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O realismo político aconselha que se tenha consciência de que o poder cativa quem o exerce e cria a tentação de abusar dele. Toda pessoa em posição de poder tende a sair dos limites. A questão é saber o limiar, a partir do qual, esse abuso leva à indignação e à destituição de quem exerceu o poder além da medida. Há abusos privados e abusos públicos. O caso privado mais ruidoso recente foi o de Harvey Weinstein, poderoso produtor de Hollywood, acusado de ser um assediador sexual serial. O caso deu origem ao movimento #Metoo, que levou a uma fieira de denúncias contra outras pessoas por assédio sexual. O abuso do poder privado se resolve com demissão e processo judicial. Mas, e quando é político e a vítima a sociedade como um todo?

O mundo contemporâneo está repleto de exemplos de excessos dos governantes, mesmo em democracias avançadas, como o Reino Unido e os Estados Unidos. É um caso nítido de abuso de poder, com várias outras implicações, que está embaralhando as cartas do jogo sucessório nos Estados Unidos. A revelação por um denunciante anônimo, whistleblower em inglês, de que o presidente Donald Trump pressionou, em telefonema, o presidente da Ucrânia para que investigasse o filho do ex vice-presidente Joe Biden, na frente nas pesquisas para as primárias do partido Democrata, transformou-se no maior escândalo político do país, desde o Watergate. Trump começou por tentar esconder a transcrição da conversa que teve com o recém-eleito Volodymyr Zelensky. Pressionado, foi obrigado a torna-la pública e sua leitura deixa clara a atitude abusiva do presidente americano.

É um ato gravíssimo de abuso de poder, porque o presidente praticamente chantageou o governante ucraniano, retendo recursos de ajuda militar para a defesa do país sob ameaça da Rússia. O uso do poder para fins políticos pessoais é uma ofensa grave à Constituição e à própria democracia. Mas, para analistas independentes, é mais grave, porque o presidente feriu princípios básicos da segurança nacional do país. Para o partido Democrata, que vinha resistindo à ideia de impeachment, apesar dos vários crimes de responsabilidade cometidos por Trump desde sua posse, foi a gota d’água. A presidente da Câmara, de maioria Democrata, deu início ao processo de impeachment. Já começaram a ser feitas as primeiras intimações de autoridades para deporem na comissão de julgamento. Há consenso, porém, de que o processo será barrado no Senado, controlado pelos republicanos.

Será um processo ruidoso. Trump partiu para o ataque, dizendo que é a maior caça às bruxas da história do país. Os republicanos resistem a admitir a possibilidade de demiti-lo, mas começam a surgir dissidências. Os procedimentos para o impeachment acontecerão em paralelo com as primárias. A republicana ainda não começou. Já há três políticos, periféricos, que se apresentaram para desafiar Trump. O escândalo pode estimular lideranças mais reconhecidas a entrar na disputa.
Quando se inicia um inquérito desses, o seu primeiro resultado é aumentar a incerteza. Tudo pode acontecer. Dependendo de novos detalhes e surpresas que surjam das investigações e depoimentos, os republicanos podem optar por impedir a recandidatura de Trump ou, mesmo, apoiar o impeachment no Senado. Ainda parece improvável, porque seriam precisos mais de 20 votos republicanos para fazer os necessários 2/3 dos senadores. Dependerá também, da reação da opinião pública, em especial dos eleitores republicanos. Há analistas considerando que este caso é muito mais grave do que Watergate, talvez o mais grave da história americana contemporânea. O processo no Senado, presidido pelo presidente da Suprema Corte, é inevitável se a Câmara aprovar denúncia de impeachment contra Trump.

Hoje, a maioria republicana ainda acha que Trump nada fez de mais. O telefonema seria um deslize fruto da sua personalidade impulsiva e da sua inexperiência política. Difícil de sustentar. A incivilidade de Trump é notória. Mas, ele está longe de ser politicamente ingênuo. Foi com muita esperteza que ele ganhou as primárias do partido Republicano e terminou vencendo Hillary Clinton no voto de delegados. Inexperiente é o comediante Zelensky que conseguiu transformar a sátira que protagonizava na TV, sobre um cidadão comum que se torna presidente, em realidade. Até por isso, as maquinações de Trump são mais delituosas, porque não tinha como interlocutor um político com experiência suficiente para confronta-lo na chantagem.

O affair terá impacto nas eleições do ano que vem. Há republicanos imaginando que o impeachment atingirá os democratas e não Trump. Alguns democratas também temem este efeito reverso, um tiro pela culatra. Muitos políticos e analistas, entretanto, dizem que dependendo das reações dos americanos, Trump pode mesmo acabar afastado. A derrota nas eleições dependerá dos independentes, do voto volante, que oscila entre republicanos e democratas dependendo das circunstâncias. No momento, Trump só tem aprovação, fortíssima, entre republicanos. Pela mais recente pesquisa da NPR/PBS, 90% dos republicanos aprovam o governo Trump, enquanto ele é reprovado por 88% dos democratas e 52% dos independentes. A pesquisa detectou razoável interesse pelo impeachment, 68% estão acompanhando com atenção o processo. Entre os republicanos, 80% estão acompanhando atentamente, entre os democratas, 70% e entre os independentes, 64%. Com toda esta atenção, desde o início, é difícil que o impeachment não influencie as escolhas eleitorais. Isto só ocorrerá, se ele esfriar por falta de novas revelações.

No momento, a orientação partidária divide as opiniões sobre a gravidade do caso. Os republicanos ainda não o consideram muito sério, só 14% pensam assim, contra 85%. Mas, para 82% dos Democratas e 52% dos independentes, é muito sério. O problema, para Trump, é que entre os que o apoiaram no Nordeste dos EUA, 56% acham que é um caso muito sério e, no Meio Oeste, 54% pensam assim. A maioria quer que o denunciante deponha no processo de impeachment. Para tanto, ele abandonaria o anonimato, mas passaria a ser protegido legalmente de qualquer retaliação. Este depoimento pode ser um divisor de águas.

Por que esse retrato do humor americano é importante? Porque, se a opinião pública dos republicanos voltar-se contra Trump, ele pode ver o fim de sua carreira política mais cedo do que deseja. Ele pode ser afastado da Presidência ou retirado da cabeça da chapa republicana. Eu, não tenho palpite sobre o que acontecerá. Tenho a esperança de que o caso represente um incentivo geral à exoneração daqueles que abusam do poder que lhes foi delegado democraticamente pela maioria dos eleitores.

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