviam treinamento e cooperação com o Iraque. A Otan foi obrigada a suspender suas missões de treinamento no país. O parlamento iraquiano aprovou a decisão de promover a retirada de tropas estrangeira do país.

Mike Pompeo, numa clara demonstração da ingenuidade arrogante que domina o governo americano, reclamou dos Europeus. Ele não gostou da atitude pouco cooperativa dos britânicos, franceses e alemães. Ele imagina que o assassinato ajuda a salvar a Europa do terrorismo. Como reagiram os europeus? Boris Johnson não interrompeu suas férias na exclusiva ilha privada de Mustique, em São Vicente e Granadinas. Macron conversou com Putin, falou o que todos estavam falando. Sua secretária para Assuntos Europeus, Amélie de Montchalin sintetizou o sentimento de todos, o mundo acordou mais perigoso, disse. Está claro que combinaram atitude conjunta das potências europeias. Os aliados americanos da região, Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos, todos alvos possíveis da retaliação do Irã, manifestaram preocupação com a desestablização do precário quadro regional e pediram soluções políticas para o confronto e a escalada decorrentes da ação americana.

A Rússia, alida do Irã, condenou os Estados Unidos pelo “passo aventureiro” que aumentou a tensão na região. A China pediu a todos, especialmente aos Estados Unidos, que ajam com calma e autocontrole para evitar outra escalada do conflito. Nota do ministério de Relações Exteriores chinês condena o uso da violência e afirma que a perigosa ação militar americana violou as normas básicas das relações internacionais e agravou as tensões e turbulências regionais.

As principais potências mundiais reagiram muito mal à decisão de Trump. Em todas as capitais a convicção é que ele é errático, decide por impulso e sem estratégia. Não passou despercebido para ninguém que Trump agiu contra suas reiteradas afirmações de que terminaria com as guerras e que os EUA deixariam de ser o gendarme do mundo. Pressionado pelo impeachment, de um lado, e pela campanha eleitoral que se aproxima, de outro, parece ter preferido inventar sua guerra particular.

Trump não tem competência para lidar com a crise internacional que ele próprio criou. Ela tem potencial para desestabilizar a geopolítica global. A arrogância e a autossuficiência o impedem de consultar quem tem a expertise para gerenciar a crise e levá-la ao melhor termo possível nas circunstâncias. Ele não está manejando a crise. Só sabe escalar o conflito e este é o risco principal. Os governantes do Irã tendem até a ser mais equilibrados do que ele. Mas, numa escalada de retaliações de parte a parte, pode-se facilmente perder o controle. A decisão do parlamento do Iraque, mesmo que não tenha o efeito de retirar as tropas estrangeiras, em particular americanas, do país, foi uma derrota para o ocupante incidental da Casa Branca. Trump conseguiu pôr a perder todo o esforço para preparar o Iraque para ser um aliado estratégico numa região conflagrada do Oriente Médio. O mundo está definitivamente mais perigoso com um governante incidental, despreparado, no comando da maior potência militar.

 

Versão atualizada da publicada originalmente no Blog do Matheus Leitão/G1.

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