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O presidente do Chile, Sebastián Piñera, pediu desculpas ao povo, quando já colecionava 15 mortos pela repressão brutal do protestos de rua. Quando já eram dezenove os mortos, pediu a seus ministros que renunciassem e prometeu cancelar o estado de exceção, se for possível. Parece faltar uma renúncia na lista presidencial, a dele próprio. Um presidente que se declara em guerra contra seu povo descontente com os descaminhos da política econômica oficial e a desigualdade gerada pela ditadura Pinochet, que nem mesmo os governos social-democratas conseguiram debelar. Pediu desculpas por ter interpretado mal a situação e as necessidades da população. Ora, qualquer governante em regime democrático tem a obrigação de ouvir seu povo. Nenhum está autorizado a reprimi-lo à bala quando grita seu descontentamento. Comportou-se concretamente como se em guerra estivesse contra os chilenos.

O modelo chileno de desenvolvimento era muito menos avançado do que os liberais de todo o mundo diziam. Não conseguiu superar sua eterna dependência ao extrativismo de exportação. Continuou prisioneiro de commodities. A queda do preço das commodities agrícolas e minerais, desvelou as profundas desigualdades do modelo. O envelhecimento da população, uma das primeiras a se urbanizar e fazer a transiçao demográfica na América do Sul, mostrou a fragilidade e a iniquidade do modelo previdenciário dos chicago boys de Pinochet. Só agora Piñera descobriu as fragilidades do modelo chileno, pede desculpas por não ter entendido a história recente de seu país e promete uma renovação no governo, que diz será reorientado para programas sociais. Aqueles que duvidam de que seja sincero e capa de fazê-lo tem muitas razões para tanto. Pediu a ajuda de sua antecessora, a social-democrata Michelle Bachelet, hoje alta comissária para direitos humanos da ONU. Ela prometeu ajudar. Pode contar a Piñera como lidou com os protestos estudantis em seu governo e porque não conseguiu mitigar as injustiças do modelo econômico chileno.

Se os países sul-americanos querem se mirar em algum exemplo, de como conciliar responsabilidade fiscal e prioridade social, devem olhar para o ultramar. Mais precisamente, para Portugal, que elegeu um primeiro-ministro socialista, em manifestação de repúdio à austeridade imposta pela União Europeia dominada por conservadores neoliberais. António Costa, reeleito recentemente, preferiu uma aliança informal à esquerda, a uma coalizão formal com a centro-direita. Seu arranjo político foi chamado pejorativamente de geringonça. Hoje, gerigonça é elogio. Portugal tem contas equilibradas e não reduziu, ao contrário aumentou, o investimento social. Está em sintonia com as mudanças globais disruptivas e com a revolução digital. O país é pequeno, mas sabe tirar proveito de todas as vantagens que tem. A geringonça está longe de ser perfeita, mas à luz dos regimes de arrocho fiscal e transferência de rendas para os mais ricos, é um oasis. A principal lição de Portugal está mais na lição política, do que nos resultados, sempre relativos, ainda mais em uma Europa que jamais conseguiu se recuperar inteiramente da crise de 2008. Portugal mostrou ao mundo que é possível conciliar equilíbrio e investimento social, a austeridade não é o único caminho, certamente não é uma solução justa. Além disso, embora possa dar resultados brilhantes para o mercado financeiro, suas sequelas tendem a produzir grande insatisfação social e ameaçar a democracia.

Quando o descontentamento explode nas ruas, governantes como Piñera declaram guerra ao povo e, quando o povo não recua, nem se intimida, pede desculpas e diz que não entendeu. Que os enganos do presidente chileno sirvam de lição àqueles que ainda acreditam na miragem das economias voltadas exclusivamente para o mercado financeiro, que promovem a austeridade fiscal e deixam o povo se virar por conta própria.

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