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A Argentina vive uma crise permanente, desde a redemocratização. Que ninguém se engane. A ditadura militar foi uma crise muito mais terrível, em outra dimensão. A supressão das liberdades nunca é normal. Não se pode naturalizar a bestialidade. Vencida esta dolorosa página de sua história, o país soube, inclusive, fazer-se justiça e os principais responsáveis pela brutalidade daquele tempo foram condenados, sentenciados e cumpriram pena, sem artifícios mitigadores. Não foi nenhum peronista ou populista quem instalou a "justiça de transição", mas o conservador da Unión Cívica Radical (UCR) Raúl Alfonsín, eleito em 1983, cuja campanha esteve centrada nos direitos humanos. Foi ele que anulou a lei de dupla anistia decretada pelos militares, para julgar e processar os responsáveis pelos crimes da ditadura. Mas Alfonsín é menos lembrado por sua liderança na transição pela democracia, do que pelo fracasso econômico de seu governo, que o forçou a deixar a presidência antes do término de seu mandato.

O refundador da democracia argentina foi derrotado pelo inimigo insidioso que se instalou no tecido social do país e tem derrotado todos os governos, a inflação. Foi sucedido pelo peronista Carlos Menem, que confinou a crise na camisa de força da dolarização, com a caixa de conversão, que por um tempo criou a ilusão de estabilização sustentada. A hiperinflação foi reprimida, permitindo certo conforto econômico durante seu primeiro mandato e garantindo-lhe a reeleição, com a reforma política negociada entre ele e Raúl Alfonsín. Mas, já na segunda metade do novo mandato, a economia saiu de controle.

O sucessor de Menem, Fernando De La Rúa, da UCR, repetiria o fiasco econômico de Alfonsín e renunciaria, espantado da Casa Rosada pela crise econômica, em 2001, um ano de ruptura político-social. Eduardo Duhalde assumiu a presidência interinamente, conseguiu estabilizar precariamente a economia e dar espaço à eleição do também peronista Néstor Kirchner. Kirchner manteve o ministro da Economia de Duhalde, Roberto Lavagna, que pôde continuar seu trabalho. É o mesmo que teve pouco mais de 8% nas primárias deste ano.

O governo de Kirchner começou numa economia arrasada, após traumática moratória da dívida. Embalada pela relativa estabilização e pelo boom das commodities dos anos 2003-2007, a economia argentina cresceu com vigor. A pobreza caiu e a classe média recuperou parte do fôlego perdido. O breve sucesso econômico consolidou o poder e a aura dos Kirchner. Com a saúde abalada, Néstor abriu mão de disputar a reeleição, deixando a vaga para Cristina Kirchner. O primeiro mandato de Cristina também foi de crescimento, com exceção do ano da crise global da subprime, 2008. Em 2010, cresceu 10%. Deixou o governo com a economia em retração de 2,5%, devorada por uma inflação que ela varreu para debaixo do tapete da censura, escondendo e manipulando os dados da pesquisa oficial de preços feita pelo INDEC. A fragilidade da economia nos anos finais de seu governo ajudou a eleger Maurício Macri, agora derrotado por sua incapacidade de combater a estagflação que herdou.

É a memória dos “anos de ouro” da era Kirchner que pode dar a vitória a Alberto Fernández, com apoio de Cristina Kirchner, que concorre à vice-presidência. Se a chapa dos dois vencer, Cristina ganha o mandato de senadora e fica protegida pela imunidade parlamentar de mais de uma dezena de processos por corrupção.

Não há dúvida de que o período dos Kirchner no poder foi o melhor, do ponto de vista econômico-social, da Argentina nos 36 anos após a ditadura militar. Durante estes 12 anos, nove foram de crescimento econômico. Embora apenas dois de efetivo controle da inflação. Neste período, os dois líderes não foram capazes de oferecer soluções estruturais e duradouras para os problemas do país.

A conclusão fácil seria dizer, “é a economia, estúpido”. Mas, economia não é destino. É resultado de escolhas coletivas e falhas de liderança. O sistema político argentino está em frangalhos. A Unión Cívica Radical, o partido centro-conservador enraizado na classe média tradicional, entrou em decadência terminal, desde o “pacto de Olivos”, entre Alfonsín, sua principal liderança, e Carlos Menem. A crise econômica destroçou a classe média argentina tradicional, provocando insuperável anemia de votos do “radicalismo”.

O peronismo é uma legenda vazia, dividida, de tradição personalista, atrelada a um sindicalismo institucionalmente arraigado, já sem base econômica. Continua a ser, contudo, a força decisiva da política argentina. Dividido, perde. Unido, tem ganhado sempre. Os peronistas encontraram no casal Kirchner, uma espécie de reencarnação do casal Perón, Juan Domingo e Evita. Não aprenderam com a história. Ela se repetiu como tragédia com o casal Perón 2.0, Juan Domingo e Isabelita e ajudou a escrever as páginas mais dolorosas da história do país.

O pêndulo entre esta esquerda corporativista encarnada no “justicialismo”, no peronismo sem Perón, e a centro-direita sem partido é regulado pelos desacertos na economia. Os erros se repetem. Macri, agora, faz o que Cristina fez e levou o país à derrocada econômica. Congela preços, oferece estímulos artificiais, para ver se consegue escapar da derrota nas urnas. Dificilmente terá sucesso.

Uma esquerda fixada em personalidades, incapaz de produzir um coletivo de lideranças renovadoras e eficazes. Uma direita refém de classes ressentidas e em declínio histórico. É uma combinação que pode levar um país ao fracasso como sociedade e nação. A Argentina tem muitos recursos, um nível educacional bem mais elevado do que o nosso. Já era uma sociedade urbanizada nos anos 1960, quando o Brasil era ainda um país predominantemente rural. O que a aprisiona em um tango repetitivo, de alegrias fugazes e dores persistentes, é uma elite decadente, tanto empresarial, quanto sindical, uma política fragmentada e personalista, na qual se aposta em pessoas, mais do que em ideias. Prisioneira de um passado ilusório, tem dificuldades em mirar o futuro. No auge da crise de hiperinflação, do panelaço que levou o país à ruptura, uma desesperada mulher de classe média gritou para a jornalista Míriam Leitão, que fazia um especial para a Globo, “no hay futuro”. Quanto tempo uma sociedade suporta essa ausência de futuro? Não é uma pergunta apenas para a Argentina.

Publicado originalmente no Blog do Matheus Leitão/G1

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