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O Brasil está em crise política e econômica desde o segundo semestre de 2014. A crise política tornou-se mais aguda durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff e pela progressão da Lava Jato, que deixaram sequelas indeléveis. As eleições de 2018 foram alimentadas pelas crises gêmeas, que se agravaram nos três anos seguintes e polarizaram a sociedade de forma ainda mais radical e irresolúvel. Foi, como já escrevi aqui e em outros espaços, uma ruptura político-eleitoral que pôs fim ao processo que organizava governo e oposição no país, em sintonia com a dinâmica típica do presidencialismo de coalizão.

Mas não foram eleições construtivas. Não realinharam o sistema partidário, nem deram solução política para a crise. Ao contrário, a eleição de Jair Bolsonaro tornou a crise crônica. Não é trivial. O país vive em estresse permanente, com um presidente que personaliza os conflitos, prefere sempre o confronto ao entendimento, só ouve seus devotos fiéis e empurra as instituições democráticas ao limite de sua resistência. O problema não está no despreparo evidente de Bolsonaro. A presidência teria mecanismos de contenção de danos. O problema é que a personalidade autoritária de Bolsonaro e a inflação de militares nos cargos da presidência neutralizaram a possibilidade destes mecanismos. A diplomacia também foi imobilizada pelo desmonte da carreira promovida por um ministro arrivista.

Assessores experimentados, com vivência técnica e política, diplomatas experientes, no topo da carreira, tendo servido como embaixadores em países e organismos, nos quais exercitaram a capacidade de negociar conflitos e reduzir pressões, limitariam os desmandos e deslizes presidenciais. Seriam amortecedores de atritos, que evitariam a continuidade e escalada de crises. Na ausência deles, as fricções se multiplicam, forçando as instituições, e criando o perigo de que pontos de nosso arcabouço democrático se rompam, por fadida de material, por excesso de tensão.

O isolamento internacional do Brasil já é um fato e nos causará prejuízos comerciais, financeiros e diplomáticos, piorando a crise. O relacionamento com os Estados Unidos, enquanto Trump estiver lá e quiser ajudar, não é bastante para compensar o estranhamento das relações com os outros países, todos parceiros importantes para nós como Alemanha, França, Argentina e Chile.

País em crise político-econômica, isolado internacionalmente, com um governante alheio aos problemas reais e às consequências de seus atos e declarações, preocupado apenas com uma agenda menor, personalista e preconceituosa costeia o desastre. Não há em operação ou ao alcance da vista, no momento, agentes políticos capazes de serem eficazes no amortecimento das crises, menos ainda na sua resolução. Há, todavia, numerosos multiplicadores de crises e impasses.

As incertezas e oscilações da conjuntura internacional, tanto econômica, quanto política, não ajudam. O embaixador Sérgio Amaral observou recentemente que os organismos multilaterais estão perdendo eficácia e retornamos ao domínio da geopolítica. Esta é uma forma de política internacional marcada pela demarcação de territórios, pelo tensionamento das relações entre países com interesses antagônicos no plano regional e internacional. O risco geopolítico global se tornou o novo normal. O presidente Donald Trump opõe-se sistematicamente à governança multilateral. Seguindo seus passos, Jair Bolsonaro faz o mesmo. Trump também é o principal agente a rejeitar uma economia global aberta.

A incerteza global e geopolítica é crescente. Sob a dominância da geopolítica as relações econômicas entre os países são politizadas. Aumentou a probabilidade de proliferarem boicotes, embargos orientados por objetivos geopolíticos, independentemente do dano que podem causar às economias doméstica e internacional. Como ocorre na guerra comercial de Trump contra a China. Ela já provocou a desaceleração da indústria nos Estados Unidos. Trump não se importa, ele acha que esmagará a indústria chinesa com sua atitude. Também cresce a probabilidade de conflitos geopolíticos com aumento dos focos de confronto militar.

Todo este cenário demandaria que o Brasil estivesse pronto para usar ao máximo seus recursos de soft power, para se proteger e para contribuir para a distensão geopolítica. Nossa diplomacia sempre foi ativa quando se tratou de reforçar, reformar e ampliar os mecanismos multilaterais de convivência pacífica. Contudo, o governo Bolsonaro enfraqueceu nosso soft power, imobilizando ou desativando suas principais fontes. Isolado internacionalmente e desvalido de seu principal poder de uso multilateral, o Brasil tende a mergulhar cada vez mais fundo em suas próprias crises. Mostra-se incapaz de atuar com eficácia e de mobilizar apoio para supera-las. Ao contrário as ações presidenciais têm contribuído para aumentar a tensão política e o conflito social.

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