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Quando chefes de governo optam pelo confronto interno e externo como modo principal de ação política, estressam a democracia e aumentam exponencialmente os riscos geopolíticos. Desde o final da Guerra Fria é a primeira vez que países têm em seus governos, dirigentes que usam a confrontação como estratégia política. Cultivam, desta forma, seus seguidores mais radicais e agressivos e forçam os limites das instituições. É o caso de Donald Trump, de Boris Johnson, recém-empossado primeiro-ministro britânico, de Recep Tayyip Erdogan, na Turquia e de Jair Bolsonaro.

As atitudes desses governantes têm um componente ostensivo de hostilidade a grupos específicos, sociais, ocupacionais, raciais e no relacionamento internacional. O mundo divide-se, para eles, entre aliados fiéis e inimigos desprezíveis. Os ataques racistas de Donald Trump a parlamentares eleitos e de Jair Bolsonaro a jornalistas e ao presidente da OAB são os marcadores mais claros desta atitude. Erdogan intimida e persegue jornalistas e opositores. Os três têm taxas de reprovação popular superiores às de aprovação.

Trump provocou uma reação de ódio racial entre seus seguidores supremacistas brancos, xenófobos e chauvinistas que assustou seus assessores pelo risco de uma escalada de violência étnica. O presidente dos Estados Unidos ofendeu o deputado Democrata negro por Maryland, dizendo que era um fanfarrão de um distrito infestado de ratos e criminosos. Um distrito obviamente de maioria negra. Antes disso, investiu contra quatro ativas deputadas Democratas, Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, Rashida Tlaib, de Michigan, Ayanna Pressley, de Massachussets e Ilhan Oman, de Minesotta. Críticas de seu governo, por fundadas razões, receberam do presidente como resposta que se não estão satisfeitas voltem para sua terra. As quatro são cidadãs americanas, três nasceram no país e uma se naturalizou na pré-adolescência. Num comício para seguidores radicais, provocou gritos irados de “voltem para casa”. Trump nem se desculpou, nem parou com a agressividade.

Adicionalmente, no front externo, Trump continua a escalar a guerra comercial com a China, a hostilizar o Irã e, no ato mais perigoso até agora, abandonou unilateralmente o tratado firmado com a Rússia de controle de mísseis nucleares de pequena e média distância. No embate com o Irã e no desmonte do acordo sobre mísseis, elevou o risco de uma nova proliferação de armas nucleares e de uso de armas de destruição em massa. Desde o fim da Guerra Fria, não se tinha risco nuclear originado da atitude geopolítica de uma grande potência.

O padrão de conduta política adotado por Jair Bolsonaro é similar. Frequentemente revela sua convalidação das violências cometidas pelo estado durante o regime militar, o reiterado preconceito contra indígenas, a intolerância com os que pensam diferente. No caso do presidente brasileiro há, também, quase sempre, um componente de retaliação pessoal, nesses ataques diretos a indivíduos que o incomodam com suas críticas ou suas atividades profissionais.

Trump e Bolsonaro se mostram inconformados com os limites a suas ações impostos pelo sistema de freios e contrapesos da democracia republicana, no Legislativo e no Judiciário, à checagem da imprensa. Ambos atacam os fatos com fakes. Estressam as instituições e põem em risco a estabilidade democrática. Erdogan transformou seu inconformismo em violação institucional e terminou por desmontar a democracia parlamentarista turca, transformando-a em autocracia presidencialista.
Boris Johnson ameaça a frágil estabilidade econômica europeia com sua promessa de Brexit sem acordo. Mas, o perigo maior é que esta opção reabriria a dolorosa questão irlandesa e poderia fazer retornar a violência. Brexit sem acordo significaria o fechamento das fronteiras irlandesas e seria uma fonte inevitável de conflito de dificílima solução. Há muito de bravata nas ameaças de Johnson. A correlação de forças no Parlamento não mudou e ele não conseguiria aprovar a Brexit sem acordo. Em resposta a esta evidente dificuldade institucional, o primeiro-ministro ameaça prorrogar ou suspender o parlamento, o que demandaria aprovação da rainha. Uma das poucas situações em que a expressão “rainha da Inglaterra”, para significar a ausência de poder real e uma monarquia puramente simbólica, não se aplica. Johnson dificilmente obteria a autorização da corte. Restaria a ele, que já assumiu no corner e dele procura sair na marra, convocar novas eleições. Ele espera conquistar a maioria adotando uma postura raivosa e radical, como Trump faz agora na pré-campanha presidencial nos Estados Unidos. Não garante a vitória, mas certamente aumenta a polarização e a violência política.

Esta política de confronto representa um risco concreto e presente à democracia e ao equilíbrio geopolítico global e regional. O envolvimento ostensivo de Bolsonaro nas eleições argentinas, no caso de vitória da oposição, pode fazer sangrar velhas feridas no relacionamento bilateral, suturadas com sabedoria diplomática ainda no regime militar. Curiosamente, esta sutura se deu na negociação trilateral para construção da usina de Itaipu, que hoje ameaça de impeachment do presidente e do vice do Paraguai. Por isso o presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, anulou unilateralmente o acordo com o Brasil assinado em maio sobre a partilha do excedente da geração da usina.
Estes são todos marcadores fortes das turbulências e perigos da grande transição estrutural global.

Publicado originalmente no Blog do Matheus Leitão/G1

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