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A trama do primeiro-ministro Boris Johnson, ou BoJo, para romper o equilíbrio constitucional britânico é cada vez mais espessa. Cercado por medidas aprovadas pelo parlamento e sancionadas pela rainha, que desarticularam seu plano de uma saída sem negociação da União Europeia, ele agora diz que está procurando uma forma de elidir as leis. Como um Hulk, o monstro verde de raiva que faz o bem por acaso, destruindo tudo em seu caminho. Não é minha a metáfora pobre. É dele próprio, que diz ser o Hulk e, como ele, sempre encontra uma saída. No caso, um meio de desobedecer às leis recém-aprovadas. O erro maior da comparação é o uso inapropriado do verbo encontrar. Hulk não encontra sempre a saída, ele demole o que estiver à sua frente para sair.

Terra arrasada é o que aparece no relatório oficial sobre o impacto de uma saída sem negociação da UE (no deal Brexit), que Boris Johnson viu-se forçado a divulgar na semana passada. O primeiro-ministro recusava-se a tornar público o relatório oficial de calamidades previstas. O parlamento exigiu a divulgação e o que se viu foi a confirmação oficial da catástrofe anunciada por numerosos economistas. Recessão, perda de renda, desabastecimento, empobrecimento.

O que leva um governante a buscar obstinadamente algo que resultaria em perdas e sofrimento para a maioria de seu povo? Creio que a resposta completa passa pela psicologia. A autoidentificação de BoJo com o Hulk é sintomática. Mas, a maior parte da explicação é institucional. O enfraquecimento das defesas da democracia aos abusos dos governantes. Parlamentos polarizados, tribunais vacilantes, população dividida e confusa, vulnerável às fake news e às explicações conspiratórias.
Em boa medida, governantes abusam do poder porque os freios e contrapesos não funcionam bem. No caso britânico, de parlamentarismo monárquico e regras não escritas, as interpretações e regulamentações da tradição constitucional aumentaram o poder autocrático dos primeiro-ministros. Eles não se vêem mais compelidos a deixar o cargo diante de derrotas eloquentes, como as três recentes impostas a BoJo. A regra escrita sobre perda de confiança opera a favor do primeiro-ministro. Ao forçar o recesso estendido do parlamento, Johnson tornou quase impossível evitar o desastre de uma Brexit abrupta. Só restaria obter um adiamento. E foi o que o parlamento determinou ao primeiro-ministro. No reinício dos trabalhos, os parlamentares poderiam, então, optar por eleições gerais ou um novo referendo. BoJo avisa que vai desobedecer e que, como o Hulk, quanto mais raiva tem, mais poderoso fica. Se conseguir derrubar os muros da legalidade, além de uma saída desastrada, provocará abalos graves na democracia britânica que parecia inabalável, como outrora se imaginava fosse o império britânico.

Parece que estamos destinados a ver hulks enraivecidos no topo de governos democráticos a esmurrar as instituições. BoJo no Reino Unido, Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil. Nos Estados Unidos, dois ex-governadores e um ex-parlamentar republicanos estão desafiando Trump nas primárias do partido. Mas, primeiro, precisam lutar para que elas não sejam canceladas como deseja o presidente. São eles, Mark Sanford, que governou a Carolina do Sul, Bill Weld, que governou Massachussets, e Joe Wash, que foi deputado pelo estado de Washington. Os republicanos na ativa parecem intimidados e não se apresentam para disputar a presidência, como se não fosse o cargo mais almejado da política.

Há quem diga que as primárias queimam os candidatos e prejudicam suas chances nas eleições. Não creio que seja assim. Nos Estados Unidos, por exemplo, as preliminares são mais democráticas do que o jogo principal. São mais competitivas e mais abertas do que a eleição polarizada pelo eixo bipartidário dominante. Claro, seria melhor para todos, se os debates se concentrassem na exposição do projeto político de cada um e não descambassem para os ataques pessoais. Quando a desqualificação do outro prepondera sobre a explicação das razões de cada um para desejar a Casa Branca, as primárias podem mesmo fortalecer o adversário do outro partido. Sobretudo se do outro lado não houver primárias.

O debate de 3/9 entre os 10 principais candidatos às primárias do partido Democrata teve alguns embates, mas serviu para dar aos eleitores uma boa ideia sobre a diferença de visões para o país. Temas relevantes como imigração, mudança climática, controle da posse e do porte de armas foram amplamente debatidos. Alguns candidatos, como a senadora progressista pela Califórnia Elizabeth Warren, começam a ajustar suas posições, buscando situar-se mais próximos ao centro, ao sentirem suas chances crescerem. Outros, como o deputado texano Beto O'Rourke fez com controle de armas, focam um assunto em particular para buscar aumentar suas chances. Ou, como o prefeito de South Bend, Indiana, Pete Buttigieg, tentam se colocar numa posição de equilíbrio, na esperança de que os eleitores procurem alguém entre os progressistas e os mais moderados, além de formular propostas para as áreas rurais, redutos tipicamente republicanos. Numa democracia na qual o voto popular não tem precedência — tanto G. W. Bush, quanto Trump perderam no voto popular — a exposição prolongada ao eleitor, em debates, conferências, comícios, é uma forma de dar mais voz ao eleitor. Quando Trump manobra contra as primárias, ele está afastando o povo da decisão sobre se deve ou não concorrer à reeleição.

A democracia precisa da exposição máxima dos políticos ao exame crítico da sociedade. É um dos freios do sistema. Daí a importância capital da liberdade de expressão. Quando BoJo sonega o relatório sobre os impactos da decisão que deseja impor ao país, ou Trump manobra para ser candidato à reeleição sem ouvir os eleitores, estão fugindo à exposição. Nas democracias, os reis precisam aparecer sempre nus aos olhos dos cidadãos. Todo tipo de artifício hoje utilizado para reduzir a nudez dos governantes, da censura ao sigilo, das fakes news às propagandas enganosas, da ausência em debates à redução da competição política abala a democracia. O maior inimigo dos fundamentos democráticos nem chegam a ser os hulks enraivecidos a esmurra-los. São aqueles que usam de todo tipo de artifício para esconder a nudez dos governantes.

Publicado originalmente no Blog do Matheus Leitão/G1

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